domingo, 1 de março de 2020





      “As Setenta Semanas” de Dn.9:24-27 lidas pela Cronografia (não pela Cronologia)





O período sugere que os “setenta anos” de punição devidos, quando vistos de acordo com Jr.25:11; 29:10 estão exigindo sete vezes mais, de acordo com Lv.26 (GOLDINGAY, John. Word Biblical Commentary: Daniel, 2002, p.257).

“...é possível argumentar que Jeremias estava cronologicamente certo, mas é improvável, uma pretensão quanto aos “setenta anos” que pudesse ter uma referência cronológica precisa, nem há razão para inferir que Daniel necessariamente entendeu dessa maneira” (GOLDINGAY, John. Word Biblical Commentary: Daniel, 2002, p.239).

     

          No presente ensaio, trabalharemos uma leitura/interpretação de Dn.9:24-27 pelo viés da Cronografia, algo proposto por John Goldingay. Esta percepção foge da comum, aplicada a interpretação dos “Setenta setes” (semanas) presente no evangelicalismo brasileiro, pois numa dinâmica singular a abordagem cronológica impera. Entretanto, a inversão exposta funcionará, de maneira que, a história terá preeminência sobre os seus dados. O objetivo do ensaio é apresentar algumas sínteses levantadas pelo estudioso inglês.  

           Pela dinâmica do micro no macro, observemos o marcador usado em Dn.9:1, funcionando como elemento transicional em Daniel: “no primeiro ano de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus”. Em onze capítulos deste livro, os versos iniciais começam com a descrição de reis distintos: “Nabucodonosor 1:1; 2:1; 3:1; 4:1 - Belsazar 5:1 – Dario, o medo 5:31; 6:1; 11:1 - Belsazar, rei da Babilônia, 7:1; 8:1 - Dario, filho de Assuero 9:1 - Ciro, rei da Pérsia 10:1” (cf. GOLDINGAY, John. Word Biblical Commentary: Daniel, 2002; MILLER. Daniel, NAC, 2001, p.194). Propriamente em 9:1 é feita a menção de “Dario, filho de Assuero da linhagem dos Medos...” Nas outras aparições a Dario descrito como “o medo” (5:31 [6:1]; 11:1). Assim, problematizamos ao questionar: estes podem ser identificados como os mesmos personagens? Goldingay pensa que a associação pode ser legitima entre 9:1 e 6:1 [5:31], pois “Dario (o medo) recebeu a aquisição da realeza oriunda da Babilônia” (GOLDINGAY, John. Word Biblical Commentary: Daniel, 2002, p.239). Esta data é repetida no v.2, porque com a derrubada do reino do Caldeu, a esperança dos exilados de libertação foi despertada novamente, e naturalmente recorreram aos seus “livros”, para julgar, se o término de exílio havia chegado (MONTGOMERY. A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Daniel, 1927, p.359). Depois desta questão inicial (data e ocasião), a progressividade da argumentação deste capítulo envolverá: uma oração de adoração (9:4), confissão (9:5-14) e petição (9:15-19). Posteriormente, a visão e seus desdobramentos (9:20-27). Em nossa redução focaremos “as setenta semanas” de Dn.9:24-27.  

        Os “setenta anos”. É verdade que algumas linhas interpretativas são advogadas para entendê-los. Em primeiro lugar, pelo viés da Intertextualidade indicando uma ocasião de sete anos que era o ciclo do ano sabático. Noutra somatização, apontando para os sete ciclos de anos sabáticos que constituem o ano jubileu, no final do qual, os escravos eram libertados e a terra devolvida ao seu dono (Lv.25). É claro que esses números são carregados de significado teológico, dando-lhe uma aparência esquemática. Além disso, associações históricas podem ser feitas, pois na Mesopotâmia os números “setenta setes” representavam uma medida completa do tempo. Essa dinâmica estava presente também na literatura Judaica no uso esquemático do termo “semanas”, o qual podia ser vista em 1Enoque (no Apocalipse de Semanas), e o período de 70 semanas em Qumran (MATTHEWS;  CHAVALAS;   WALTON. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament, 2000, S. Dn. 9:24).

       Inicialmente, veremos estes (“setenta anos”), passando pela percepção hermenêutica de Goldingay, mas de que forma? Inicialmente o erudito inglês levanta algumas delimitações que em sua percepção indicam não haver razão, para inferir que Daniel necessariamente entendeu desta forma (cronologicamente). Desta forma, os 70 anos presentes nos oráculos de Jeremias tiveram início com a submissão de Judá à Babilônia em 605 a.C. ou com a queda de Jerusalém em 597 ou 587 a.C. Algo finalizado com a queda da Babilônia em 539, estabelecendo assim, o início de um retorno judaico em 538, ou a conclusão da reconstrução do templo em 517 a.C. É assim possível argumentar que Jeremias estava cronologicamente certo (vida humana, Is 2315; Sl.91.10, GOLDINGAY, John. Word Biblical Commentary: Daniel, 2002, p.239).A cronologia em seus pormenores acaba por ser estabelecida pelo trabalho investigativo, e não propriamente por Daniel. A tese em voga segundo Goldingay: “a importância do estudo corporativo das Escrituras (9:2) que caracterizava a Sinagoga e a aplicação da Intertextualidade ao ligar os “setenta’ (períodos de anos) originais de Jeremias 25:11-29:10 [Dn.9:2] com Lv.26 [v.18], desta forma, indicando a exigência de sete vezes mais, de acordo com Lv 26” (GOLDINGAY, John. WBC: Daniel, 2002, p.257). 

       Em segundo lugar, focaremos nos vs. 24-27 (setenta semanas), os quais são vistos numa dinâmica cronológica, entretanto, esta tese interpretativa têm alguns problemas levantados por Goldingay: [1] o período entre a profecia de Jeremias (605 a.C) e o período da ascensão de Ciro (556 a.C) foi de 49 anos – aquele entre a profecia de Jeremias e a morte do sumo sacerdote Onias III (171a.C) 434 anos, de modo que, a soma esses períodos é de 483 anos, assim, os últimos sete anos produziram os eventos da outra dedicação do templo em 164 a.C. [2] O período de Neemias (445 ou 444 a.C) até a morte de Jesus na Páscoa em 32 ou 33 d.C. Estes foram exatamente de 483 anos, mas, “setenta e sete” foram preteridos (GOLDINGAY, John. WBC: Daniel, 2002, p. 257). Estas teses têm problemas quanto ao seu cumprimento integral, por isso, Goldingay entende esta questão “não pela cronologia, mas pela Cronografia:um esquema estilizado da história usado para interpretar dados históricos em vez de surgir deles, comparável à cosmologia, aritmologia e genealogia, como aparecem em escritos como o AT.” (GOLDINGAY. Daniel WBC, 2002, p.257).

    Tais perspectivas são vistas por Goldingay como arbitrariedades, sendo assim, problematizadas:  por que dois números simultâneos devem ser somados? Por que a palavra sobre a construção de uma Jerusalém restaurada deveria ser relacionada com a comissão de Neemias dada por Artaxerxes para reconstruir os muros de Jerusalém? Por que deveríamos aceitar a base do cálculo de um ano de 360 ​​dias? Por que deveríamos separar as setenta semanas, como a teoria exige? Por que deveríamos datar a comissão de Neemias em 444 a.C. ou a crucificação de Jesus em 32 d.C? O cálculo requer um ou outras, mas as datas geralmente preferidas são 445 e 30 ou 33 d.C (GOLDINGAY. Daniel WBC, 2002, p.257). As respostas podem solucionar ou mostrar a dificuldade da abordagem cronológica. 

     Finalmente, Goldingay responde a visão crítica dirigida a Daniel. Neste caso, esta visão geralmente lê os “setenta setes” se estendendo como uma sequência de algum ponto do século VI até o período de Antíoco Epifânio. Dan 9 é então uma estimativa superestimada e o profeta é culpado por seus “cálculos aritméticos equivocados”. Uma objeção fundamental a tais tentativas de justificar ou de culpar os números de Daniel é que ambos estão errados ao interpretar os 490 anos como oferecendo informações cronológicas. Não é cronologia, mas cronografia: “um esquema estilizado de história usado para interpretar dados históricos em vez de decorrentes deles, comparável à cosmologia, aritmologia e genealogia como estes aparecem em escritos como o AT” (GOLDINGAY. Daniel WBC, 2002, p.260).

     Este ensaio tem pretensões limitadas. O objetivo em voga é provocar uma reflexão quanto a outra possibilidade de se ler as "70 semanas" de Daniel. Em nosso contexto a abordagem cronológica reina sem questionamentos. Algo perigoso, pois acaba por fundir texto/interpretação. As questões levantadas devem servir para pensarmos como mais cuidado na interpretação destas 70 semanas.


Nenhum comentário:

    De que forma o NT interpreta a Teologia da Criação do AT? Um Estudo de caso envolvendo Hb.11:3         Neste ensaio discutiremos a seg...