domingo, 26 de abril de 2020



“E houve tarde e manhã um [...] dia”: o “YOM” (יוֹם) de Gn.1 visto descronologicamente (“as estruturas de um arcabouço literário...”) 

    Neste ensaio, observaremos, introdutoriamente, a expressão “...e houve tarde e houve manhã um dia...” (וַֽיְהִי־עֶ֥רֶב וַֽיְהִי־בֹ֖קֶר י֥וֹם) presente em Gn.1. Faremos isto conscientes da complexidade desta análise por algumas questões, uma delas destacada por Vern Poythress, quando descreve o “caráter incomum dos seis dias em Gn.1 , pois apresentam certas dificuldades na forma que os vemos (Poythress. Time in Genesis 1).[1]  Alguns estudiosos terão papeis fundamentais na construção dos nossos argumentos no trato desta questão. A defesa exposta neste ensaio está fundamentada no que Bruce Waltke chama de: “estruturas de um arcabouço literário designadas a ilustrar a natureza ordenada da criação divina e a capacitar o povo pactual a imitar o Criador” (WALTKE Bruce. Gênesis, p.71).
Inicialmente, constatamos o uso  da expressão, “...e houve tarde e houve manhã um/o dia...” (וַֽיְהִי־עֶ֥רֶב וַֽיְהִי־בֹ֖קֶר י֥וֹם) pela coesão lexical, já que aparece algumas vezes em Gn.1, todas elas na conclusão das obras da criação (1:5,8,13,19,23,31), fechando a atividade de cada dia. O desafio hermenêutico em voga tem seu fundamento na compreensão, a partir da intenção do Autor/autor de seu significado, por isso, como enten-la? Na história da interpretação, alguns autores trouxeram percepções, estabelecendo linhas hermenêuticas distintas nesta questão. Agostinho de Hipona (354-430) pensa este ponto, fazendo uma conexão entre os dias da criação: “antes de serem criados os luzeiros, talvez se interpretasse, sem qualquer absurdo, como o término da obra realizada, e a manhã, como a significação de uma futura operação” (AGOSTINHO. Gênesis, p.38). De outro lado, Calvino (1509-1564) contribui ao afirmar a existência de uma linguagem de acomodação: “... o próprio Deus tomou o espaço de seis dias, com a finalidade de acomodar essas obras à capacidade dos homens” (CALVINO João. The Ages Digital Library Commentary – Commentary on Genesis, p.34). Numa síntese pedagógica Derek Kidner apresenta outras possibilidades interpretativas quanto a simetria do esquema de Gn.1 (cronologicamente ou de outra forma):

[1] os seis dias vistos uma sequência de dias de instrução dada ao autor, não (dias) da criação propriamente dita;  [2] o esquema de dias poderia explicar um interesse litúrgico, se pudesse evidenciar que este “ hino” da criação foi composto para a celebração de uma semana do Festival do Ano Novo em Israel, [3] a ordem pertence à forma poética da passagem, e não deve ser salientada demais, visto que o interesse do autor é expor-nos o mundo visível como obra das mãos de Deus, e não informar-nos de que este aspecto é mais antigo do que aquele (KIDNER Derek. Gênesis, p. 51).

Depois de pensarmos estes apontamentos, passemos para a análise literária. Em primeiro lugar, pela fórmula que envolve “os sete elementos”, descrevendo cada estágio da criação, descritos por Wenham:  Anúncio, (“Deus disse...”), comando (“haja luz”), realização (“e houve luz”), execução, (“luz” criada com finalidade), aprovação, ("viu Deus que a luz era boa”), palavra subsequente, (“Deus chamou a luz dia e as trevas noite”) e o número do dia. De fato, somente em Gn.1:3-5 todos os sete elementos estão presentes numa sequência simples (WENHAM. Word Biblical Commentary: Genesis 1-15, 2002, p.17). Por esta percepção entendemos de forma holística, de forma estrutural, os ocorridos textuais nos dias da criação. Em segundo lugar, nessa dinâmica, observamos uma disposição quiástica em Gn.1:5, de maneira que a ligação do verbo com objeto direto aparece em sua construção:

           וַיִּקְרָ֙א לָאוֹר֙  וְלַחֹ֖שֶׁךְ קָ֣רָא
   [A] chamou [B] à luz [B] às trevas [A] chamou”.

Wenham explica que este “uso expressa a unidade dos dois atos de nomear”. (WENHAM. Word Biblical Commentary: Genesis 1-15, 2002, p.17). Em terceiro lugar, a ordem do dia constitui numa problemática, pois começa com a “tarde” e depois vem a “manhã um dia primeiro”. Como entender isto? Waltke pensa a tradução possível desta expressão como: “veio à tarde, e então a manhã ...” Desta forma, “a ideia, como expressa pelo hebraico, é que o primeiro dia termina, quando as trevas da tarde se dissipam pela luz da manhã” (WALTKE Bruce. Gênesis, p.71). Quanto a justificativa deste uso, segundo Wenham, passa, “provavelmente pela percepção judaica de que o dia começa a tarde, e não pela manhã” (WENHAM. Word Biblical Commentary: Genesis 1-15, 2002, p.17). De outro lado, Victor Hamilton nega a ordem em foco como apontamento para a delimitação do dia de um, ao outro pôr do sol. A evidência, neste caso, sugere, fortemente que este “dia” começava ao nascer do sol (cf. Gn.19:33,34; Jz.6:38; 21:4). Similarmente, a expressão “dia e noite” é usada, mais frequentemente do que “noite e dia”.[2] (HAMILTON P Victor. The New International Commentary on The Old Testament, 1990, p.121). Portanto, a formatação dual (noite/dia ou dia/noite) observada tem parâmetros constitutivos num viés definido, mas, quando reduza para a proposta deste ensaio, a fala de Hamilton corrobora: (“veio à tarde, e então a manhã ...”) “parecem definir não a computação dos dias, mas o tempo existente até ao amanhecer, o início do dia para o próximo ato do Criador” (HAMILTON P Victor. The New International Commentary on The Old Testament, 1990, p.121). Nessa mesma dinâmica Mathews usa o termoretórico”, pois esta expressão “estabelece o esquema literário da semana da criação, distinguindo seis unidades ou dias” (MATHEWS. Genesis 1-11, NAC, logos Library System). Assim, a natureza literária pode receber mais ênfase, mas não negando a historicidade do evento da criação.
A relação entre os dias da criação destaca o aspecto progressivo dos atos da criação e serve de substrato para as “estruturas de um arcabouço literário”. Como ilustração, pensemos a relação reduzida entre o primeiro e o quarto dia. Bruce Waltke traz um gráfico instrutivo, para entendermos esta questão:




Este gráfico expõe o movimento e desenvolvimento de cada tríade, as quais revelam uma progressão dentro da criação. Neste viés, a primeira tríade separa o caos informe nas três esferas estáticas. Na segunda tríade, as esferas casa e proteção da vida são completadas com as formas de movimento do sol, lua e criaturas viventes. Os habitantes da segunda tríade governam as esferas correspondentes: o sol e a lua governam as trevas, enquanto a humanidade (cabeça sobre tudo) governa a terra. Dentro da primeira tríade, há movimento simples de luz para trevas, de firmamento e mares para vegetação que cresce. Dentro da segunda tríade, há uma erupção de energia cinética. Sol e lua cruzam o céu; aves e peixes enxameiam o ar e mar; animais terrestres vagueiam pelo solo. O padrão de movimento na segunda tríade ocorre progressivamente. As luzes seguem um padrão premeditado e estruturado. Os animais vagueiam em níveis limitados de liberdade, restringidos por seus padrões instintivos de migração e habitação. Os seres humanos têm liberdade mais ampla, limitada só pela própria terra. Todo o relato é unificado por uma estrutura básica de um tempo semanal. A estrutura afirma a consonância e simetria, a harmonia e equilíbrio no mundo de Deus (WALTKE Bruce. Gênesis, p. 71). Este aspecto progressivo para Kidner tem sua importância declarada, pois depois de descrever as possibilidades de interpretação, destaca que “talvez, uma ou outra dessas sugestões justifique a intenção do capítulo. Entretanto, para o presente escritor, a marcha dos dias é um avanço progressivo majestoso demais para não incluir nenhuma ideia de sequência ordenada” (KIDNER Derek. Gênesis, pp. 51,52).
Com esta percepção observaremos mais um substrato para “as estruturas de um arcabouço literário”: o composto que envolve a אוֹר  (‘or, “luz”, 1:3-5) e   מָאוֹר  (ma’vor, “luzeiro ou luminar”, 1:14-19). A problemática em voga, neste caso, expõe: como pensar em dias literais de 24 horas sem os luminares? Podemos afirmar que esta correlação existia na intenção de Moisés? Vern Poythress observa um “caráter incomum nos seis dias, pois apresentam certas dificuldades na forma que os vemos, além disso, alguns dos ritmos, os quais não existiam até um ponto posterior na sequência deles. O ciclo da luz maior (o sol) não existia até o quarto dia” (Poythress Time in Genesis 1).[3] Em suma, a correlação exposta (מָאוֹר  -אוֹר) quanto a tradução parece ser melhor vista com o termo equivalente a “luminar(es)” (vs.14,16), do que propriamente “luzes”. Desta forma, esses objetos devem ser considerados transmissores, e não geradores de luz. Isso e o fato de o sol e a lua não serem citados pelo nome mostra que há uma diminuição intencional da sua importância numa época em que eram adorados quase no mundo todo. Esse ponto de vista não contradiz a afirmação frequente de que a obra do quarto dia é paralela à do primeiro (BRUCE. F.F. Comentário Bíblico NVI, p.157). Entretanto, não podemos negar a fala daqueles que afirmam a inexistência da conexão entre a luz do dia e o sol pelo background de Gênesis (cf. MATHEWS; CHALAVAS; WALTON. The IVP Bible Background Commentary, s.Gn.1:5). Entretanto, a partir de 1:14, a relação do sol com a luz se torna uma realidade. Desta forma, os três primeiros dias alternavam entre luz e trevas, segundo a vontade de Deus (WENHAM. Word Biblical Commentary: Genesis 1-15, 2002, p.40). Esta questão pode ser vista também por uma dinâmica gramatical, isto por causa da ausência do artigo no   יוֹם. Este uso em questão, segundo Waltke mostra que, “o narrador sugere, sutilmente uma descronologização ao falar de cada um dos primeiros cinco dias como ‘um dia’, não ‘o dia’” (WALTKE Bruce. Gênesis, p.90). Essa construção pode ser vista em Gn.1:5,8,13,19,23,31. Portanto, diante de todas as complexidades existentes quanto a harmonização cronológica entres os dias da criação, talvez seja possível observar esta questão de forma descronologizada. Assim, podemos ressaltar a proeminência em voga, apontando para a apresentação da criação através destes “dias”, revelando, desta forma, a soberania de Deus, ordenando a criação e a preocupação divina em acomodar-se à humanidade em termos finitos e compreensíveis (WALTKE Bruce. Gênesis, p. 71).  
A última questão da tese em foco envolve um caráter mimimético, pois a atividade criadora nos seis dias seguidas de descanso no sétimo trará consolidações posteriormente. Em 2:1-3 a seguinte estruturação favorece a proeminência em foco (4 linhas):

1.    “Deus completou no dia sétimo a obra que fizera  
2.    e descansou no dia sétimo de toda obra que fizera
3.    e abençoou o dia sétimo e o santificou,
4.    porque descansou de toda que como Criador fez”.

As consolidações a partir deste verso quanto ao “YOM” tem delimitações a serem observadas, como destaca Waltke: “nos primeiros seis dias, subjuga-se espaço; no sétimo, santifica-se tempo” (WALTKE Bruce. Gênesis, p.79). Para isto devemos levar em conta a paráfrase constitutiva quanto a clara afirmação: “quando o sétimo chegou, Deus havia terminado Seu trabalho”( REYBURN; FRY. A handbook on Genesis, Logos System).  Neste “dia” as evoluções argumentativas mudam em perspectiva em relação as ações do Senhor na criação. Assim, este “dia sétimo” (י֣וֹם הַשְּׁבִיעִ֔י)[4] por um viés temporal tem consolidações prescritivas no pentateuco, numa importância mimimética (Êx.20:8,10,11). Como afirma Wenham: “ao observar o sétimo dia como santo, o homem está imitando o exemplo de seu Criador” (WENHAM. Word Biblical Commentary: Genesis 1-15, 2002, p.40).     
Este ensaio tem pretensões limitas em seu alcance, pois seu proposito objetiva, introdutoriamente a necessidade de se pensar em outras alternativas exegéticas para entendermos os dias da criação. Foi possível analisar a coesão lexical, alguns testemunhos na história da interpretação e observar pontos quanto a análise literária. Os substratos para a tese defendida teve alguns Centramentos: 1) a definição da expressão “houve tarde e manhã um dia” não como computação deste “dia”, mas apontando para o início de uma nova atividade do Senhor (efeito retórico); 2) a relação entre os dias pela ênfase no aspecto progressivo que parece destacar como proeminência o exercício soberano de Deus em criar, e não a cronologia, 3) o aspecto gramatical pela ausência do artigo no “YOM” (um dia) destacando a descronologização e 4) a relação com 2:1-3 onde o “YOM” tem conotação mimimética e temporal.   




[2] Lv.23:32
[4] Na LXX aparece como dia sexto: καὶ συνετέλεσεν ὁ θεὸς ἐν τῇ ἡμέρᾳ τῇ ἕκτῃ...

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