sexta-feira, 13 de março de 2020



Jo.20:22 Lido Num Viés Simbólico.
“...soprou [não diz “sobre eles”] e disse-lhes: começai a receber (aoristo ingressivo) o Espírito Santo.    
             A Deo docetur, Deum docet, ad Deum ducit[1]
Neste ensaio, investigaremos o evento de Jo.20:22, focando sua junção com At.2. Este trato traz certos fundamentos de complexidade, os quais desafiam nossa exegese. Eles serão tratados, introdutoriamente, a partir de um viés indutivo, por meios hermenêuticos oriundos do histórico-gramatical e dedutivo, a luz das contribuições de alguns estudiosos (Carson, Beasley-Murray, Köstenberger, Westcott e outros). A defesa deste ensaio afirma a leitura do imperativo pneumatológico de Jo.20:22 (λάβετε πνεῦμα ἅγιον) como “simbólico”, pois parece ser coerente por alguns substratos disntintos. Pensaremos, estruturalmente esta questão: 1) pela análise do co-texto, 2) descrevendo as percepções missiológica, teológica e simbólica, e finamente, com 3) a conclusão, a partir dos levantamentos exegéticos.   
λάβετε πνεῦμα ἅγιον (“ começai a recebei o Espírito Santo”) em seu micronível (“os cinco níveis” de George Guthrie; cf. OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, pp.188-190) deve ser visto pela delimitação do macronível. Isso significa que se faz necessário, identificar os limites da unidade dentro do discurso de algumas formas. Nossa construção pensa Jo.20:22, delimitado pela seguinte extensão: 20:19-23. O primeiro substrato desta percepção é de cunho sintático, pois a conjunção transicional οὖν (lê-se: ûn, “portanto”) oferece em 20:19: “uma dedução, conclusão ou um sumário a discussão precedente”. WALLACE. Gramática grega, p.673). Além disso, no co-texto posterior a individualização de um personagem (Tomé) traz o fundamento da transição (20:24,25). Em suma constatamos por 20:19-22 que Jesus aparece aos seus discípulos no pós-ressureição algo paralelo a Lc.24:36-42 (Beasley-Murray, George R. WBC: John, 2002, p. 378). Entretanto, a falta de exatidão do número destes discípulos parece ser uma realidade aqui, pois como vimos, Tomé aparece somente depois (20:24) e Judas havia saído. Por esses considerandos pensamos que eram dez (CARSON. O Comentário de João, 2007 p.647).
Ainda com foco neste desdobramento contextual, observamos que o Senhor saúda seus discípulos: εἰρήνη ὑμῖν (20.19,21,26). Pelo contexto histórico esta saudação indicava um cumprimento judaico padrão, objetivando a comunicação da paz (Keener, [1993]. The IVP Bible Background Commentary: New Testament, s.Jo.20:19). De outro lado, Köstenberger entende εἰρήνη ὑμῖν num viés que envolve “um comissionamento”, pois, “Jesus os transmite a paz que precisam para cumprir sua missão”. Portanto, o foco da presente unidade é a declaração deste comissionamento oriundo do Senhor Jesus (“como o Pai me enviou, eu também o envio”, cf. Mt 28:18–20; Lucas 24:46–49) que culmina na Sua caracterização como o Filho enviado (KÖSTENBERGER. John, Baker Exegetical Commentary on the New Testament, 2004, p.573). O pós-saudação destaca isto: καθὼς ἀπέσταλκέν με ὁ πατήρ, κἀγὼ πέμπω ὑμᾶς (“...da mesma forma em que o Pai me enviou eu também envio a vós”). Ao fundamentarmos está missão, dada pelo Senhor, ligada ao Espírito Santo num viés missiológico, percebemos a funcionalidade de 20:23: ἄν τινων ἀφῆτε τὰς ἁμαρτίας ἀφέωνται αὐτοῖς, ἄν τινων κρατῆτε κεκράτηνται (“aqueles a quem perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e, àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos”). Portanto, “nesse versículo, em que o co-texto é a missão dos discípulos de Jesus (v.21) e que o Espírito é quem os capacita (v. 22), o locus é sobre evangelismo” (CARSON. João, p.656). Ainda assim, o quando desta ação inegociável para o cristão. Neste caso, Jo.20:22 e At.2 precisam ser vistos num viés relacional. 
Depois de pensarmos estas questões de forma sintética, o ponto agora é o papel do imperativo pneumatológico: λάβετε πνεῦμα ἅγιον: “... começai a receber o Espírito Santo” (Jo.20:22), de maneira que sua relação com At.2 funcione numa unidade e diversidade. Inicialmente, não podemos deixar de observar o continuísmo do v.21 com o v.22 pelo καὶ τοῦτο (“e com isso” ou “após dizer isto”), pois como explica Carson: “a comissão fica assim associada à concessão do Espírito” (CARSON. O Comentário de João, 2007, p.650). Com estes considerandos, passemos a pensar as alternativas hermenêuticas para este “imperativo pneumatológico”.
Em primeiro lugar, observemos a tese de Westcott (1825-1901) em seu comentário de João (1881), pois entende πνεῦμα ἅγιον, por causa da ausência do artigo, “como um dom do Espírito Santo” (cf.7:39), objetivando a preparação dos discípulos para o evento de Pentecostes. Desta forma Westcott distinguiu entre a ação do Espírito quanto ao novo nascimento e a capacitação dos crentes para o ministério” (WESTCOTT. The Gospel According to St. John Introduction and Notes on the Authorized Version, 1908, p.295). Entretanto, esta tese é contestada por Borchert, porque “despersonaliza o Espírito e O transforma num dom”. Além disso, “em João 7:39 o Espírito também é mencionado sem o artigo”. De fato, “o Espírito Santo’ aparece mais de cinquenta vezes no Novo Testamento sem o artigo, três deles no Evangelho de João como em: 1:33; 14:26; 20:22” (BORCHERT. John 12-21, The New American Commentary, 2003, p. 307).
Em segundo lugar, na atualidade Beasley-Murray (1916-2000) trabalhou esta questão num viés teológico, e não cronológico. Neste caso, João não especifica os eventos da Páscoa de acordo com a cronologia. Ele poderia, perfeitamente ter conhecimento da tradição do pentecoste e escrever exatamente como ocorreu. Mas, não há dúvida de que o envio do Espírito acontece na Páscoa e no Pentecostes. É um ou outro, em vista da natureza da apresentação de cada evangelista do evento. Portanto, João sabe sobre Pentecoste, mas prefere escrever dessa forma, em íntima conexão temporal com a Páscoa, por causa de sua peculiar visão teológica que liga fortemente a descida do Espírito à morte/exaltação de Jesus (Beasley-Murray, George R. Word Biblical Commentary: John, 2002, p.382).
Em terceiro lugar, temos a fundamentação que pensa Jo.20:22 como “promessa simbólica do dom do Espírito que seria dado mais tarde (isto é, no dia de Pentecoste)”, algo defendido por Teodoro de Mopsuéstia (350-428). Essa tese foi condenada no quinto concílio ecumênico em Constantinopla no ano de 553 d.C., e não recebe muita atenção hoje, mas, muito pode ser dito em seu favor. Carson entende que esta proposta é mais viável, para entendermos Jo.20:22. Mas, quais são suas bases?
Comecemos com a tradução que corrobora, pois, καὶ τοῦτο ἐνεφύσησεν καὶ λέγει αὐτοῖς..., ao contrário do que a maioria das versões em português afirma, o texto grego não diz ‘ele soprou sobre eles, mas simplesmente ‘[ele] soprou’. Desta forma, o sentido desse pano de fundo bastante técnico, de maneira que o verbo ἐμφυσάω (Lê-se: emfysáo) é absoluto em João 20.22 – ou seja, não tem estrutura auxiliar, nem mesmo um objeto direto. Fora outras considerações de peso, portanto, o versículo deveria ser traduzido assim: “e com isso, soprou, e disse: “começai a receber o Espírito Santo”’. Ainda, alguns eventos descritos em João não são realizados naquele momento (12.23,31; 17.1,5), da mesma forma, como este viés simbólico lê o imperativo (λάβετε πνεῦμα ἅγιον) de 20:22.  Outro ponto fundante pode ser destacado pela postura dos discípulos com medo dos judeus (20:19), mostrando a falta de ousadia presente neles no pós At.2. Desta forma, o episódio em 20.22, que a maioria concordará que, em certo sentido simbólico, é mais bem entendido desta forma, como uma capacitação que ainda está por vir. Finalmente, a ‘exalação’ e a ordem de Jesus (“começai a receber o Espírito Santo”) são mais bem entendidas como um tipo de parábola encenada que aponta para o futuro, para a plena provisão ainda por vir (embora já passado para os leitores de João). O apóstolo tem, repetidamente desenvolvido esses passos antecipadores em sua narrativa; não é de surpreender se ele usa um desses (passos), para mostrar que a história não termina com esse livro (CARSON. O Comentário de João, 2007, pp.651-657).
           Em anexo aos considerando levantados pelo Carson outros pontos cooperam com esta percepção. O verbo ἐμφυσάω (lê-se: emfysáo) usado apenas aqui no NT (hapax), pode ser visto como ato foi simbólico, à maneira dos profetas hebreus (VINCENT. Word Studies in the New Testament, 2002, S. 2:29). Além disso, era algo simbólico, aparecendo na LXX, quando “Deus soprou o sopro da vida” em Gn.2:7 sobre Adão (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament, 1997, S. Jo 20:22). Isto é consumado com o restante do verso (λάβετε πνεῦμα ἅγιον), chancelando a consumação da primeira oração. Robertson pensa o aoristo imperativo como ingressivo (ROBERTSON. Word Pictures in the New Testament, 1997, S. Jo 20:22), desta forma a tradução é vista assim: “começai a receber o Espírito Santo.” Esta percepção corrobora com o natureza simbólica desta máxima. O contexto de 20:22 nos ajuda, a partir de seu viés missiológico (20:23). O relato de João descreve um estágio preliminar de preparação para o ministério. “A missão é inaugurada, mas na verdade não começou ... O início real desta missão está fora do escopo do Quarto Evangelho. Resta, portanto, espaço para o derramamento no dia de Pentecoste, após o qual os discípulos assumem a missão em público no poder do Espírito que desce do Pai e do Filho no céu. Tal preparação é claramente o ponto em Jesus levando os discípulos à fé em si mesmo e no comissionamento. Outro fundamentado desta tese está na ausência de Tomé, o qual confessou Jesus como Senhor e Deus (20:28). Whitacre entende que isto ocorreu pela ação do Espírito Santo (WHITACRE. John The IVP New Testament Commentary, 1999, p.482).
        Depois desta sintética jornada, observamos as três fundamentações exegéticas de Jo.20:22. Além disso, a dificuldade com a harmonização (com At.1:8; 2:1-4) mostrou ser a problemática em voga. Cronologicamente, pós Jo.20:22 se passaram provavelmente mais de 40 dias (At.1:3; 2:1-4). Assim, somos levados a ler esta passagem num viés futurista, por isso, as interpretações simbólica e teológica parecem fazer mais sentido. O problema da primeira é sua reprovação no quinto concílio ecumênico em Constantinopla no ano de 553 d.C.   



[1] Três aspectos da Teologia: “é ensinada por Deus, ensina a Deus e conduz a Deus” (Tomás de Aquino).

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