Algumas
Considerações introdutórias sobre a Narrativa Bíblica
Infelizmente, em
nosso contexto evangelical muitos cristãos ainda leem as narrativas bíblicas
sem a devida ciência disto. Por esta razão, esta leitura se torna problemática,
no que diz respeito ao cumprimento do papel do leitor/intérprete. Assim, o conhecimento das “regras dos jogos da linguagem” tem status de
urgência quanto ao seu compartilhamento. Vale a ressalva de que isto não afirma
uma absolutização do método, de modo que, tenha autoridade implícita, e não
derivada. Neste ensaio, serão levantados alguns componentes introdutórios sobre
a narrativa bíblica.
Em primeiro lugar, fixemos nossa atenção
para a fala de Anthony Thiselton: “a hermenêutica explora como lemos, entendemos
e lidamos com textos, especialmente aqueles escritos em outra época ou num
contexto de vida diferente da nossa. A hermenêutica bíblica investiga mais especificamente
como lemos, entendemos, aplicamos e respondemos aos textos bíblicos” (THISELTON.
Hermeneutics An Introduction, p.15). Waltke
segue esta mesma linha: “entender o texto também envolve uma análise de como
interpretar as várias formas literárias da Bíblia, como as literaturas hínica,
profética e sapiencial. Para sua correta interpretação, cada forma exige uma
estratégia própria de leitura” (WALTKE. Teologia
do Antigo Testamento, p.109). Finalmente Vanhoozer: “a hermenêutica — a reflexão sobre os princípios
que corroboram a interpretação textual correta (VANHOOZER . Há Significado nesse texto? P.23). Assim, a ênfase no ler/interpretar com condicionantes hermenêuticos
se torna a resposta para o conhecimento da Narrativa.
Isto se tornou algo apologético por causa da metodologia
do reader-response. Como explica Thiselton
no final dos anos 1960 e certamente durante os anos 1970 e década de 1980,
surgiu um movimento que na verdade tendia a suplantar a Nova Crítica. Esse
movimento promoveu a visão de que a chave determinante para a produção de
sentido foi o leitor ou leitores. O significado era menos um produto do autor
ou do texto como tal, ou mesmo da relação entre o texto e seu autor, do que um produto
da relação entre o texto e seus leitores. Como os leitores responderam ao texto
passou a ser considerado como a principal fonte e determinante do significado (THISELTON.
Hermeneutics An Introduction, p.46). Tal perspectiva como bem coloca Vanhoozer “passa
pelo problema do leitor e da ética do significado” [...] “A crítica orientada
para a resposta do leitor enfatiza a incompletude do texto até que ele seja
construído (ou desconstruído) pelo leitor” (VANHOOZER . Há Significado nesse texto? P.36). Como abordagem proclamada pelos profetas da pós-modernidade,
esta perspectiva de forma tácita tem direcionado a leitura de muitos cristãos. Algo
sério, pois esta subversão acaba por produzir o “pecado hermenêutico”.
Ainda nesta
primeira abordagem outro elemento corrobora com a tese em voga, pois a
proporção traz uma consolidação. Walter Kaiser explicita isto ao demonstrar em
grau estatístico que “mais de um terço da Bíblia parece como Narrativa, sendo
este o gênero mais comum do texto Sagrado” (KAISER. Introdução a Hermenêutica Bíblica, p.65). Assim, nesta somatização estas
perspectivas servem de aspecto fundante para o imperativo apego ao conhecimento
da Narrativa bíblica.
Em
segundo lugar, precisamos questionar: o
que é uma narrativa? Basicamente podemos pensar esta problemática num
sentido mais amplo e desta forma pensar nela “como um relato de acontecimentos específicos no tempo e espaço com participantes
cujas as histórias são registradas com um começo, meio e fim” Nesta dinâmica
de percepção se faz necessário pensar na “seleção do escritor, disposição e recursos
retóricos” (KAISER. Introdução a
Hermenêutica Bíblica, p.65). Podemos avançar por causa dos ditames acadêmicos,
porquanto como destaca Osborne: “a tendência em dividir o texto em unidades
isoladas (fracasso da crítica da forma e da redação) foi amplamente percebida
como contraproducente, e assim os estudiosos se voltaram para o campo da
crítica da narrativa para cobrir a lacuna” (OSBORNE. Espiral, p.255). Por esta causa se fala em “Crítica da Narrativa”. Waltke
define a narrativa e a crítica da narrativa: “a narrativa é uma forma de arte
representacional. A crítica narrativa observa, analisa e, de modo sistemático,
classifica as narrativas conforme representam seu objeto e contam suas
histórias, a fim de comunicar seu sentido. Uma narrativa comunica sentido por
meio do mimetismo da vida humana. Isso se obtém mediante a apresentação de personagem(ns)
e acontecimento(s) em cenário(s) distinto(s), cujas ações em desenvolvimento
criam tensões que constituem o enredo ou trama” (WALTKE. Teologia do Antigo
Testamento, p.109,110). Como exercício para a compreensão é importante a pedagogia
da síntese. Amplas definições unidas destacam os pontos a serem afirmados.
Depois
de compreender, sinteticamente, a definição focada, passemos para os elementos instrutivos para o
desenvolvimento ferramental da leitura. Assim, como descreve Osborne “os
críticos literários têm desenvolvido técnicas que muito nos ajudarão a realizar
uma ‘leitura fechada’ [“close Reading”] do texto e observar características com
o a tensão do enredo e da personagem, o ponto de vista, o diálogo, o tempo e o
cenário da narrativa. Elas permitirão ao leitor descobrir o fluxo do texto e,
desse modo, perceber como a mão de Deus inspirou o autor bíblico para
desenvolver sua narrativa” (OSBORNE. Espiral,
p.255). Mesmo com estes importantes considerandos Waltke nos lembra que “para
pensar e falar com mais clareza sobre narrativa, precisamos fazer uma distinção
prescritiva entre história e enredo. Cada narrativa possui esses dois componentes.
Uma história consiste naquilo que é externo ao texto: pessoas, coisas ou
acontecimentos. A história refere-se ao conteúdo da narrativa; o enredo, ao
delineamento de sua representação. O enredo mostra como o narrador representa
os acontecimentos, personagens, cenários e interações desses elementos na trama”
(WALTKE. Teologia do Antigo Testamento,
p.110). Assim, temos os compostos ferramentais para a aplicabilidade da “leitura
fechada” que funciona num método restrito.
Dentre
todos os elementos presentes na abordagem da crítica da narrativa focaremos no
papel do Narrador (um dos três elementos externos [leitor e autor]. Para tal se faz necessário, inicialmente, entender
a relação do autor real, implícito e narrador. Inicialmente, o autor
real é aquele que de fato escreveu a narrativa ou história. O que sabemos dessa
pessoa pela narrativa ou pela história é o que se chama de “autor implícito”
(ou narrador). Logo, podemos não conhecer o autor real nem saber tudo o que ele
próprio sabe sobre a narrativa, mas sabemos o que ele escreveu. Disso tiramos certas conclusões sobre o autor real. Como
Longman III declara: “O autor implícito é o autor como seria concebido com base
nas inferências a partir do texto” (PATTERSON; KOSTENBERGER. Tríade Hermenêutica, p.232,233). Portanto,
o autor não está presente, mas criou uma persona de si mesmo no texto (o autor
implícito), e estudamos o texto, não o autor. Em outras palavras, não estudamos
o autor, mas a mensagem pretendida pelo autor (OSBORNE. Espiral, p.255). Esta conotação acaba por chancelar a supremacia do
texto como elemento informativo na narrativa.
Algumas questões têm sido debatidas sobre
o Narrador e seu alcance para compartilhar suas informações, pois, “o autor implícito controla a voz das personagens do
relato. Ele tem a palavra final, e não as personagens” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.118). O
narrador bíblico possui muitas características importantes, podemos perceber
isto no chamado “ponto de vista”, (algo associado ao narrador) que interage com a ação dentro da narrativa
de várias formas e, dessa maneira, produz o efeito que a narrativa deve ter
sobre o leitor. (OSBORNE. Espiral,
p.260). O narrador tem acesso a informações privilegiadas, porquanto Lucas descreve
os pensamentos e sentimentos internos de personagens com o Simeão e Ana quando
eles reconhecem o Messias no menino Jesus (Lc 2.29,38) e relata o desejo de
Félix de que Paulo lhe oferecesse um suborno (At 24.26). Além disso, ele
conhece os pensamentos e as ações de Deus. Por exemplo, autores implícitos
sabem aquilo que Deus pensa e diz nos céus, até mesmo antes da existência de
qualquer ser humano (Gn 1), e sabem que Deus enviou dos céus um espírito maligno
para entrar no espírito de Saul, a fim de fazer com que ele se apressasse na realização
de planos condenáveis (1Sm 16.14). Existem tantos outros textos com a mesma dinâmica,
diante disto questionamos: de que forma
entender isto?
Inicialmente,
aqueles que trabalham o método histórico-gramatical rejeitam a desonestidade do
narrador. Como se a história estivesse fundamentada em informações construídas de
forma leviana. Assim, deixando de lado as exigências modernas de documentação, a onisciência e a
onipotência implícitas do autor são resultado de sua inspiração celestial,
não da inventividade de um ficcionista. Mesmo assim, é provável que o autor
inspirado tenha exercido o direito de representar nas próprias palavras o que a
personagem da narrativa — inclusive Deus — disse, ao mesmo tempo em que se
mantém fiel à realidade histórica. Como regra de comunicação narrativa, a
inspiração equivale à onisciência exercida na história: o pressuposto da
veracidade da narrativa baseia-se no conhecimento que o contador da história
recebeu de Deus. O profeta assume explicitamente essa postura (ou persona); o
contador de história o faz implicitamente, ainda assim com autoridade. O autor
implícito da narrativa bíblica não diz “Assim diz Eu Sou ”, mas, em vez disso,
escreve “Eu sou disse”, “Eu sou pensou” ou “Eu Sou fez” (WALTKE. Teologia do Antigo Testamento, p.118). Em
suma, o escritor não está limitado às restrições do mundo real, mas pode
proporcionar panoramas de perspectivas a respeito daquilo que uma pessoa normal
não poderia saber. Desse modo, o leitor pode captar o sentido da presença de
Deus que está por trás da história e a autoridade divina que permeia o todo (OSBORNE.
Espiral, p.262).
Esta sintética jornada
fez com que numa necessária introspecção tenhamos consciência da imperativa
responsabilidade que temos em estudar a Narrativa. Isto fundamentado no fato de
que somos leitores/intérpretes. Além disso, no nível proporcional grande parte
da Escritura é composta por este gênero. Os elementos técnicos presentes na crítica
da narrativa que acabam por produzir a “leitura fechada” corroboram com a
pesquisa (mesmo com sua fraqueza histórica). Finalmente, a base verídica das
informações dadas pelo narrador parte do Autor num processo de inspiração.

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