segunda-feira, 26 de setembro de 2022

 

                  Algumas Considerações introdutórias sobre a Narrativa Bíblica




    Infelizmente, em nosso contexto evangelical muitos cristãos ainda leem as narrativas bíblicas sem a devida ciência disto. Por esta razão, esta leitura se torna problemática, no que diz respeito ao cumprimento do papel do leitor/intérprete. Assim, o conhecimento das “regras dos jogos da linguagem” tem status de urgência quanto ao seu compartilhamento. Vale a ressalva de que isto não afirma uma absolutização do método, de modo que, tenha autoridade implícita, e não derivada. Neste ensaio, serão levantados alguns componentes introdutórios sobre a narrativa bíblica.

    Em primeiro lugar, fixemos nossa atenção para a fala de Anthony Thiselton: “a hermenêutica explora como lemos, entendemos e lidamos com textos, especialmente aqueles escritos em outra época ou num contexto de vida diferente da nossa. A hermenêutica bíblica investiga mais especificamente como lemos, entendemos, aplicamos e respondemos aos textos bíblicos” (THISELTON. Hermeneutics An Introduction, p.15). Waltke segue esta mesma linha: “entender o texto também envolve uma análise de como interpretar as várias formas literárias da Bíblia, como as literaturas hínica, profética e sapiencial. Para sua correta interpretação, cada forma exige uma estratégia própria de leitura” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.109). Finalmente Vanhoozer: “a hermenêutica — a reflexão sobre os princípios que corroboram a interpretação textual correta (VANHOOZER . Há Significado nesse texto? P.23).  Assim, a ênfase no ler/interpretar com condicionantes hermenêuticos se torna a resposta para o conhecimento da Narrativa.

     Isto se tornou algo apologético por causa da metodologia do reader-response. Como explica Thiselton no final dos anos 1960 e certamente durante os anos 1970 e década de 1980, surgiu um movimento que na verdade tendia a suplantar a Nova Crítica. Esse movimento promoveu a visão de que a chave determinante para a produção de sentido foi o leitor ou leitores. O significado era menos um produto do autor ou do texto como tal, ou mesmo da relação entre o texto e seu autor, do que um produto da relação entre o texto e seus leitores. Como os leitores responderam ao texto passou a ser considerado como a principal fonte e determinante do significado (THISELTON. Hermeneutics An Introduction, p.46).  Tal perspectiva como bem coloca Vanhoozer “passa pelo problema do leitor e da ética do significado” [...] “A crítica orientada para a resposta do leitor enfatiza a incompletude do texto até que ele seja construído (ou desconstruído) pelo leitor” (VANHOOZER . Há Significado nesse texto? P.36). Como abordagem proclamada pelos profetas da pós-modernidade, esta perspectiva de forma tácita tem direcionado a leitura de muitos cristãos. Algo sério, pois esta subversão acaba por produzir o “pecado hermenêutico”.    

    Ainda nesta primeira abordagem outro elemento corrobora com a tese em voga, pois a proporção traz uma consolidação. Walter Kaiser explicita isto ao demonstrar em grau estatístico que “mais de um terço da Bíblia parece como Narrativa, sendo este o gênero mais comum do texto Sagrado” (KAISER. Introdução a Hermenêutica Bíblica, p.65). Assim, nesta somatização estas perspectivas servem de aspecto fundante para o imperativo apego ao conhecimento da Narrativa bíblica.

     Em segundo lugar, precisamos questionar: o que é uma narrativa? Basicamente podemos pensar esta problemática num sentido mais amplo e desta forma pensar nela “como um relato de acontecimentos específicos no tempo e espaço com participantes cujas as histórias são registradas com um começo, meio e fim” Nesta dinâmica de percepção se faz necessário pensar na “seleção do escritor, disposição e recursos retóricos” (KAISER. Introdução a Hermenêutica Bíblica, p.65). Podemos avançar por causa dos ditames acadêmicos, porquanto como destaca Osborne: “a tendência em dividir o texto em unidades isoladas (fracasso da crítica da forma e da redação) foi amplamente percebida como contraproducente, e assim os estudiosos se voltaram para o campo da crítica da narrativa para cobrir a lacuna” (OSBORNE. Espiral, p.255). Por esta causa se fala em “Crítica da Narrativa”. Waltke define a narrativa e a crítica da narrativa: “a narrativa é uma forma de arte representacional. A crítica narrativa observa, analisa e, de modo sistemático, classifica as narrativas conforme representam seu objeto e contam suas histórias, a fim de comunicar seu sentido. Uma narrativa comunica sentido por meio do mimetismo da vida humana. Isso se obtém mediante a apresentação de personagem(ns) e acontecimento(s) em cenário(s) distinto(s), cujas ações em desenvolvimento criam tensões que constituem o enredo ou trama” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.109,110). Como exercício para a compreensão é importante a pedagogia da síntese. Amplas definições unidas destacam os pontos a serem afirmados.  

       Depois de compreender, sinteticamente, a definição focada, passemos para os elementos instrutivos para o desenvolvimento ferramental da leitura. Assim, como descreve Osborne “os críticos literários têm desenvolvido técnicas que muito nos ajudarão a realizar uma ‘leitura fechada’ [“close Reading”] do texto e observar características com o a tensão do enredo e da personagem, o ponto de vista, o diálogo, o tempo e o cenário da narrativa. Elas permitirão ao leitor descobrir o fluxo do texto e, desse modo, perceber como a mão de Deus inspirou o autor bíblico para desenvolver sua narrativa” (OSBORNE. Espiral, p.255). Mesmo com estes importantes considerandos Waltke nos lembra que “para pensar e falar com mais clareza sobre narrativa, precisamos fazer uma distinção prescritiva entre história e enredo. Cada narrativa possui esses dois componentes. Uma história consiste naquilo que é externo ao texto: pessoas, coisas ou acontecimentos. A história refere-se ao conteúdo da narrativa; o enredo, ao delineamento de sua representação. O enredo mostra como o narrador representa os acontecimentos, personagens, cenários e interações desses elementos na trama” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.110). Assim, temos os compostos ferramentais para a aplicabilidade da “leitura fechada” que funciona num método restrito.

       Dentre todos os elementos presentes na abordagem da crítica da narrativa focaremos no papel do Narrador (um dos três elementos externos [leitor e autor].  Para tal se faz necessário, inicialmente, entender a relação do autor real, implícito e narrador. Inicialmente, o autor real é aquele que de fato escreveu a narrativa ou história. O que sabemos dessa pessoa pela narrativa ou pela história é o que se chama de “autor implícito” (ou narrador). Logo, podemos não conhecer o autor real nem saber tudo o que ele próprio sabe sobre a narrativa, mas sabemos o que ele escreveu. Disso tiramos certas conclusões sobre o autor real. Como Longman III declara: “O autor implícito é o autor como seria concebido com base nas inferências a partir do texto” (PATTERSON; KOSTENBERGER. Tríade Hermenêutica, p.232,233). Portanto, o autor não está presente, mas criou uma persona de si mesmo no texto (o autor implícito), e estudamos o texto, não o autor. Em outras palavras, não estudamos o autor, mas a mensagem pretendida pelo autor (OSBORNE. Espiral, p.255). Esta conotação acaba por chancelar a supremacia do texto como elemento informativo na narrativa.

      Algumas questões têm sido debatidas sobre o Narrador e seu alcance para compartilhar suas informações, pois, “o autor implícito controla a voz das personagens do relato. Ele tem a palavra final, e não as personagens” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.118). O narrador bíblico possui muitas características importantes, podemos perceber isto no chamado “ponto de vista”, (algo associado ao narrador) que interage com a ação dentro da narrativa de várias formas e, dessa maneira, produz o efeito que a narrativa deve ter sobre o leitor. (OSBORNE. Espiral, p.260). O narrador tem acesso a informações privilegiadas, porquanto Lucas descreve os pensamentos e sentimentos internos de personagens com o Simeão e Ana quando eles reconhecem o Messias no menino Jesus (Lc 2.29,38) e relata o desejo de Félix de que Paulo lhe oferecesse um suborno (At 24.26). Além disso, ele conhece os pensamentos e as ações de Deus. Por exemplo, autores implícitos sabem aquilo que Deus pensa e diz nos céus, até mesmo antes da existência de qualquer ser humano (Gn 1), e sabem que Deus enviou dos céus um espírito maligno para entrar no espírito de Saul, a fim de fazer com que ele se apressasse na realização de planos condenáveis (1Sm 16.14). Existem tantos outros textos com a mesma dinâmica, diante disto questionamos: de que forma entender isto?

   Inicialmente, aqueles que trabalham o método histórico-gramatical rejeitam a desonestidade do narrador. Como se a história estivesse fundamentada em informações construídas de forma leviana. Assim, deixando de lado as exigências modernas de documentação, a onisciência e a onipotência implícitas do autor são resultado de sua inspiração celestial, não da inventividade de um ficcionista. Mesmo assim, é provável que o autor inspirado tenha exercido o direito de representar nas próprias palavras o que a personagem da narrativa — inclusive Deus — disse, ao mesmo tempo em que se mantém fiel à realidade histórica. Como regra de comunicação narrativa, a inspiração equivale à onisciência exercida na história: o pressuposto da veracidade da narrativa baseia-se no conhecimento que o contador da história recebeu de Deus. O profeta assume explicitamente essa postura (ou persona); o contador de história o faz implicitamente, ainda assim com autoridade. O autor implícito da narrativa bíblica não diz “Assim diz Eu Sou ”, mas, em vez disso, escreve “Eu sou disse”, “Eu sou pensou” ou “Eu Sou fez” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.118). Em suma, o escritor não está limitado às restrições do mundo real, mas pode proporcionar panoramas de perspectivas a respeito daquilo que uma pessoa normal não poderia saber. Desse modo, o leitor pode captar o sentido da presença de Deus que está por trás da história e a autoridade divina que permeia o todo (OSBORNE. Espiral, p.262).

   Esta sintética jornada fez com que numa necessária introspecção tenhamos consciência da imperativa responsabilidade que temos em estudar a Narrativa. Isto fundamentado no fato de que somos leitores/intérpretes. Além disso, no nível proporcional grande parte da Escritura é composta por este gênero. Os elementos técnicos presentes na crítica da narrativa que acabam por produzir a “leitura fechada” corroboram com a pesquisa (mesmo com sua fraqueza histórica). Finalmente, a base verídica das informações dadas pelo narrador parte do Autor num processo de inspiração.   

  

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