O PEDOBATISMO PELAS DEFINIÇÕES DE JOÃO
CALVINO: ALGUNS APONTAMENTOS.
A Deo docetur, Deum docet,
ad Deum ducit[1]
O objetivo deste
pedobatismo: “... para que sejam marcados pelo símbolo da misericórdia e com
isso sua fé seja consolada e corroborada, ao ver com seus próprios olhos a
aliança do Senhor selada no corpo de seus filhos” (CALVINO. As Institutas, 2006, p.316).
Cristo se santificou desde a
primeira infância, para que a seus eleitos, de qualquer idade os santificasse a
si mesmo [...] tenhamos por certo, que o Senhor não leva desta vida a nenhum de
Seus eleitos sem que primeiro seja santificado e regenerado por Seu Espírito
(CALVINO. As Institutas, 2006,
pp.326,327).
Na percepção de alguns o pedobatismo é “o
bezerro de ouro da reforma” que produz certo desconforto teológico em sua
aceitação. Esse tom discordante não para por aí, pois comumente se faz uma pequena
confusão entre a aceitação do batismo
infantil e ser católico (as perspectivas são diferentes), já que o segundo
absorve o primeiro. Além destas problemáticas, talvez a mais complexa seja, a falta de conhecimento desta doutrina
daqueles que se intitulam “reformados”. O prejuízo disso ocorre,
individualmente e coletivamente, porque batizar os filhos sem entender o
ato, consisti em algo destoante ao propósito do sacramento (individual) e
ineficaz ao compartilhamento que envolve o fundamento da Palavra (coletivo). Assim,
observamos o pedobatismo como uma doutrina cercada de desafios, os quais devem
ser enfrentados com estudo e oração (orare et labutare).
Neste sintético ensaio, observaremos alguns posicionamentos
de João Calvino (1509-1564) registrados nas Institutas Vol.4 (pp.311-342) que
produzem definições do pedobatismo com postulados esclarecedores. Entretanto,
inicialmente é importante destacar a fala de McGrath, pois explica que “o
interesse de Calvino era humanista, e não escolástico (preocupação pedagógica,
e não metodológica) – ou seja, o de auxiliar seus leitores, e não impor um
método a seu próprio pensamento” (McGRATH. A
Vida de João Calvino, 2004, p.174). Esse viés pedagógico funciona como
pressuposto para nossa interpretação e limita nossa pesquisa, respeitando a
intenção do reformador em seu texto.
O reformador de Genebra inicia seu trato da
questão, descrevendo o papel dos opositores, os quais traziam certas
perturbações a igreja. O que produziu a necessidade de explicar “o mistério do
batismo”, fundamentando-o na Escritura (relação inseparável), pois, “a menos
que o sacramento se apoie no seguro fundamento da Palavra de Deus, ele fica
pendente por um fio” (CALVINO. As
Institutas, 2006, p.311). Assim, Calvino começa sua exposição, levantando
elementos basilares que definem sua compreensão do pedobatismo. O primeiro deles
relaciona sinal/promessa, pois o elemento ou expressão material
delimitam sua eficácia e natureza. A primeira constitui o ato (ou expressão
material) e a segunda “a purificação dos pecados, a qual obtemos pelo sangue de
Cristo”. Com este entendimento chegamos “a sólida verdade do batismo, por assim
dizer, toda a sua substância” (CALVINO. As
Institutas, 2006, p.312).
O caminho natural agora é fundamentar,
textualmente a dualidade batismo/circuncisão. Nesta dinâmica, o Exegeta da
Reforma usa Gn17:1-7, o qual descreve “a promessa da vida eterna dada a Abraão
e a sua semente” (como interpreta Cristo Mt.22:32; Mc.12:27; Lc.20:38, “formulando
a imortalidade e ressurreição dos fieis”).[2]
Isso explica a estranheza em que vive o homem fora do pacto, destituído dos
benefícios espirituais doados por Deus (Ef.2:11,12). Assim, “temos na
circuncisão uma promessa espiritual outorgada aos patriarcas, como se dá em
nosso batismo, uma vez que ela significa a remissão dos pecados e a
mortificação da carne” (CALVINO. As
Institutas, 2006, p.313). Entretanto, estes dois aspectos tem algo
semelhante e diverso, pois “a promessa do favor paterno de Deus e a remissão
dos pecados é a mesma”, de outro lado, “a cerimonia externa” constitui a
diferenciação (segundo “a Analogia da Fé”, Rm.12:3,6).
Ao abranger mais um pouco Calvino entende o
pedobatismo como “selo que autentica a promessa do pacto”. Juntamente com isso,
o reformador defende algo fundamental para a compreensão desta doutrina: “a
permanência e firmeza do pacto aos filhos dos judeus em igual valia aos filhos
dos cristãos”.[3] Exegeticamente
a construção:
לִבְרִ֣ית עוֹלָ֑ם “Aliança
eterna”,
Gn.17:7 com o propósito:
לִהְי֤וֹת לְךָ֙ לֵֽאלֹהִ֔ים “para ser o teu Deus”
וּֽלְזַרְעֲךָ֖
אַחֲרֶֽיךָ “e
da tua descendência” elucida).
Assim, esse “pacto visto como comum[4] também (é comum), quanto a razão de confirmá-lo”. A consequência disto é a qualificação desta
semente como “santa” (“diferente da semente imunda dos idólatras”). De certa forma,
em consonância com isto, o Reformador entende a expressão “dos tais é o reino
do céus” (Mt.19:14), apontando para “o batismo, pois, se lhes é dado este
reino, porque lhes negaríamos o sinal, por meio do qual lhes foi aberto o
acesso à igreja” (CALVINO. As Institutas,
2006, p.316).
Essas premissas nos levam a pensar que o
Pedobatismo não foi inventado pelos homens, pois tem fundamento na Escritura. Embora
isso, não tenha sido exposto explicitamente pelos apóstolos, a falta de
exclusão de pessoas indica isso, porque famílias inteiras eram batizadas (como
vemos em Atos).[5] O benefício disto envolvia não somente as
crianças, mas também os adultos, já que a bondade e a graça do Senhor eram
realidades não somente em suas vidas, mas também na sua posterioridade
(Êx.20:6; Dt.5:19). Diretamente as belas palavras do reformador descrevem o
objetivo deste pedobatismo: “... para que sejam marcados pelo símbolo da
misericórdia e com isso sua fé seja consolada e corroborada, ao ver com seus
próprios olhos a aliança do Senhor selada no corpo de seus filhos” (CALVINO. As Institutas, 2006, p.316).
Depois destes contornos basilares Calvino
começa a responder as refutações levantadas pelos Anabatistas. Ao realizar esta
tarefa o Reformador traz importantes contribuições para a definição deste tema.
Inicialmente a chancela foca a afirmação de que a circuncisão e o batismo são
sinais de mortificação numa interrelação. Não esquecendo-nos de que o primeiro
deve ser visto em sua literalidade (cronologicamente se falando) com suas
devidas promessas. Mesmo com essa literalidade a espiritualidade não pode ser
negada, pois Cl.2:11 define que “o cumprimento e veracidade do batismo são ao
mesmo a veracidade e cumprimento da circuncisão”. Ainda nessa dinâmica a
redução da promessa dirigida somente aos filhos de Abraão (da carne) é evocada,
entretanto, a promessa doada ao patriarca (Gn12:3), expande, sendo dirigida aos
gentios com o mesmo conteúdo (Gn17:7). Além disso, a máxima de Rm.4:10-12
corrobora com esta questão, pois judeus e gentios são filhos de Abraão. A eficácia
disso depende da eleição que deve ser vista em ambas dispensações, pois a
misericórdia do Senhor foi atestada com a circuncisão e com a igreja cristã
ocorre o mesmo.
Outra questão levantada (repetidamente) questiona
a ignorância e falta de fé das crianças, pois não são capazes de apreender o
mistério. Entretanto, mesmo assim, devem ser consideradas filhos de Adão, então
abandonados a morte, por isso, nada podem fazer, senão morrer (Rm.5:12-21).
Além disso, em outro lugar somos considerados (todos nós) por natureza
passíveis da ira de Deus (Ef.2:3) e concebidos em pecado (Sl.51:5). Tudo isso,
só pode ser sanado pela regeneração, por isso, “as crianças antes de serem salvas são regeneradas pelo Senhor e algumas
estão plenamente salvas nesta idade”. Essa percepção tem grande importância
diante da resposta para o destino das crianças que morrem na infância, pois não
têm acesso a dispensação ordinária que envolve a pregação e o chamado. Além
disso, o pedobatismo descreve um futuro arrependimento e fé pela secreta
operação do Espírito Santo. Entretanto, talvez, tenhamos alguma dificuldade com
este aspecto futurista, todavia, Calvino nos explica que “Cristo se santificou
desde a primeira infância, para que a seus eleitos, de qualquer idade os
santificasse a si mesmo [...] tenhamos por certo, que o Senhor não leva desta
vida a nenhum de Seus eleitos sem que primeiro seja santificado e regenerado
por Seu Espírito” (CALVINO. As Institutas,
2006, p.326,327).
Esta ligação entre o pedobatismo e a eleição torna-se
pedagógica no entendimento da eficácia exposta anteriormente. A premissa neste
viés, nos leva a pensar numa trilogia que envolve eleição, regeneração e
batismo. Assim, passamos a entender que o continuísmo na vida cristã dos
batizados depende sempre do primeiro elemento. Evocamos a fala do Exegeta da
Reforma, comentando Ef.1:4: “...a eterna eleição gratuita é o fundamento e
causa primeira, tanto de nosso chamamento como de todos os benefícios que de
Deus recebemos” (CALVINO. Efésios,
1998, p.24). Portanto, “as crianças que crescerem, sendo instruídas na verdade
do batismo, mais se inflamarão ao zelo de renovação de cujo penhor aprenderão
que foram dotados desde a primeira infância, para que exercitassem em todo o decurso
da vida” (CALVINO. As Institutas,
2006, p.326,327). Por estas questões Calvino nos exorta a pensarmos no batismo
infantil como “comprovação da graça de Deus e por isso, devemos rejeitar a
ingratidão ao negligenciarmos esta prática”.
Este caminho investigativo nos levou a certas
conclusões sobre a eclesiologia de Calvino, reduzida ao Pedobatismo. Em
primeiro lugar, o Reformador pensa a relação do AT com NT de forma continuísta
(diferentemente dos dispensacionalistas ou anabatistas). Por esta razão, as
promessas do AT expostas numa relação pactual têm efeito de cumprimento no NT. Em
segundo lugar, ele diferencia a ação ordinária que envolve a pregação e chamado
aos adultos das crianças. Por esta razão, alguns textos se tornam totalmente indevidos
em seu uso, pois não respondem ao destino dos infantes que morrem na infância.
Em terceiro lugar, o papel da eleição na efetuação do pedobatismo controla sua
total eficácia. As comunicações doadas no momento da aplicação do sacramento
dependem primariamente do ato eletivo de Deus. Em suma, não podemos negar a
complexidade desta doutrina, talvez porque sua defesa exija alguns elementos
pedagógicos mais complexos. Entretanto, ainda assim, não temos razões, para
descartá-la de forma nenhuma.
[1]
Três aspectos da Teologia: “é ensinada por Deus,
ensina a Deus e conduz a Deus” (Tomás de Aquino).
[2]
Bruce Waltke afirma sobre Gn.17: “A circuncisão, o antigo sinal de iniciação na
comunidade pactual, é substituída por um novo sinal, o batismo. Este rito
simboliza que o santo é “circuncidado, no despojar da natureza pecaminosa, não
com uma circuncisão feita pelas mãos dos homens, mas com a circuncisão feita
por Cristo” (Cl 2.11). Ela também simboliza que eles vivem não naturalmente,
mas sobrenaturalmente, pela fé: ‘tendo sido sepultados com ele no batismo e
ressuscitados com ele através de [sua] fé no poder de Deus, que o ressuscitou
dentre os mortos’ (Cl 2.12). O batismo é o símbolo da inclusão na igreja de
Cristo, a nova expressão do povo pactual de Deus, e o símbolo da lavagem do
pecado (Rm 6.1-14; 11.16; 1Co 7.14; Cl 2.11, 12; 1Pe 3.20). No ritual do
batismo, Deus continua a usar a instituição da família (ver Gn 7.1; At 16.31).
Visto que no corpo de Cristo não há macho nem fêmea, todos podem vir: macho,
fêmea, pai e filho (Lc 18.15-17; Gl 3.26-29; Cl 2.11, 12; cf. Lc 1.59; 2.21; Fp
3.5). Entretanto, uma vez mais a comunidade deve guardar-se contra o perigo de
participar de um rito de iniciação sem viver a vida da nova aliança de Deus”.
WALTKE. Gênesis. São Paulo: cultura
cristã, 2003, p.323.
[3]
Spencer
também afirma: “essa era uma fórmula que compreendia todos os benefícios salvíficos;
uma clara indicação do caráter espiritual da aliança abraâmica (cf. caps. 26:24; 28:13; Hb.11:16) SPENCE-Jones, H. D. M.
(Hrsg.): The Pulpit Commentary: Genesis.
Bellingham,
WA : Logos Research Systems, Inc., 2004, p. 233. A Reformation Study Bible define
também esta questão: A natureza unilateral e graciosa da aliança de Deus com
Abraão é ressaltada por seu caráter eterno. O pacto de Deus permanece para
sempre, porque Ele não muda e Jesus Cristo cumpriu tudo que era necessário (2Co
1:20; Ef 2:12, 13). Embora exista uma dimensão legal para o pacto, o
relacionamento da aliança de Deus com o Seu povo é, em primeiro lugar, uma
comunhão divino-humana (Êxodo 6: 7; Dt 29:13). Deus graciosamente habita com o
Seu povo, e eles agradecem em fé, amor e obediência. WHITLOCK, Luder G; SPROUL, R.
C; WALTKE, Bruce K; SILVA, Moisš: Reformation Study Bible, the : Bringing the Light of the Reformation
to Scripture: New King James Version. Nashville : T. Nelson, 1995, S. Gn
17:7.
[4] Calvino
comenta relação do AT com NT da seguinte
forma: “poderá ser dito então: não existe nenhuma diferença entre o Antigo e o
Novo Testamento? E o que se fará com tantas
passagens da Escritura em que eles são colocados como coisas muito
diversas entre si? Eu, de fato, assumo as diferenças que são lembradas na
Escritura, mas de modo que absolutamente não retirem aquela unidade já
constituída, tal como se verá quando delas tratarmos pela ordem. Ora, elas são
(o quanto me é lícito advertir e possível lembrar) principalmente quatro. A
primeira diferença é que o Senhor — ainda que também quisesse outrora que a
mente de seu povo espreitasse a herança celeste e que a alma estivesse a ela
atenta — exibia a vida celeste, para que fosse contemplada e de certo modo
provada pelos benefícios terrenos, pelo que seu povo seria mais bem alimentado
na esperança. Outra diferença entre o Antigo e o Novo Testamento ê estabelecida
pelas figuras, visto que, estando ausente a verdade, aquele mostrava, em vez do
objeto, apenas a imagem e a sombra, enquanto este exibe a verdade presente e o
próprio objeto. Passo à terceira diferença, que é tomada de Jeremias, cujas
palavras são: “Eis que os dias virão, diz o Senhor, e farei uma aliança nova
com a casa de Israel e com a casa de Judá, não segundo o pacto que estabeleci
com vossos Pais no dia em que os tomei pela mão e os tirei da terra do Egito,
pacto que arruinaram, ainda que Eu reinasse sobre eles, mas este será o pacto
que farei com a casa de Israel: porei a minha Lei em suas vísceras,
inscrevê-la-ei em seus corações e serei propício para com a iniquidade deles. E
não ensinará ninguém a seu próximo ou a seu irmão: todos me conhecerão, do
menor ao maior” (Jr.31:31). A quarta diferença surge da terceira. Com efeito, o
Antigo Testamento chama a Escritura de servidão, porque gerasse nas almas o
temor; o Novo Testamento, de liberdade, dado erigir as almas na confiança e
segurança. Assim disse Paulo: “Não recebestes novamente o Espírito de servidão
para o temor, mas o Espírito de adoção, pelo qual clamamos Aba, Pai!’” (Rm 8:
15). A quinta diferença que pode ser acrescentada consiste em que o Senhor, até
o advento de Cristo, separou um povo no qual estaria contida a aliança da
graça”. CALVINO João. A Instituição da
Religião Cristã. São Paulo: Unesp, 2007, pp.427-437.
[5] Herman Bavinck especificamente sobre At.16:15 (e
outras passagens) afirma: “Isso não prova, de fato que o batismo infantil já
era ministrado pelos apóstolos, mas o contrário também não pode ser inferido do
silêncio”. BAVINCK Herman. Dogmática
reformada, Vo.4, p.535. O verbo “βαπτίζω”
(baptízo – eu batizo), juntamente com
“οἶκος” (oikos – casa), estabelece uma conexão esclarecedora (At.16:15,
31,34; 18:8). Nesse
momento então, se faz necessário conjugar o níveis macro e micro com suas
delimitações. Em At.16:15 temos um excelente exemplo desta dinâmica.
Anteriormente foi destacado a questão pactual com “a casa de Israel”, a igreja
do AT (promessa) numa transição para a igreja do NT, o “Israel de Deus”
(cumprimento). Assim, essencialmente o viés de amplitude está em voga
(descontinuísmo negado), pois “βαπτίζω”
está em subserviência ao “οἶκος”. Nesta leitura pactual o batismo é para toda a família. Isso funciona numa
progressividade definida, porque “o Senhor abriu o coração de Lídia, para
entender o evangelho” (At.16:14) e logo depois “ela foi batizada e toda a sua
casa”. Assim, a própria descrição dirigida a família inteira (At.16:15,34;
18:8; 1Co.1:16) parece não focar a necessidade da presença de infantes, mas que
deveriam ser batizados. Além deste considerando, Swift explica que um
manuscrito sério do NT, o qual se supõe ser a mais antiga versão do mundo,
relatando o batismo de Lídia “e sua família” e o carcereiro e “sua família”
[...] traz: “Lídia e seus filhos” e o carcereiro e “seus filhos” foram
batizados. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/149807986/Batismo-Por-Aspersao-e-de-Criancas-SWIFT.
Acesso em 28/08 as 05:30.

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