quinta-feira, 31 de maio de 2018



 A PREDESTINAÇÃO POR CALVINO EM SÍNTESE



A doutrina da predestinação tem formatações distintas, concebidas na história do pensamento teológico. Por esta razão, vários teólogos escreveram sobre este tema, exercendo papeis de defensores e opositores. Entre os primeiros destacaremos João Calvino (1509-1564) que trouxe definições profundas e pedagógicas, para que possamos entender a predestinação, biblicamente se falando. Neste sintético texto nosso objetivo é procurar expor as delimitações, chanceladas por Calvino, vistas de forma temática com dinâmicas progressivas quanto ao trato. Assim, será possível chegar a algumas conclusões iniciais que funcionam como norteadores deste princípio teológico.
O trato da predestinação exposto por Calvino (As Institutas, Vol.3, logo depois de tratar a oração) começa de forma simples, pois foca a diferença quanto a receptividade quanto a “pregação do pacto da vida”, a qual está fundamentada na eterna eleição de Deus. Isso nos leva a entender que a esperança da salvação é dada a uns, e a outros é negada. Para evitar especulações os desígnios secretos do Senhor nesse quesito foram revelados pela Palavra. A importância disso, torna-se real, porque sabemos que no momento em que transpusermos os limites assinalados pela Escritura, seremos perdidos fora do caminho entre trevas espessas, no qual teremos necessariamente que vagar, muitas vezes sem rumo, e assim, resvalar e tropeçar” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.385). O oposto disto está presente na percepção daqueles que sepultam qualquer menção da predestinação. Esta ação ignora que “a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual não deixa de pôr alguma coisa necessária e útil de se conhecer, nem tampouco se ensina nada mais além do que se precisa saber” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.386). Diante da ligação da predestinação com a Escritura toda e qualquer acusação dirigida a ela, fica sem respaldo e fundamento.
É importante destacar que Calvino trabalha com a dupla predestinação, isso observamos em sua definição desta doutrina (predestinação): “o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois Ele não quis criar todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros a condenação eterna” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.388). Detectamos isso, na eleição em Israel, de maneira que a seletividade foi exposta no “amei Jacó, porém odiei Esaú” (Rm.9:13).[1] Essa ação soberana do Senhor torna-se concreta, quando os eleitos são chamados, pois “Deus designou de uma vez para sempre, em seu eterno e imutável desígnio, aqueles que ele quer que se salvem, e também aqueles que se percam” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.393). Assim, fica claro que a causa da dupla predestinação não são as obras, mas o decreto de Deus.  
No campo da refutação Calvino combate a subordinação da eleição a presciência. Em suma essa indevida relação (predestinação subordinada a presciência) para o reformador está baseada, “na previsão realizada por Deus dos méritos de cada um, realizando a partir disso a distinção entre homens”. A questão de procedência ganha importância nesse caso, pois “Deus em Sua graça é livre para escolher quem quer”. Entretanto, isso é negado pelo véu da presciência que desvia a verdadeira origem da eleição. O reformador se volta para Ef.1:4,5, para chancelar a ausência dos méritos humanos na predestinação, enfatizando o tempo da eleição, ou seja, “antes da fundação do mundo”.[2] Além disso, o efeito da eleição destaca a negação a presciência, pois “nos elegeu, para que fossemos santos”, e não porque “previa que assim, haveríamos de ser” (2Tm.1:9). Para fechar Calvino evoca também Ef.1:5-9, para nos lembrar que Deus nos escolheu “segundo o propósito de Sua vontade, que propusera em si mesmo”, definindo assim, que “nada fora d’Ele foi levado em conta no seu ato de decretar” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.397).
Os fundamentos textuais continuam em uso, pois Calvino evoca novamente Rm.9 e trabalha também com o evangelho de João. Quanto ao primeiro entende que a eleição não é apenas exposta mais profundamente, mas também expõe mais extensamente o argumento. Em suma o reformador defende que Paulo está negando que sejam israelitas, todos os que foram gerados de Israel, porquanto “ainda que todos fossem abençoados por direito hereditário, a sucessão, entretanto, na passava a todos igualmente” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.397). Jacó e Esaú funcionam como exemplos disto, pois embora fossem filhos de Abraão, o tratamento deles foi diferente (eleição e propósito. Rm.9:11-13). Mais uma vez a refutação a presciência é exposta, nesse caso, onde a ausência de obras torna-se real, no que diz respeito a eleição. Em suma “Jacó é eleito e Esaú repudiado; e são assim, diferenciados pela predestinação divina, aqueles entre os quais não havia diferença alguma quanto aos méritos” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.400).  Quanto ao evangelho de João a premissa em foco é que Deus por uma adoção graciosa, cria aqueles a quem quer como filhos. A causa intrínseca disto, porém está nele próprio, porque não leva em conta nada mais além de seu decreto e singular beneplácito (Jo.6:44).[3]
As refutações levantadas por Calvino envolvem a presciência como causa da predestinação (como foi visto), mas também a tese de Tomás de Aquino (1225-1274), a qual produz uma graça que não é graça. Em suma Aquino entende que a causa da predestinação não são os méritos, no que se refere a Deus, entretanto, quanto a nós somos predestinados, para que com nossos méritos alcancemos a glória. Evidentemente que essa glória por méritos ligada a predestinação faz com que a mereçamos e isso está em oposição a graça. Outra questão nessa dinâmica de correção com a doutrina é a antítese produzida por alguns entre a eleição e a pregação do evangelho. Na verdade as duas questões estão ligadas, pois “pela pregação exterior todos são chamados ao arrependimento e à fé, entretanto, nem a todos é dado o espírito de arrependimento e fé” (CALVINO. As Institutas, Vol.3, 2006, p.405).             
O reformador levanta algumas objeções a predestinação que são respondidas por ele. A primeira delas fundamenta-se na percepção de que Deus seria injusto se Deus condenasse pessoas que não haviam O ofendido. De forma sintética a resposta passa pelo entendimento de que a vontade de Deus é a suprema regra de justiça, de maneira que tudo que quer é sempre justo. A segunda se opõe a reponsabilidade do pecado que não é compatível com a predestinação. A resposta para alguns é a presciência, mas que Calvino refuta, pois [ela] não é e nunca será a causa. Esse papel pertence sempre a vontade de Deus (Pv.16:4). Nessa dinâmica a queda de Adão também deve ser vista desta forma, e não pelo livre arbítrio do primeiro homem. Portanto, separar “vontade” de “permissão” é algo contraditório, pois Deus não permite aquilo que quer? A terceira questiona a ligação da predestinação com o favoritismo e acepção de pessoa (terceiro absurdo). Entretanto, mais uma vez o reformador destaca que o eleito não tem nada que possa servir de fundamento para o favorecimento divino. Logo a diferenciação está fundamentada na misericórdia de Deus (liberação de toda acusação) para com os eleitos, de outro lado, a justiça (dá em paga a pena devida) aparece como causa da reprovação. A última objeção levantada procura estabelecer uma antítese entre a predestinação e a santificação (“há muitos suínos que mancham a doutrina da predestinação com essas impuras blasfêmias”). Calvino responde, usando Ef.1:4,5, pois a advertência dirigida aos eleitos fundamenta-se na santidade. Por isso, se o alvo da eleição é a santidade de vida, somos despertados e estimulados por ela a sua inegociável prática.
Esse caminho investigativo nos leva a entender que a predestinação tem fundamentos definidos em Calvino. A máxima inicial quanto a diferenciação quanto a recepção da pregação do evangelho é um fator extremamente relevante na dualidade eleição/reprovação. Desta base o reformador deixa claro que a vontade de Deus funciona como causa de todas as coisas. Isso não é considerado por deduções lógicas, mas pela Palavra de Deus. Com este entendimento a rejeição ao conhecimento da predestinação funciona também como rejeição a Escritura. Assim, todas as refutações levantadas pelo reformador aparecem sempre como elemento secundário, pois sempre são vistas em subserviência. Deus elegeu para, e não porquê. Em suma o decreto divino é o respaldo do estabelecimento da livre e soberana vontade do Senhor, isso de forma integral.     
            


[1] ... τὸν Ἰακὼβ ἠγάπησα, τὸν δὲ Ἠσαῦ ἐμίσησα. Rm.9:13 na percepção de exegetas modernos: este propósito distintivo de Deus na eleição (v. 11) é ainda confirmado pelas palavras de Ml. 1:2,3, que explica o amor de Deus a Israel como enraizado em Sua livre escolha de Jacó, em vez de Esaú. “Odiado” aqui não pode ser reduzido a “menos amado”, como no contexto de Ml.1:3,4 deixa claro. WHITLOCK, Luder G.;  SPROUL, R. C.;  WALTKE, Bruce K.; SILVA, Moises: Reformation Study Bible, the : Bringing the Light of the Reformation to Scripture: New King James Version. Nashville : T. Nelson, 1995, S. Rm 9:13. A palavra “ódio” provavelmente não deveria ser explicada, seja em Malaquias ou em Romanos, como um exemplo do uso semítico de um oposto direto, a fim de expressar um menor grau de comparação (como, por exemplo, em Gn.29:31; Dt.21:15): “amor” e “ódio” devem ser entendidos como denotando eleição e rejeição, respectivamente. CRANFIELD, C. E. B.: A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans. London;  New York : T&T Clark International, 2004, p. 480.
[2] καθὼς ἐξελέξατο ἡμᾶς ἐν αὐτῷ πρὸ καταβολῆς κόσμου. Ef.1:4 na percepção de exegetas modernos: Tal linguagem funciona para dar aos crentes a garantia dos propósitos de Deus para eles. Sua força é que a escolha de Deus deles era uma decisão livre, não dependente de circunstâncias temporais, mas enraizada na profundidade de sua natureza. Dizer que a eleição em Cristo ocorreu antes da fundação do mundo é sublinhar que ela foi provocada não por contingência histórica ou mérito humano, mas somente pela graça soberana de Deus. É a noção de preexistência que torna essa formulação possível. LINCOLN, Andrew T.: Word Biblical Commentary  : Ephesians. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 42), p. 23.
[3] οὐδεὶς δύναται ἐλθεῖν πρός με ἐὰν μὴ ὁ πατὴρ ὁ πέμψας με ἑλκύσῃ αὐτόν, κἀγὼ ἀναστήσω αὐτὸν ἐν τῇ ἐσχάτῃ ἡμέρᾳ. Jo.6:44 na percepção de exegetas modernos: Jesus está afirmando a afirmação bíblica básica de que a salvação é sempre devida à iniciativa de Deus. NEWMAN, Barclay Moon; NIDA, Eugene Albert: A Handbook on the Gospel of John. New York : United Bible Societies, 1993], c1980 (Helps for Translators; UBS Handbook Series), p. 203.   

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