terça-feira, 29 de setembro de 2020

 

“A ressurreição dos santos” ocorrida na morte/ressurreição de JESUS como SINAL que descreve a grandeza destes eventos. 

 

            A Deo docetur, Deum docet, ad Deum ducit.[1]

 

“e eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras. e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa e apareceram a muitos”. (mt.27:51-53).

 

Craig explica que “evidências arqueológicas indicam que no judaísmo popular (não oficial), os túmulos dos santos eram venerados” (KEENER, Craig S. InterVarsity Press: The IVP Bible Background Commentary: New Testament, 1993, S. Mt 27:52).

 

“... ao voltamos aos milagres relacionados com o nascimento de Jesus, o Filho de Deus vindo ao mundo [...] há pouco a incomodar aqui na história da morte do Filho de Deus” (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997, S. Mt 27).

 

Este texto tem contornos exegéticos complexos para a determinação de suas devidas conclusões. São muitas as perguntas feitas sobre ele, desenvolvidas “numa dimensão teológica da interpretação” e “numa dimensão interpretativa da teologia” (VANHOOZER. Há Um Significado nesse texto?, 2010, p.38), de maneira que as problemáticas em questão unem estes dois polos. Além disso, a relação unidade/diversidade do NT principalmente, no que diz respeito a escatologia, parece funcionar numa antítese teológica (Mt;27:52,53; 1Co.15:50-57; 1Ts.4:13-18). Assim, conscientes da grandeza do desafio em questão, buscaremos entender o fenômeno ocorrido com suas implicações e proeminência (27:51-54), fundamentados no método gramático-histórico de interpretação.[2] A defesa neste ensaio pensa este fenômeno de 27:52,53, como sinal miraculoso que serviu de substrato, para a grandeza do evento que o acompanha: a morte/ressurreição do Senhor Jesus com seus benefícios soteriológicos inefáveis.

O caminho investigativo que será percorrido neste ensaio, funcionará metodologicamente em suas fundamentações, buscando entender elementos que permeiam o texto em voga, os quais envolvem:  [1] as identificações das questões sintáticas do texto grego e suas conclusões; [2] a análise da relação contextual existente entre 27:45-50 e 27:51-54 (delimitação do discurso); [3] o background da passagem entendido pelo viés contextual dos leitores originais (leitor implícito) e [4] as problemáticas e sintéticas resoluções presentes na passagem, explicadas pelas definições dos conceitos.

[1] As identificações das questões sintáticas do texto grego e suas conclusões. Nosso primeiro passo na análise deste texto passa pela observação de alguns pontos do texto grego de 27:51-53:

51 “Καὶ ἰδοὺ τὸ καταπέτασμα τοῦ ναοῦ ἐσχίσθη ἀπ᾽ ἄνωθεν ἕως κάτω εἰς δύο καὶ ἡ γῆ ἐσείσθη καὶ αἱ πέτραι ἐσχίσθησαν, [“E eis que o véu do templo foi rasgado em dois, de alto a baixo; e foi feito que tremesse a terra, e fendessem as pedras”].  

52 καὶ τὰ μνημεῖα ἀνεῴχθησαν καὶ πολλὰ σώματα τῶν κεκοιμημένων ἁγίων ἠγέρθησαν, [“E foram abertos os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam (eufemismo, uso do particípio substantivado no perfeito) foram ressuscitados” (ACF, ARC).   

53 καὶ ἐξελθόντες ἐκ τῶν μνημείων μετὰ τὴν ἔγερσιν αὐτοῦ εἰσῆλθον εἰς τὴν ἁγίαν πόλιν καὶ ἐνεφανίσθησαν πολλοῖς.” 53 [“e, enquanto saiam (uso adverbial/temporal do particípio) dos sepulcros, depois da ressurreição [uso temporal da locução preposicional] dele (“de Jesus”, ARA) entraram na cidade santa, e foram manifestos a muitos”].

Alguns pontos desta tradução devem destacados: 1) os USOS dos aoristos passivos (grifados) de 27:52,53, os quais funcionam como efeitos contextuais de 27:51 (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament, 1997, S. Mt 27:52). 2) o agente da passiva destes verbos (o responsável pela ação) que parece ser Deus. Como explica Newman: “se os tradutores fizeram de Deus o agente que fez tremer a terra, quebrando pedras, então os túmulos também foram abertos por Ele” (NEWMAN; STINE. A Handbook on the Gospel of Matthew, 1992, p. 865); 3) a última questão que talvez seja a mais complicada, é o uso da locução preposicional “μετὰ τὴν ἔγερσιν αὐτοῦ” (“depois da ressurreição dele”, uso temporal), a qual parece sugerir um hiato entre a morte e a ressureição de Cristo. Assim, “os santos  foram ressuscitados”, quando Jesus morreu, mas “foram manifestos a muitos em Jerusalém depois da ressurreição do Senhor”. Carson entende que estes são dois momentos distintos, pois o v.52 está ligado a morte (v.51), entretanto, o v.53 está ligado a ressurreição (28:1-10), assim: “não há necessidade de ligar o terremoto e o abrir dos túmulos com a ressurreição dos ‘santos’: os dois focos devem ser diferenciados” (CARSON. Mateus, 2010, p.672). Em consonância com isto, Hagner afirma: “Mateus quer conectar os túmulos abertos com a ressurreição dos santos mortos, mas também conta com o fato teológico de que Jesus deve ser o primeiro a ressuscitar” (HAGNER. Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, s.852).

[2] A análise da relação do co-texto existente entre 27:45-50 e 27:51-54 (delimitação do discurso). Depois destes considerandos sintáticos do grego, pensemos a dinâmica contextual de 27:51-54.  Esta delimitação proposta é defendida por alguns autores como Carson que a intitula da seguinte forma: “impacto imediato da morte de Jesus” (CARSON. Mateus, 2010, p.670); e Hagner que a pensa como: “eventos impressionantes que seguiram a morte de Jesus” (HAGNER. Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, p.846). Em suma, “esta passagem deixa claro o significado escatológico da crucificação, e que, sem fôlego, leva o leitor ao clímax no v.54” (DAVIES; ALLISON. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, 2004, p. 628). Com esta delimitação em foco observaremos a estrutura subjacente a [estrutura] de superfície desse texto.

[3] O background da passagem entendido pelo viés contextual dos leitores originais (leitor implícito). O background traz informações necessárias para a composição do significado desta passagem. Craig explica que “evidências arqueológicas indicam que no judaísmo popular (não oficial), os túmulos dos santos eram venerados”. Por esta razão, “a ressureição dos santos indicava também o poder Daquele que podia recriá-los” (Keener, Craig S.: Matthew, 1997 [The IVP New Testament Commentary Series 1], S. Mt 27:50). Chouinard neste viés também destaca que “no judaísmo do primeiro século a veneração dos túmulos dos santos falecidos era um elemento importante da piedade judaica. No entanto, com a morte e ressurreição de Jesus, os santos venerados recebem vida” (CHOUINARD. Matthew. College Press, 1997 The College Press NIV Commentary, S. Mt 27:52). Além disso, devemos notar que “os terremotos não eram vistos pelos antigos como caprichos da natureza, mas como respostas à maldade humana. As vezes ligados ao advento de Deus ou a um ser sobrenatural com julgamento e mortes de muitas pessoas e com uma tragédia em geral” (DAVIES; ALLISON. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, 2004, p. 634). Ao lermos com esta perspectiva histórica, entendemos o evento sob a perspectiva dos leitores originais. Nesse caso, a objetivação, no que diz respeito ao engrandecimento da morte/ressurreição do Senhor.  

[4] As problemáticas e sintéticas resoluções presentes na passagem, explicadas pelas definições dos conceitos. A explicação dos conceitos do texto passa por algumas considerações importantes. Em primeiro lugar, a identificação daqueles que foram alvo de tal maravilha, os quais Mateus chama de “santos” (ἁγίων genitivo plural de ἅγιος). Hagner entende que “estes ‘ἁγίων’ devem ser os justos judeus do tempo precedente ao de Jesus, talvez os patriarcas, profetas ou mártires, embora os leitores de Mateus pensem na eventual ressurreição dos cristãos” (HAGNER, Donald A.: Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, s. 849). Assim, a síntese entre o passado judaico e o presente cristão está em voga (DAVIES; ALLISON. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, 2004, S. 634). Em segundo lugar, observemos que de forma paralela este adjetivo é usado também para Jerusalém (τὴν ἁγίαν πόλιν, “a santa cidade”, 27:53). Assim, “o santos” foram manifestos na “cidade santa”. Davis e Alisson pensam que a expressão “τὴν ἁγίαν πόλιν”: “deve ser lida como ironia” (DAVIES; ALLISON. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, 2004, S. 635). Entretanto, Spence pensa numa conotação paradoxal em voga, pois, “Jerusalém (cf.Mt.4:5) ainda é a cidade santa. Ela retem o templo com seus serviços, o ministério e as Escrituras” (Spence-Jones, H. D. M. The Pulpit Commentary: St. Matthew Vol. II, 2004, p. 595). Ainda existem aqueles que preferem metaforizar “Jerusalém” neste texto, como se fosse a “celestial” (Ap.21:1,2). Entretanto, como observamos na tradução, “depois da ressurreição de Cristo os santos na cidade santa apareceram a muitos” (27:53). Por isso, o texto não dá a menor indicação de que esta conotação esteja em voga aqui (HAGNER, Donald A.: Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, p. 849).   Em terceiro lugar, quanto ao ocorrido com “os santos” algumas interpretações são levantadas por Carson: [1] “é um relato de ressurreição deslocado, originalmente ligado ao terremoto de 28.2”; [2] “um hino cristão primitivo” ou [3] “esses versículos são um midrash, uma representação simbólica de determinadas ideias teológicas sobre o triunfo de Jesus e o alvorecer da nova era” (CARSON. Mateus, 2010, pp.671,672). Além disso, “muitos veem aqui uma demonstração visível de que a morte e ressurreição de Cristo efetuaram a libertação de Sheol-Hades dos justos mortos (Ef.4:8,9). Entretanto, o que aconteceu com esses santos ressuscitados subsequentemente não é declarado” (PFEIFFER; HARRISON. The Wycliffe Bible Commentary: New Testament. Chicago: Moody Press, 1962, S. Mt 27:51). A última questão envolve o hiato (tratado na tradução), pois a primazia  da ressurreição de Cristo em relação as outras deve ser preservada.  

Dentre estas alternativas observaremos a dificuldade com a primeira (a mais contundente), por menos três motivos levantados: (1) A perícope interromperia a narrativa de Mateus 28. (2) O relato é mantido junto por dois focos — a morte e a ressurreição de Jesus. Portanto, seria ainda mais estranho Mateus pôr esse relato junto com as perícopes da ressurreição que com as perícopes da paixão. Ligar a cruz com o sepulcro vazio em uma aplicação teológica unificada não é isento de dificuldades, independentemente de se a perícope em questão está localizada com a história da cruz ou com o relato da ressurreição. (3). De forma mais positiva a localização dessa perícope com outros versículos, lidando com o impacto imediato da morte de Jesus pode ser peculiarmente mais apropriado, uma vez que eles também apontam para o futuro. A obra de Jesus na cruz está presa a sua iminente ressurreição; juntas elas inauguram a nova era e prometem vida escatológica. Em suma, a ressurreição dos “santos” começa uma nova sentença e está ligada apenas à ressurreição de Jesus. Portanto, Mateus não pretende que seus leitores pensem que esses “santos” foram ressuscitados, quando Jesus morreu e, depois, esperaram no túmulo até o domingo de Páscoa para aparecer. De todo jeito, a ideia é um pouquinho absurda: não há mais motivo para achar que eles foram impedidos pela substância material do que o foi o Senhor ressurreto, a pedra que tampava a entrada de seu sepulcro foi removida para deixar que as testemunhas entrassem no sepulcro, e não para deixá-lo sair (CARSON. Mateus, 2010, pp.672,673).

Finalmente nos deteremos para a defesa deste ensaio. Portanto, é possível pensar no ocorrido em 27:52,53 como “sinal”, ou seja, algo miraculoso que apontava para a grandeza da morte/ressurreição do Senhor com seus benefícios inefáveis. Isso observamos imediatamente depois destes eventos nas palavras de reconhecimento do centurião e dos que juntamente com ele guardavam a Jesus: “verdadeiramente este era o filho de Deus” (27:54). Assim, “ao lado das testemunhas transfiguradas de Jesus, Mateus posiciona as pessoas que confessaram o seu nome” (RIENECKER. Comentário Esperança, Evangelho De Mateus, 1998; 2008, p. 444). Robertson também define isso: “ao voltamos aos milagres relacionados com o nascimento de Jesus, o Filho de Deus vindo ao mundo [...] há pouco a incomodar aqui nesta história da morte do Filho de Deus” (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament, 1997, S. Mt 27). O foco cristológico desta passagem define que Jesus é Senhor sobre os vivos e mortos (MORRIS. The Gospel According to Matthew, 1992, p. 725). A declaração observada de 27:54 dos centurião e dos guardas (independente do que viram realmente) chancela também isto. Eles identificaram Aquele que morrera na cruz como “Filho de Deus” (ἀληθῶς θεοῦ υἱὸς ἦν οὗτος. 27:54). Mesmo sem o artigo υἱὸς (“o Filho”) não destaca uma indefinição, pois como explica Hagner “esse é o clímax de Seu ministério terreno” (HAGNER, Donald A.: Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, s. 852). Blomberg considera que “Jesus como único Filho de Deus destaca Sua divindade, a qual aqueles que reconheceram, estavam a par de alguma forma” (BLOMBERG. Matthew, 2001, [The New American Commentary 22], p. 422). Nesse viés de interpretação nosso foco está mais fundamentado no apontamento deste evento miraculoso, ou sua devida proeminência. Assim, as questões internas que envolvem a ressurreição dos santos não são exploradas de forma exaustiva, pois como “sinal” pertence a categoria dos feitos extraordinários do Senhor Deus.   

Ao pensarmos em todas as perguntas que veem desse texto (talvez hermeneuticamente indevidas), pode ser que estejamos percorrendo um viés antagônico a questão hermenêutico/teológica em foco. Podemos ler 27:51-54 numa fundamentação cristológica, de maneira que o evento miraculoso ocorrido, possa ser de alguma forma, o substrato da morte/ressureição do Senhor Jesus. Em consonância a isso, ocorreram poderosos sinais miraculosos em todo o Seu ministério, definindo que de fato era o Cristo (Mt.12:28; Jo.2:11; At.2:22-28). Assim, Mt.27:52,53 destaca o último deles, ligando o evento miraculoso a sua devida direção.


[1] Três aspectos da Teologia: “é ensinada por Deus, ensina a Deus e conduz a Deus” (Tomás de Aquino).

[2] Anglada define esse método hermenêutico da seguinte forma: “trata-se de um sistema de interpretação bíblica fundamentado em pressupostos teológicos escriturísticos, que emprega princípios gerais e metodologias linguísticas e históricas consistentes com o caráter divino humano das Escrituras”. ANGLADA Paulo. Introdução a Hermenêutica Reformada, pp.71,72.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 

A Identificação da “PEDRA” (πέτρα) de Mt.16:18 pelo binômio Confissão/Confessor.


Nossa tarefa neste ensaio exegético é expor a identificação da “pedra” (16:18), levando em conta alguns pressupostos hermenêuticos. Seguido a isto, uma análise de viés exegético com alguns considerandos metodológicos que envolvem este trato. A defesa em voga pensa a pedra pelo binômio confissão/confessor. Para tal, percorreremos alguns caminhos que trarão alguns substratos a percepção hermenêutica definida.  

Pela percepção da ICAR  a “pedra” de Mt.16:18 funciona evocaremos de formas distintas. Quando trata “o colégio episcopal e seu chefe, o Papa” define: “somente Simão, a quem deu o nome de Pedro, o Senhor constituiu pedra de Sua igreja. Entregou-lhes as chaves da mesma, instituiu-o pastor de todo o seu rebanho” (CATECISMO da Igreja Católica, 2000, p.253). Esta citação começa a desenvolver a identificação “desta pedra”, entretanto, outros elementos ajudarão, pois ao tratar das “chaves do reino” o catecismo expõe: “no colégio dos doze Simão Pedro ocupa o primeiro lugar. Graças a uma revelação vinda do Pai, Pedro havia confessado (Mt.16:16)”. Assim, ao ler “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela (Mt.16:18), interpreta: “Cristo, a ‘Pedra viva’ garante a sua igreja construída sobre Pedro a vitória sobre as potencias da morte” (CATECISMO da Igreja Católica, 2000, p.156). Depois de observar estas conceitualizações, se faz necessário atentar para seu continuísmo, porque “o único colégio apostólico (Pedro e os doze) de modo semelhante é formatado pelo “sucessor de Pedro, o Romano Pontífice e os bispos sucessores dos apóstolos, os quais estão unidos entre si” (CATECISMO da Igreja Católica, 2000, p.253). Ainda nesta dinâmica é importante descrever o múnus do Papa: “em virtude de sua tarefa de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a igreja, possui na igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode exercer livremente este poder” (CATECISMO da Igreja Católica, 2000, p.253). Com estas sintéticas delimitações introdutórias observamos que a “pedra” de Mt.16:18 pelo viés interpretativo da ICAR (nas porções citadas do catecismo, Mt.16:18 e 18:18 aparecem nas notas de rodapé), faz referência a Pedro em sua confissão e posteriormente ao Papa como seu sucessor com os devidos múnus.               
     A percepção teológica da “pedra” de Mt.16:18 oriunda da teologia reformada tem também suas especificidades definidas. Em primeiro lugar, destaquemos a percepção de Calvino (1509-1564), pois leva em conta a confissão de Pedro feita em seu nome e em nome de seus irmãos (“Cristo, o Filho de Deus”). Assim, sobre ‘“esta pedra’ Cristo edifica a Sua igreja, porquanto é ela, como diz Paulo, o fundamento único, além do qual não se pode colocar outro” (1Co.3:11, CALVINO. As Institutas, Vol.4, 2006, p.112). Em segundo lugar, Herman Bavinck (1854-1921) em sua Dogmática Reformada entende que “a resoluta confissão de Jesus, como o Cristo realizada por Pedro, mostra que era a pedra sobre a qual Cristo edificaria a igreja.” Além disso, entende que a antítese com a percepção da ICAR não é necessária e reitera que a expressão “esta pedra” só pode se referir a Pedro, mas que isso foi demonstrado por sua confissão. Por essa razão, Jesus Cristo prometeu a Pedro que edificaria sua igreja (Cristo, o construtor) sobre ele, como confessor da filiação e do messianismo de Jesus (Pedro, a pedra sobre a qual a igreja se apoiaria, BAVINCK. Dogmática Reformada, Vol.4, 2012, p.343). Cabe destacar que são negadas “a superioridade dada a Pedro” (cf. CALVINO. As Institutas, Vol.4, 2006, pp.109-114) e o continuísmo do “ofício extraordinário”, o qual “não pertence a capacitação contínua e repetida da igreja” (RIDDERBOS. Teologia do Apóstolo Paulo, 2004, p.504; o que “sobrevive é a Palavra Apostólica”, BAVINCK. Dogmática Reformada, Vol.4, 2012, p.344 ) conferido ao Papa.  
Depois de observarmos sinteticamente estes posicionamentos expostos, na dinâmica que envolveu mais a Teologia Sistemática, trabalharemos o texto em voga num viés exegético (TB). Para tal seguiremos alguns passos metodológicos distintos: 1) algumas observações quanto a estrutura do verso, tradução e sintaxe grega de Mt.16:18; 2) a delimitação do discurso pelo contexto lógico e 3) as definições dos conceitos do texto
A estrutura de Mt.16:18 a partir do grego pode ser construída, a partir do “kaís” usados em três linhas:

         16:18a “κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι σὺ εἶ Πέτρος

        “E também eu te declaro: tu mesmo és Pedro”.

         16:18b καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν

                  “E sobre esta pedra edificarei a minha igreja”

        16:18c καὶ πύλαι ᾅδου οὐ κατισχύσουσιν αὐτῆς”.   

                  “E as portas da morte/hades prevalecerão contra ela”

A última parte de 18b inicia o uso dos verbos no futuro, sendo que o primeiro é “οἰκοδομήσω” que todas versões consultadas traduzem como “edificará”, talvez seja esse um futuro preditivo (“acontecerá”). A dinâmica possessiva do pronome “μου” (“minha”) ligado ao “λέγω” (“digo”), define o acusativo “τὴν ἐκκλησίαν” (“a igreja”). Num paralelismo outro preditivo define que “πύλαι ᾅδου οὐ κατισχύσουσιν αὐτῆς” (“as portas do inferno/hades não prevalecerão contra ela”). A divergência nesta linha ocorre na tradução do “ᾅδης”, pois a ARA, ACF, ARC, BJ, BA traduzem este termo como “inferno”, entretanto, a NVI somente translitera: “Hades”. Com estas premissas é possível ter uma ideia do texto grego em suas funções de tradução e sintaxe. 
      Depois de observar estas questões que envolvem o grego, passaremos para as delimitações contextuais. A parte (microestrutura) em que Mt.16:18 se encontra, é vista por alguns estudiosos com extensões distintas: 1) D.A Carson:  “A confissão de Pedro a respeito de Jesus (16:13-20) e o resultado dela (16.21-23”, CARSON. O Comentário de Mateus, 2010, p.426). 2) Donald Hagner: “confissão e comissionamento de Pedro” (HAGNER. Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, p. 461). Finalmente Blomberg: “revelação da Identidade de Jesus a Pedro: uma correta cristologia” (16:13-20, Blomberg, Craig: Matthew The New American Commentary, 2001, p. 249). Essas percepções nos fazem pensar Mt.16:18, a partir desta delimitação contextual. Hagner nos fornece uma estrutura: “1) o cenário e a questão concernente a avaliação pública de Jesus (16:13), 2) a resposta para a primeira questão (16:14), 3) os discípulos questionados (16:15) e 4) a resposta de Pedro e a afirmação de Jesus quanto a sua resposta (16:16,17). A parte que nos interessa neste ensaio é vista por Hagner como: o comissionamento de Pedro consistindo (a) da declaração concernente à igreja (16:18) e (b) a autoridade das chaves” (16:19, HAGNER. Word Biblical Commentary: Matthew 14-28, 2002, p.464). Essa leitura contextual será fundamental na construção dos argumentos, para a resolução da problemática em foco. Depois destas observações trabalharemos as identificações dos conceitos do texto, dialogando com as informações descritas. Mais uma vez as linhas funcionarão como bases estruturais, entretanto numa fusão.

“κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι σὺ εἶ Πέτρος καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ”
“E também te digo: tu mesmo és Pedro e sobre esta pedra.”        

1. “κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι... ” (“E também te digo:)

Pedro começa a ser citado diretamente na narrativa, quando responde o questionamento feito pelo Senhor diretamente aos discípulos (Em 16:16 “Simão Pedro” e 16:17, “Simão Barjonas”). Na análise do contexto observamos isto. Assim, a redução do “povo” para os “discípulos” traz a indagação quanto a identificação do Senhor (“quem sou eu?”). A resposta correta de Pedro foi explicada por Cristo, como algo procedente do Pai (16:17). Robertson sintetiza isto ao afirmar: “o Pai te revelou uma verdade, e eu também te digo outra” (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament, 1997, S. Mt 16:18). Desta forma, o caminho para 16:18 visto em junção com o contexto define quem afirma: “eu, o Messias” (MORRIS. The Gospel According to Matthew, PNTC, 1992, p.422). Em suma essas palavras servem como introdução do que será dito.

2. “σὺ εἶ Πέτρος καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ...” (“tu mesmo és Pedro e sobre esta pedra”)

Nesta linha observamos a problemática interpretativa em voga, a qual está fundamentada na relação existente entre Πέτρος e πέτρα. Sloman, Westcott e Hort descrevem as principais interpretações desta associação, explicando que a πέτρᾳ: (1) “se refere ao próprio Pedro, que teve um papel de liderança no estabelecimento da Igreja que foi ‘construída sobre o fundamento dos apóstolos e profetas’, Ef. 2.20. (2) Se refere à doutrina da Divindade de Cristo que Pedro acabara de confessar, ou ao próprio Cristo” (SLOMAN, WESTCOTT; HORT. The Gospel According to St Matthew: Being the Greek Text, 1912, s. 112). Eles chancelam as construções sistemáticas expostas  na tradição (teses da ICAR, Calvino e Bavinck). Outro elemento que envolve o background deve ser visto nesta questão, pois “em aramaico usava-se a mesma palavra para ‘Pedro’ e ‘rocha’, mas em grego (aqui) são termos cognatos que foram usados de maneira intercambiável nesse período” (KEENER. InterVarsity Press: The IVP Bible Background Commentary: New Testament, 1993, S. Mt.16:18). Este paralelo presente no grego entre Πέτρος e πέτρα segundo Schokel mostra que o primeiro termo “designa uma pedra ou pedregulho, algo que se pode pegar e lançar”, entretanto, o segundo “indica uma rocha onde se assenta um edifício” (SCHOKEL. A Bíblia do Peregrino, Novo Testamento, 2000, p.86). Num viés contextual onde não somente a questão lexicográfica esteja em loco, o trato textual respeita a devida progressão do texto. Carson trabalha isso, numa síntese contextual com a seguinte paráfrase: “essa pedra da verdade revelada — a verdade que você acaba de confessar — edificarei minha igreja” (CARSON. O Comentário de Mateus, 2010, p.431). Jesus se identifica como o construtor, desta forma, a rocha sobre a qual constrói é mais naturalmente entendida como alguém (ou algo) diferente do Dele (ELWELL. Evangelical Commentary on the Bible, 1996, S. Mt 16:13).

σὺ εἶ ὁ χριστὸς ὁ υἱὸς τοῦ θεοῦ τοῦ ζῶντος. (Mt.16:16)

Tu mesmo és o Cristo, o Filho do Deus vivo”

“

σὺ εἶ Πέτρος, καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ  (Mt.16:18)

             “Tu mesmo és Pedro e sobre esta pedra”

A percepção de Allen é perspicaz nessa dinâmica interpretativa, pois pensa a relação Πέτρος e πέτρα, de maneira que, o primeiro nome funciona como expressão dirigida a verdade revelada (16:16,17), sugerindo-lhe um nome metafórico. Desta forma, será a rocha ou a rocha sobre a qual a Igreja permanecerá, é a doutrina central do ensinamento da Igreja. A ideia de que o Cristo divino é a pedra angular do novo edifício da Igreja Cristã (ALLEN. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to S. Matthew, 1907, p.176). Outro elemento levantado por Rienecker destaca a progressividade em que as informações são colocadas na narrativa em foco, pois, “primeiro aparece Cristo, depois Pedro e os apóstolos, e finalmente a comunidade. Essa é a sequência” (RIENECKER. Comentário Esperança, Evangelho De Mateus, 2008, p. 286). Além disso, a proeminência de Jesus Cristo preserva-se não apenas por Ser a pedra fundamental e angular, mas também o mestre de obras que constrói a sua comunidade. Ela não é obra dos apóstolos, e sim obra dele. Ela tampouco é propriedade dos apóstolos, e sim propriedade dele, comprada por alto preço (RIENECKER. Comentário Esperança, Evangelho De Mateus, 2008, p. 286). Em suma, Pedro é a “rocha” porque neste contexto é quem confessa a Jesus como, o Cristo (KEENER. Matthew, 1997 (The IVP New Testament Commentary), s. Mt 16:17). Esses levantamentos nos levam a pensar a identificação da “pedra”, basicamente na confissão/confessor. Esta tese ganha substanciação pela viés do trato contextual. Além disso, Carson destaca que “senão fosse pelo exagero da ICAR, seria duvidoso que muitos considerassem que “pedra” fosse alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro” (CARSON. O Comentário de Mateus, 2010, p.431). Parece que esta tese tem plausibilidade pelos elementos levantados. 

    De que forma o NT interpreta a Teologia da Criação do AT? Um Estudo de caso envolvendo Hb.11:3         Neste ensaio discutiremos a seg...