O JEJUM, A LUZ DO NT:
SOMENTE PARTICULAR? OU: PÚBLICO E PARTICULAR?
Neste ensaio, procuraremos analisar o
jejum como prática particular, pública ou ambas. Faremos isto, associando as
construções da tradição, oriundas da teologia de João Calvino (1509-1564), com
o trato exegético de alguns textos do NT (Mt.6:16-18; At.13:1-3; 14:23). Para tal
análise trabalharemos esta questão passando por quatro momentos: [1] as considerações
de Calvino sobre o Jejum particular e público; [2] a exegese pelos considerandos lexicais e de
coesão (lexical), envolvendo o verbo νηστεύω (lê-se: nesteýo) e o
substantivo νηστεία (lê-se: nesteía); [3] a interpretação de Mt.6:16-19, focando πατήρ
σου ὁ βλέπων ἐν τῷ κρυφαίῳ (“o Pai que vê em
secreto...”) e [4] a análise de At.13:1-3 tendo como objetivo
identificar o pronome αὐτῶν (“eles”) de At.13:2, delimitando assim, quem estava
jejuando.
A questão da
prática do jejum é trabalhada por João Calvino em alguns momentos.[1] Para
atender nossa redução, focaremos no Livro IV das Institutas, quando o
Reformador tratou da “Disciplina Eclesiástica”, estabelecendo uma virada neste
assunto, pois passa do “poder das chaves” (jurisdição espiritual) para o jejum.
Inicialmente, é importante entender que o Exegeta da Reforma[2]
defendia o jejum particular e público. Os desenvolvimentos desta tese passam por
alguns substratos.
Em primeiro lugar, Calvino entende a convocação
ao jejum ligada a algum ocorrido grave na igreja (At.13:2,3), ou seja, “segundo
a necessidade dos tempos”. Além disso, a
mesma razão se dá para os outros exercícios com os quais se pode incitar o povo
a cumprir com seu dever, ou manter em suas obrigações e na obediência. Deles
temos exemplos a cada passo nas histórias sagradas, os quais não se faz
necessário coligir. Desta forma, quando houver controvérsias de várias formas
possíveis, “os pastores devem exortar o povo ao jejum público e
orações extraordinárias” (CALVINO João. As Institutas Livro IV,
p.234).
Em segundo lugar, Calvino descreve três
finalidades para o jejum: “macerar e sujeitar a carne, para que não se
refestele, ou para que estejamos melhor preparados às orações e santas
meditações, ou para que seja testemunho de nossa humilhação diante de Deus,
enquanto queremos confessar nossa culpa perante ele” (CALVINO João. As
Institutas Livro IV, p.234). A primeira não ocorre no jejum
público, mas a segunda e a terceira tanto no público como no particular.
Neste viés, quando o jejum funciona como “sinal de humilhação”, tem uso mais
frequente em público do que entre pessoas em particular, ainda que possa ser
uma realidade em ambas as situações. Portanto, no que tange à disciplina,
sempre que houver necessidade de suplicar acerca de algum assunto importante,
seria conveniente, juntamente com a oração, prescrever jejum (At.13:3; 14:23).
Quando os antioquenos impõem as mãos sobre Paulo e Barnabé, para que recomendassem
melhor a Deus seu ministério, que era de tanta importância, associam jejum à
oração [At 13.3]. O mesmo ocorria no momento em que ministros eram constituídos
às igrejas, costumavam orar com jejum [At 14.23]. Indubitavelmente, isto provém
da experiência: “com estômago cheio, a mente não é capaz de elevar-se a Deus,
para orar com ardente afeto e perseverante na oração” (CALVINO João. As
Institutas Livro IV, p.235).
Em
terceiro lugar, ao observar a prática do jejum nas ocasiões de calamidade
pública, o Reformador descreve, novamente a imperativa postura dos pastores em
conclamar a igreja para o jejum, “para que simplesmente se desvie a ira do
Senhor”. Entretanto, nosso interesse neste momento passa pela afirmação de
Calvino quanto ao não cancelamento do jejum realizado pelo Senhor Jesus.
Na verdade, foi ao contrário, como no AT, ainda hoje o jejum é um ótimo auxílio
aos fiéis, uma útil advertência para despertar a si mesmos, de sorte que, por sua
demasiada confiança pessoal e negligência, não provoquem mais e mais a Deus, quando
forem castigados por seus açoites. Daí, quando Cristo justifica a seus
apóstolos por não jejuarem, não diz que o jejum fora anulado, mas o destina aos
tempos calamitosos e o associa ao luto: “Virá o tempo”, diz ele, “quando o
Noivo lhes será tirado” como vemos em: Mt 9.15; Mc 2.20; Lc.5.35 (CALVINO João.
As Institutas Livro IV, p.236).
Por estes considerandos percebemos os
postulados levantados pelo Reformador quanto a dualidade que envolve a prática
do jejum. Passaremos, agora por analisar alguns textos do NT com certas
delimitações para entendermos a dimensão interpretativa da teologia. Nesta
dinâmica, nosso primeiro ato passará por alguns apontamentos lexicais e de
coesão (lexical). O verbo νηστεύω (lê-se: nesteýo) aparece
12 vezes no NT, somente nos evangelhos e no livro de Atos (Mt.4:2; 6:16-18; 9:14,15;
Mc.2:18-20; Lc.5:33-35; Lc.18:12; At.13:2,3), e pode ser traduzido pelo domínio
“Atividades Religiosas”, tendo como subdomínio: “jejuar”. Neste mesmo viés
(Domínio e Subdomínio), o substantivo νηστεία (lê-se: nesteía) aparece 5 vezes no NT (Lc.2:37; At.14:23; 27:9; 2Co.6:5;
11:27). A tradução estabelecida por Louw Nida para estes termos: “ficar sem
comer por um tempo determinado como observância religiosa – jejuar, jejum” (LOUW Johannes;
NIDA Eugene. Léxico Grego- Português
Baseado em Domínios Semânticos, p.483). Observaremos,
agora, os usos textuais vistos, exegeticamente.
Em primeiro lugar, analisaremos Mt.6:16-19 que afirma o
jejum particular de forma imperativa. O
co-texto desta porção é delimitada na extensão que envolve 6:1-18. Carson a
intitula de: “Hipocrisia religiosa: sua descrição e subversão” (CARSON. O Comentário de Mateus, p.200). Nesta
dinâmica temos o princípio em 6:1 e três exemplos em 6:2-18, dentre estes,
aparece o jejum. Assim, em 6:16-18 temos o continuísmo exposto, numa dialética
inversa, quanto a fórmula que vai do negativo (“não toques, 6:2 [...] não
sereis, 6:5 [...] não vos mostreis 6:16) para o positivo (“tu porém 6:3; [...]
tu porém 6:6 [...] tu porém 6:17”). Desta forma, em 6:16 a proibição é
destacada pela dualidade: imperativo negativo/explicação:
Ὅταν δὲ
νηστεύητε μὴ γίνεσθε ὡς οἱ ὑποκριταὶ σκυθρωποί (“quando jejuardes, não [vos] mostrai
como os hipócritas contristados...”)
ἀφανίζουσιν γὰρ τὰ πρόσωπα αὐτῶν ὅπως
φανῶσιν τοῖς ἀνθρώποις νηστεύοντες (“porque
desfiguram o rosto, para que aos homens pareça que
jejuam”).
Assim, como nos dois exemplos anteriores de piedade, “os
hipócritas” (6:2) são caracterizados pelo desejo de “serem vistos pelos outros”
(cf. 23:5). Nesse caso, eles desejam, somente deixar claro para todos que estão
envolvidos na atividade justa do jejum e que são, portanto, homens santos.
Consequentemente, eles se esforçam, para se tornarem visíveis, quando jejuam. Em
vista, aqui, está a prática voluntária do jejum privado, e não o (jejum)
prescrito associado aos grandes festivais do Dia da Expiação e do Ano Novo
(HAGNER, Donald A. Word Biblical Commentary: Matthew 1-13, 2002, p. 153).
Em antítese a esta postura hipócrita, os que seguem a Jesus jejuam de tempos em
tempos, mas o Senhor nada diz nada sobre frequência, ocasião ou método. Ele
está preocupado apenas com a motivação por trás do jejum. Principalmente
com a exigência de que seja feito secretamente, como uma questão entre a
pessoa e Deus (MORRIS, Leon: The Gospel According to Matthew,
1992, p.151). Por isso, os imperativos do v.17 (ἄλειψαί σου τὴν κεφαλὴν [“unge a tua cabeça”] καὶ τὸ πρόσωπόν σου νίψαι [“e lave o te rosto”]) são cruciais e sua
finalidade no v.18 (ὅπως). Entretanto, nosso foco
está na ação do “Pai que vê em secreto [e] te recompensará” (ὁ
πατήρ σου ὁ βλέπων ἐν τῷ κρυφαίῳ ἀποδώσει σοι). O termo grego κρυφαῖος (lê-se:
krýfaîos) aparece somente aqui no NT (hápax) e descreve
que o jejum deve ser conhecido somente pelo Pai, assim, Aquele que não
pode ser visto, é Aquele que “vê” tudo feito “em segredo” (ὁ βλέπων ἐν τῷ κρυφαίῳ), Somente esse tipo de conduta receberá uma verdadeira
recompensa (HAGNER, Donald A. Word Biblical Commentary: Matthew 1-13,
2002, p.154).
Por esta passagem temos a constatação exegética da
prática do jejum realizada de forma particular. Portanto, a questão tratada
passa não somente pela constituição desta prática em sua devida motivação, pois
descreve também a forma. Esta dualidade motivação/forma nos serve,
pedagogicamente para pensarmos no jejum pelas prescrições do Senhor Jesus.
Veremos ainda, At.13:1-3; os qual parece chancelar o
aspecto público do jejum (um texto usado repetidamente por Calvino).
Neste capítulo, percebemos as singularidades da igreja de Antioquia, pois foi a
primeira congregação cristã a
testemunhar aos gentios em sua própria cidade (11:19), a primeira que enviou missionários e a primeira igreja que teve uma
visão quanto a “missões estrangeiras” (POLHILL, John B. Acts NAC, 2001,
p. 288). O composto apresentado por 13:1 chancela a presença dos líderes da
igreja (“profetas e mestres”) seguidos de cinco nomes (Barnabé, Simeão, Lucio
Manaém e Saulo). Lucas nada explica sobre a diferença entre estes ministérios,
nem se todos os cinco exerciam ambos (os ministérios) ou se os três primeiros
eram profetas e os últimos dois mestres (STOTT John. A Mensagem de Atos,
p.242). Nosso foco é a questão que envolve o jejum público.
Para tal análise pensemos a construção oriunda do grego.
O diagrama traz o ponto nevrálgico que será objeto de nossa análise: a relação
entre os particípios e o pronome (a ordem do texto foi mudada):
δὲ αὐτῶν
|
Λειτουργούντων τῷ
κυρίῳ
|
καὶ
νηστευόντων
Os dois particípios presentes (Λειτουργούντων, νηστευόντων) usados aqui, segundo Robertson podem ser vistos como “Genitivos
Absolutos” (ROBERTSON, A.T.: Word Pictures in the New
Testament, 1997, S. At 13:2). Eles atendem as
caracterizações estruturais e semânticas deste tipo de Genitivo. Assim, parece
que a tradução, neste caso, estabelece um viés temporal da seguinte forma:
“enquanto eles serviam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo...” Entretanto, a extensão dos que praticavam
estas ações descritas pelo pronome αὐτῶν (lê-se: aytôn), corrobora com a fundamentação do jejum
público? Este pronome denota somente
os cinco ou toda a congregação?
Alguns autores fazem associação entre jejum, culto
(serviço divino) e oração (STOTT John. A Mensagem de Atos, p.243),
envolvendo toda a comunidade. Entretanto, na percepção de Barret isto não tem
legitimidade, pois contextualmente os líderes parecem realizar esta ação.
Assim, seria muito difícil dar a αὐτῶν (eles) uma aplicação mais ampla, de maneira que a referência em
questão dos particípios alcançasse mais do que os profetas e mestres do v.1. Embora
a maioria dos comentaristas faça isso, quando dizem que a presença da
comunidade não é mencionada, mas é pressuposta. Além disso, este jejum em
andamento não era uma questão que se relacionava, simplesmente ao período
durante o qual os líderes estavam reunidos para adoração (BARRETT, C. K.: A
Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles, 2004, p.
604). Os particípios presentes podem legitimar isto. Portanto, o serviço
realizado (λειτουργέω) em 13:2
visto como algo praticado pelos líderes, funciona como algo semelhante aos
sacerdotes do Antigo Testamento, uma vez que a palavra é usada na Septuaginta
nesse sentido como em: Êx.28:35,43; 29:30 (NEWMAN, Barclay Moon; NIDA, Eugene
Albert: A Handbook on the Acts of the Apostles, p.244). Desta forma, o
substrato desta tese funciona com relevância pelo contexto lógico. Dissociar os
genitivos do v.2 dos nominativos do v.1 parece ser algo complexo.
Em conexão com esta percepção está o co-texto posterior
(13:3), de maneira que as três ações ali descritas parecem estar ligadas aos
profetas e mestres: “jejuando, orando e impondo as mãos sobre eles” (Barnabé e
Saulo). A ligação pode ser feita com a nomeação de presbíteros em 14:23,
entretanto, a questão aqui não parece ser uma ordenação rabínica. Assim, esta “imposição
de mãos” fala num “reconhecimento da ação divina” (BARRETT, C. K.: A
Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles, 2004, p.
606), “num ato de benção” (MARSHALL. Atos, p.206) ou “numa consagração solene a
grande tarefa missionária” (ROBERTSON, A,T. Word
Pictures in The New Testament, s.At.13:3).
Este ensaio tem pretensões limitas em suas abordagens,
pois objetiva o início da discussão sobre o jejum particular e público. A
dificuldade inicial neste trato passa pela estatística dos aparecimentos dos
termos gregos (νηστεύω, νηστεία) em seus poucos usos no NT. Esse componente limita
nossas ações, para que possamos trazer afirmações mais exaustivas sobre o tema
teológico em foco. De outro lado, realça a necessidade de se respeitar a
suficiência da Escritura e assim, não defendermos o que está somente no campo
da especulação. Portanto, duas proposições podem ser destacadas, a luz do
diálogo observado: o jejum particular defendido por João Calvino tem sua base
exegético-teológica firmada em Mt.6:16-19, entretanto, o jejum público (também
defendido pelo Reformador), quando fundamentado em At.13:1-3 parece não
funcionar desta forma. O uso pronominal observado pelo contexto parece
descrever uma ação dos líderes, e não da igreja no momento do culto.
[1] Como em: CALVINO
João. As Institutas Livro III, p.87.
[2] Dockery entende
que Calvino (1509-1564) “foi o maior exegeta da reforma, mais do que
qualquer outro estabeleceu a tendência ao uso do histórico-gramatical como
fundamento para o desenvolvimento da mensagem espiritual baseada no texto”.
DOCKERY S. Davies. Hermenêutica
Contemporânea a luz da Igreja Primitiva. São Paulo: Vida Acadêmica, 2005,
p.154 (grifo meu). Paulo Anglada segue esta linha de reconhecimento do trabalho
hermenêutico do Reformador de Genebra: “Calvino é reconhecido como maior
intérprete da reforma e um dos maiores de todas as épocas. Foi ele, sem dúvida,
quem melhor praticou a exegese gramatical e histórica”. ANGLADA Paulo. Introdução
a Hermenêutica reformada, p.87.

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