O Dom
de Profecia visto em sua Qualificação e automaticamente Aplicação (Uma análise
Exegética).
Este ensaio tem pretensões limitadas em sua
análise por causa do espaço disposto. Entretanto, passaremos por algumas
portas, para pensarmos “o dom de profecia” pela “dimensão interpretativa da
teologia”. Assim, nosso interesse investigativo está fundamentado na qualificação
deste dom pelo trato exegético, para entendermos seu viés teológico
(cessou ou continua). Alguns estudiosos corroborarão com nossa análise (David
Aune, James Dunn, Calvino, Carson e outros). As considerações teológicas, mesmo
pressupostas, serão manifestas somente depois da análise em questão.
Em nosso contexto evangelical comumente
aparecem algumas problemáticas dirigido ao “dom de profecia”: cessou ou
continua? Ele é um dos que cessaram, pois outros continuam? Sua
descrição funciona como extraordinária, logo sua aplicabilidade não se torna
mais justificada? Esta redução redundante acaba ofuscando algo primário ao
meu ver: a qualificação
do dom. Isso por uma questão óbvia: não há como falar em
aplicabilidade sem uma compreensão definidora. Para responder estas
problemáticas usemos o mesmo princípio de Agostinho (345-453) quando afirma a
trindade: “primeiramente [...] é preciso demonstrar pela autoridade das santas
escrituras, a certeza de nossa fé” (AGOSTINHO. A Trindade, p.27).
Portanto, numa dinâmica de coesão veremos, sinteticamente, o dom de profecia em
suas aparições no NT em seus devidos contextos.
Inicialmente,
precisamos correlacionar χάρισμα (khárisma, “dom ou manifestação da graça”) com προφητεία
(profeteía, “profecia”) e isto
ocorre, explicitamente, somente em duas passagens do NT: Rm.12:6; 1Co.12:8,9. A
importância desta detecção em voga passa pelo entendimento da “profecia” como
“dom” (melhor “manifestação da graça”, por causa de Rm.12:6) pelo viés do NT.
Além disso, se faz necessário ter em mente os usos da προφητεία (profeteía, “profecia”) no
NT. Neste caso, 19 constatados (na LXX são cinco: 2Cr.15:8; 32:32; Ed.5:1; 6:14;
Ne.6:12 - נְבוּאָה) sendo que a maioria presente no
Apocalipse (1:3; 11:6; 19:10; 22:7,10,18,19), entretanto, os de nosso interesse
(neste ensaio) aparece em: Rm.12:6; 1Co.12:10 (com certos desdobramentos).
Estes serão os alvos de nossa análise exegética.
Desta
forma, comecemos por Rm.12:6 onde “o dom de profecia” aparece numa lista de
sete (12:6-8). Nesta passagem não tem muitos elementos constitutivos para desenvolver
a desejada qualificação, porquanto o apóstolo não o faz e além disso, só usa προφητεία aqui em Romanos. A
primeira proposta de qualificação parte de João Calvino: “prefiro entender a
palavra num sentido amplo, significando o dom especial de revelação, por meio
do qual alguém exerce a função de intérprete com perícia e destreza, explicando
a plicando a vontade de Deus. Portanto, na igreja cristã dos tempos atuais,
profecia é o correto entendimento da Escritura e o dom particular de explicá-la,
visto que todas as antigas profecias e todos os oráculos divinos já foram
concluídos em Cristo e seu evangelho” (CALVINO. Romanos, p.442). Na
contramão desta percepção está àquela que entende este dom como “revelação
direta”, numa conotação preditiva (At.21:10,11, embora Carson considere esta
profecia de Ágabo inexata, ver em: CARSON. A Manifestação do Espírito,
p.100). Morris é cauteloso ao afirmar que “ninguém no NT explica, precisamente
o que era esse dom, mas parece significar que havia pessoas que o tinham,
a fim de transmitir palavras diretas de Deus. Eram aqueles que podiam dizer: ‘Assim
diz o Senhor.’” (MORRIS. The Epistle to the Romans, PiNTC, p.440). Esta
última fala de Morris é cercada de grande debate, pois diferentemente do exercício
profético do AT, a construção do NT mostra que a profecia devia ser julgada
(1Co.14:29) além disso, existia a subserviência dos profetas a liderança de
Paulo (1Co.14:37, Existem outros elementos levantados para esta questão ver em:
CARSON. A Manifestação do Espírito, pp.95-97). Num terceiro momento, James Dunn traz outro
elemento distinto (pela redução que envolve Rm.12:6) levando em conta as
considerações anteriores, destaca que a velha disputa quanto a natureza da profecia
(“revelação”, quase = pregação, o anúncio da palavra” ou como “predição”) obscureceu
seu caráter mais básico como discurso inspirado, palavras
dadas como de “fora” (pelo Espírito), e não formuladas conscientemente
(DUNN. Vol. 38B: Word Biblical Commentary: Romans 9-16, p.726). Para
fazer justiça a fala do Dunn outros
elementos são levantados em sua tese, pois a profecia como “algo não formulado
conscientemente”, é uma característica distintiva daquela (profecia)
judaico-cristã em oposição ao uso grego mais amplo, onde προφητεία não
aparece na literatura não judaica e onde προφήτης e μάντις são distintos, com o último denotando
inspiração imediata e o primeiro como porta-voz que declara a mensagem assim
recebida ou que atua como aquele (porta-voz) oficial do santuário. O uso do
substantivo “profecia” em vez de “profeta” (12:6) sublinha o ponto que Paulo
tem em mente aqui, ou seja, a função de profetizar, χάρισμα como o falar real de palavras dadas por
inspiração (DUNN. Vol. 38B: Word Biblical Commentary: Romans 9-16,
p.726).[1] Assim, temos três
elementos distintos quanto a qualificação tratada.
Num
segundo momento deste ensaio pensaremos numa trilogia por 1Co.12-14: προφητεία/προφητεύω/προφήτης.[2]
Entretanto, nosso foco ainda continua na προφητεία em sua qualificação. Esta
trilogia encontra amparo textual em algumas porções de 1Co: 12:10,28,29; 14:1,3,4,5,24,31.
Assim, continuamos com nossa problemática: como qualificar “o dom de profecia”
no NT? Estes textos trarão mais luzes para esta questão. Carson constrói
uma importante distinção entre “o que é profecia e o que ela faz” (CARSON.
A Manifestação do Espírito, p.93). Thiselton faz um trabalho exaustivo
na qualificação proposta em alguns backgrounds e em outros aspectos, pois, como
afirma: “é essencial comparar e avaliar o trabalho de certos
estudos-padrão-chave” (THISELTON. The
First Epistle to the Corinthians: A commentary on the Greek text, p.957). Garland entende este dom como:
“declaração da vontade de Deus as pessoas”, visto que os cristãos entenderam
que a profecia de Joel 2:28-29 foi cumprida, se conclui que a profecia estava
“potencialmente ... disponível para todos, visto que todos agora possuíam o
Espírito em plenitude (Atos 2:17-18). O Espírito é derramado sobre todos,
filhos e filhas, jovens e velhos, escravos, homens e mulheres, que irão
profetizar” (Garland. 1Corinthians. Baker Exegetical commentary on the New
Testament, p. 582). Isso parece, segundo Fee, “se encaixar especialmente no
que aprendemos no Cartas paulinas” (FEE. The new
International Commentary on The New
Testament The First Epistle to the Corinthians, p.536). Para sermos justos com os
estudiosos precisamos ter em mente que análise exegética privilegia o contexto
do texto, rejeitando anacronismos, contextualização sincrética e
a falácia do texto prova (usado em algumas TS).
Nesta
dinâmica de análise a correlação entre 12:10 e 14:3 tem certa proeminência na
qualificação deste dom. Observemos em forma de gráfico.
Porque a
um é dada mediante o Espírito
[o dom] a profecia
o que profetiza fala aos homens,
para edificação, exortação e
consolação.
Parece bem sugestivo por isso, entender a
profecia como pregação, entretanto Carson questiona esta percepção, pois
segundo ele, a ideia de Paulo neste verso não é essa (CARSON.
A Manifestação do Espírito, p.94). Comumente, neste momento alguns intérpretes
gostam de usar a lógica em forma de silogismo (se é assim, logo...). Paradoxalmente,
ainda assim, não podemos criar uma ruptura total entre profecia e pregação (que
loucura!!!). Robertson e Plummer veem este verbo (“profetiza”) como algo que “era
o poder de ver e tornar conhecida a natureza e a vontade de Deus, um dom de
compreensão da verdade e de poder para transmiti-la e, portanto, a capacidade
de edificar o caráter dos homens, vivificar sua vontade e encorajar seus
espíritos” (ROBERTSON & PLUMMER. A critical and exegetical commentary on the First
epistle of St. Paul to the Corinthians, p.306). Evidente
que a premissa exposta tem outros substratos quanto a sua defesa, mas desde já
podemos afirmar que todos contestados, exegeticamente.
Depois destas considerações introdutórias
temos mais problemas do que soluções. Realmente, as discussões que envolvem “o dom de profecia” (ou até a
mesmo a profecia no NT) são cercadas de profundas divergências. Talvez, a
questão chave disto passe pela ausência explicita presente na intenção do autor
em trazer tal qualificação. Parece que temos aqui algo de conotação nevrálgica
para nossa compreensão e defesa, pois a progressividade envolvendo o binômio qualificação/aplicação
traz grande dificuldade para o segundo. Portanto, a cessação aparentemente
funciona como resposta para aquilo não definido exaustivamente.
[1] Mais palavras de Dunn: “O caráter
distintivo da profecia cristã deve ser definido com mais cuidado: distinto em
sua imediação de inspiração espontânea e não estruturada (cf. 1 Cor 14:30), em
oposição ao ritual profético mais formalizado e procedimentos dos santuários
reconhecidos; e distinto na ênfase paulina na racionalidade (1 Coríntios 14:
12-19), em oposição às experiências extáticas valorizadas no manticismo, no
frenesi das festas dionisíacas e também evidentemente dentro da igreja em
Corinto (1 Co.12: 2; 14:12). A profecia é mencionada apenas aqui em Romanos.
Mas o fato de Paulo colocá-lo no topo da lista de carismas é consistente com a
proeminência que ele dá a ele em outros lugares (especialmente 1 Cor 14:1,39; 1
Ts.5:19-20); em duas listas que falam de pessoa ao invés de dom em si, ‘profetas’
vêm atrás apenas de ‘apóstolos’ (1 Co.12.28; Ef 4.11; cf. Ef 2.20). As razões
são explicadas em 1 Co. 14: a profecia ‘edifica’ ou beneficia a congregação
mais do que outros carismas (14:3-5) em virtude de trazer encorajamento e
consolo (14: 3, 31; ver também em 12: 8 ), nova revelação (1 Cor 14: 6, 26,30)
e autoconhecimento humilhante (14:24-25). DUNN. Vol. 38B: Word Biblical
Commentary: Romans 9-16, p.726.
[2] Profecia, profetizo, profeta.

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