“SATANÁS” não é “a ESTRELA da MANHÃ (“LÚCIFER”
הֵילֵל) de Is.14:12.
A Deo
docetur, Deum docet, ad Deum ducit[1]
Por que Satanás é chamado de “Lúcifer”?
Pode ser que nem todos tenham essa resposta. Entretanto, alguns conscientes dela,
usam alguns fundamentos de ordem etimológica e teológica com seus
desdobramentos distintos, para destacar e legitimar “Lúcifer” como referência a
Satanás, usando Is.14:12. Assim, este texto explicaria sua queda do céu, por
causa de suas ambições. O rei da Babilônia funcionaria aqui como sua
representação. Entretanto, neste ensaio esta
percepção será negada, por meio de: [1]
uma análise literária-histórica da expressão hebraicaבֶּן־שָׁחַר הֵילֵל (heylel ben-shahar) que funciona como origem do termo “Lúcifer”, [2] uma análise do co-texto literário de Is.14:12-14 e [3] o trato hermenêutico da passagem
delimitada (Is.14:12-14).
A expressão
hebraicaבֶּן־שָׁחַר הֵילֵל (heylel ben-shahar) usada
em Is.14:12 tem alguns desdobramentos fundantes na negação proposta neste
ensaio. Entretanto, inicialmente isolaremos os termos para pensá-los em 1) suas traduções, 2) usos no AT e 3) definições do contexto histórico.
Assim, com estes focos em voga, observemos primeiramente הֵילֵל (heylel) que pode ser traduzida como: “estrela da manhã” (The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon).[2]
Quanto ao uso não aparece em nenhum outro lugar no
Antigo Testamento (hapax). Muitos intérpretes, antigos e modernos, veem הֵילֵל (heylel) como uma designação
de Vênus, “a estrela da manhã”. Essa interpretação estava por trás da tradução
grega precoce do termo, bem como “luciferos” da Língua Latina (“brilhante”,
isto é, “Vênus”). A maioria dos intérpretes modernos acredita que Isaías está
usando um conto mitológico, bem conhecido, como uma analogia ao fracasso, as
consequências da rebelião e arrogância do rei da Babilônia, mas nenhuma
literatura conhecida corresponde aos detalhes da rebelião de “helel” (MATTHEWS; WALTON. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament, 2000, s. Is
14:12).[3]
De outro
lado o complemento de הֵילֵל (helel) envolve: בֶּן־שָׁחַר que pode
ser traduzido como: “filho da estrela, ou de real esplendor” (The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English
Lexicon).[4] Deste composto, a palavra שַׁחַר (shahar) era frequentemente personificada no Antigo Testamento a
uma deidade conhecida em inscrições fenícias e ugaríticas (MATTHEWS; WALTON. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament, 2000, s. Is
14:12). Ela aparece
quarenta e quatro vezes no AT com significados distintos. Além destas
perspectivas, a questão gramatical é importante, pois a relação de construto é
usada como “genitivo de especificação”, o qual limita uma qualidade (PINTO Carlos. Fundamentos para a
Exegese do Antigo Testamento, 1998, p.20).
Depois destas considerações devemos
destacar a origem literal do termo “Lúcifer”, vindo de Is.14;12. Na verdade, [Lucifer]
é o nome romano para “estrela da manhã” (helel), o qual desparece rapidamente
diante do esplendor do sol” (PFEIFFER. The Wycliffe Bible
Commentary: Old Testament, S. Is 14:12). Por esta razão, aparece na
Vulgata Latina[5] como tradução de “helel” (Is.14:12: “...quomodo
cecidisti de caelo LUCIFER
qui mane oriebaris corruisti in terram qui vulnerabas gentes”). Além disso, alguns pensam em “helel” num título dirigido
ao rei da Babilônia, não como um indivíduo humano específico (como Belsazar,
por exemplo), mas como representante ou encarnação de Satanás, que é considerado o
poder do trono do rei. O orgulho tirânico e a ambição expressas nos
versículos 13,14 estão fora de lugar em qualquer lábio, exceto em Satanás (PFEIFFER, Charles. The Wycliffe Bible
Commentary: Old Testament, S. Is 14:12).
Depois disto, observemos o co-texto
literário. O desenho argumentativo em que se encontra Is.14:12-14, tem suas
ligações estabelecidas nas afirmações anteriores e posteriores. Desta forma,
nosso recorte, partindo de Is.13 mostra “a sentença contra a/da Babilônia”[6]
(13:1). Além disso, entre os caps.13 e 14 [de Isaías] “Babilônia” aparece
quatro vezes (13:1,19; 14:4,22) e dentre esses somente em 14:4 aponta para o
seu “rei”.[7] Este
juízo é exposto como “dia de YHWH”[8]
(13:6,9; 14:3). Esses textos são definidos estruturalmente por Watts com as
seguintes partes (chamadas de “episódios”): [A] O peso da Babilônia (13:22a), [B] o destino da Babilônia e a esperança de Jacó (13:22b-14:7), [C] escárnio sobre um rei falido
(14:8-21), [D] três declarações de
YHWH (14:22,23) e [D] peso sobre os
Filisteus (14:28-32).[9]
Uma vez
definida a seção com seus desdobramentos definidos, observaremos 14:12-14 de
forma holística (contextualmente se falando). O texto declara em segunda
pessoa: “como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste
lançado por terra, tu que debilitava as nações![10]
Tu mesmo dizias” [...] em primeira pessoa: “eu subirei”[11]
[...] “exaltarei”[12]
[...] “me assentarei”[13]
[...] “subirei”[14] [...] “serei”[15].
De início está claro que todos os verbos dos vs.12-14 fazem referência a
“estrela da manhã, o filho da alva”. Ao voltarmos um pouco mais ficará claro
também que o apontamento em questão é dirigido ao rei da Babilônia (14:4,8-21).[16]
Assim, a delimitação não pode ser quebrada, de maneira que as ligações
contextuais expostas no texto, sejam vistas de forma antitética. Ignorar o
contexto é o mesmo que deixar de lado a intenção do autor escriturada no texto.
O desenho
argumentativo em que se encontra Is.14:12, tem suas ligações estabelecidas nas
afirmações anteriores e posteriores. Desta forma, nosso recorte, partindo de
Is.13 mostra “a sentença contra a/da Babilônia”[17]
(13:1).
Depois destes apontamentos nos voltemos,
para pensarmos Is.12:12-14 em sua interpretação. A tese interpretativa que é
objeto da discordância deste ensaio, entende que atrás do maligno sistema
babilônico estava Lúcifer (“Estrela do Dia”), o inimigo de Deus (v.12-15).
Parece que Lúcifer era um anjo que se rebelou contra Deus e queria levar
para si o culto que pertencia apenas a Deus. “Eu serei como o Altíssimo” (v.
14) é a ambição do maligno e a tentação que ele coloca antes do homem (Gn.3:5).[18]
Entretanto, questionamos: como fundamentaremos essa
percepção no contexto? O desenvolvimento contextual que trata a Babilônia e seu
rei foi quebrado de repente, mas em que momento no texto? Nossa abordagem de interpretação rejeita esta tese e
trata Is.14:12-14 num viés diferente.
Para
cumprirmos tal tarefa, invertamos a ordem dos versos, assim, as declarações
feitas em 12:13,14 são contrapostas com 12:12. Desta forma, em primeiro lugar,
destacamos as falas do Rei da Babilônia, as quais expõem sua arrogância em
extremo (Jr.50:29,31). É verdade que ele “debilitava as nações” (14:5,6), mas
havia se esquecido de sua posição como “servo” de YHWH (Jr.25:8,9), o qual foi
levantado para cumprir propósito do Senhor, estabelecido na diáspora judaica. O
resultado disso, nessa contraposição foi a queda do “céu” a “terra” (14:,8,12,15,19).
Em seu impulso para governar o mundo, o orgulho da Babilônia foi ilimitado
(Dn.4:30) e atuou como “deus” na Terra. Em suas ambições imperiais, não atuou
de forma diferente do povo antigo que construiu uma cidade para fazer um nome
para si (Gn.11:1-9). Do mesmo modo, o objetivo da Babilônia era chegar ao céu e
tomar o lugar do Altíssimo, mas também, será derrubado. Quanto maior as
aspirações, pior a queda. Isaías usa esse interlúdio dramático para aumentar o
suspense. Os espíritos do mundo inferior receberão o rei da Babilônia?[19]
Parecia que nenhuma força na terra podia lidar com o poder e força terrível de
Babilônia, a grande: todos os grandes cedros experimentaram essa exibição de
força sem precedentes.[20]
Por esta razão, a pergunta retórica aparece em 14:16: “... este é o homem
que fazia estremecer a terra e estremecer os reinos?”[21] Esta identificação como “homem” corrobora com
a tese defendida e destaca o poder de YHWH. Por isso, a Babilônia enfrenta uma humilhação
completa. Com a zombaria de seu senso de superioridade, os mortos naquela já
grande nação serão deixados sem sepultura nas ruas (14:24-27).[22]
Esses elementos introdutórios levantados
servem de bases exegéticas para o trato de Is.14:12-14. Pela questão lexical
entendermos os desdobramentos linguísticos que envolvem as traduções do texto
hebraico. Além disso, a dimensão contextual nos ajudou com a progressividade
dos discursos e suas ênfases, rejeitando assim, o individualismo hermenêutico,
algo totalmente impróprio (texto prova). Finalmente, os conceitos como
determinantes internos do texto, chancelaram a tese deste ensaio, por meio de
elementos probatórios disntintos. Portanto,
reafirmamos: “a estrela da manhã” é uma menção ao “Rei da Babilônia” não
alegorizado.
[1] Três aspectos da Teologia: “é ensinada por Deus, ensina a
Deus e conduz a Deus” (Tomás de Aquino).
[2]
A mesma tradução é encontrada em: HOLLADAY L. William. Léxico Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento. São Paulo: Vida
Nova, 2010, p.110.
[3]
Provavelmente isso se refere ao planeta Vênus, que se levanta pela manhã e sobe
para o topo do céu, apenas para ser ultrapassado pelo sol. No mundo antigo, as
observações desse ciclo astronômico deram origem a vários mitos. WHITLOCK, Luder G.; SPROUL, R. C.; WALTKE,
Bruce K.; SILVA, Moises: Reformation
Study Bible, the : Bringing the Light of the Reformation to Scripture: New King James Version. Nashville
: T. Nelson, 1995, S. Is 14:12
[4]
Disponível no Bible Works 9. Mesma tradução é encontrada em: HOLLADAY L.
William. Léxico Hebraico e Aramaico do
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010, p.110.
[5] Biblia Sacra
Iuxta Vulgatam Versionem (Vulgate Latin Bible), edited by R. Weber, B. Fischer,
J. Gribomont, H.F.D. Sparks, and W. Thiele [at Beuron and Tuebingen].
[6] מַשָּׂא בָּבֶל (masah babel): “Sentença (peso) da Babilônia”.
[7] בָּבֶל מֶלֶךְ (melekh
babel)
[8] יוֹם
יְהוָה (yom YHWH).
[9] WATTS, John D. W.: Word Biblical Commentary: Isaiah 1-33.
Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 24), p. 184.
[10] בֶּן־שָׁחַר
נִגְדַּעְתָּ לָאָרֶץ חוֹלֵשׁ עַל־גּוֹיִ אֵיךְ נָפַלְתָּ
מִשָּׁמַיִם הֵילֵל W
[11] עָלָה
(halah)
[12] רום
(ravam)
[13] יָשַׁב
(yashav)
[14] עָלָה
(halah)
[15] דָּמָה (damah)
[16]
Atentemos para o uso da interjeição אֵיךְ (heykhe) usada em 14:4,12
[17] מַשָּׂא בָּבֶל (masah babel): “Sentença (peso) da Babilônia”.
[18] WIERSBE, Warren W.: With the Word Bible Commentary.
Nashville : Thomas Nelson, 1997, c1991, S. Is 14:1 (Libronix).
[19] ELWELL, Walter A.: Evangelical Commentary on the Bible.
Grand Rapids, Mich. : Baker Book House, 1996, c1989 (Baker Reference Library
3), S. Is 14:9 (Libronix).
[20] SEITZ, Christopher R.: Isaiah 1-39. Louisville: John Knox
Press, 1993 (Interpretation, a Bible Commentary for Teaching and Preaching), p.
134
[21] O
mesmo ocorre com as outras perguntas retóricas (14:16,17).
[22] MAYS, James Luther; Harper &
Row, Publishers; Society of Biblical Literature: Harper's Bible Commentary. San
Francisco : Harper & Row, 1996, c1988, S. Is 14:3
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