terça-feira, 19 de maio de 2020




1Tm.2:4 (“Deus deseja que todos homens sejam salvos”) visto como conteúdo da pregação do evangelho.

A ideia aqui, “é simplesmente dizer que nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídos da salvação, visto que Deus quer oferecer o evangelho a todos sem exceção” (Calvino. Pastorais, p.57).

           Neste ensaio trabalharemos a afirmativa de 1Tm.2:4 (“Deus deseja que todos os homens sejam salvos”), exegeticamente, investigando assim, seu significado. Não ignoramos a complexidade deste texto e sua pluralidade de interpretações de conotações antitéticas. Alguns estudiosos corroborarão com suas impressões, para cumprirmos o propósito destacado. A defesa deste ensaio entende 1Tm.2:4 como conteúdo da pregação do evangelho, a partir de desdobramentos distintos.   
           A abundância de usos do verbo σῴζω (lê-se: sózo“eu salvo”) no NT é definida por sua estatística (aparece 106 vezes). Entretanto, ao fazermos o recorte para o corpus paulinus, suas aparições ocorrem vinte e nove vezes, proporcionando um desenho argumentativo, fundamentado numa coesão temática e lexical. Comprovamos isso, ao observamos o uso deste σῴζω  (sózo) em: Romanos (5:9,10; 8:24; 9:27; 10:9,13; 11:26), 1 Coríntios (1:18; 3:15; 5:5; 9:22; 10:33; 15:2), 2Coríntios (2:15), Efésios (2:5,8), 1Tessalonicenses(2:16), 2Tessalonicenses (2:10),1Timóteo, 2Timóteo e Tito (3:5). Estas aparições trazem certas consonâncias de viés conclusivo1) a preeminência da voz passiva em quase todos os versos, 2) os devidos sujeitos em foco que são Deus e Cristo, os doadores da salvação, 3) as construções que não funcionam como probabilidades, mas certezas soteriológicas4) o conteúdo da pregação evangelical.
           A última alternativa citada, será a forma, como olharemos para 1Tm.2:4. Essa proposta de interpretação (ou leitura) funciona dentro de um parecer textual e contextual. Desta forma, quando Paulo afirma: “... ὃς πάντας ἀνθρώπους θέλει σωθῆναι (hòs pántas antrópus thélei sothênai = “que (Deus) deseja [que] todos homens sejam salvos”)de que forma junto ao seu contexto isso pode ser definido? Inicialmente, é possível detectar que 2:4, funciona como desdobramento de 2:1 quanto a sua argumentação inicial, finalizada em 2:8. Neste caso, observamos que  πᾶς (pâs “todo”aparece em quase todos os versos, delimitados de 2:1-8 (nos vs.5 e 7 não aparece): 

todos (πᾶς, lê-se: pâs) os homens (2:1), 
todos (πᾶς) os que se acham investidos de autoridade (2:2), 
todos (πᾶς)os homens (2:4), o qual se deu em resgate por 
todos (πᾶς) (2:6).  

Assim, não é saudável hermeneuticamente se falando, quebrar esta continuidade, de maneira que 2:4, seja pensado num isolacionismo exegético. Por isso, fundamentar este πᾶς (pâs “todo”numa conotação lexical, de maneira que tenha outro significado, senão aquele definido pelo contexto, não parece ser a forma mais correta de lermos o texto.  Para entendermos esta questão com mais clareza, pensemos a estrutura da passagem com a delimitação proposta, a qual começa e termina com oração (inclusão) da seguinte forma:
A. Oração feita para todos os indivíduos. 2:1
B. 2.2-7. A transição da oração para a salvação testemunhada na pregação, concluída em seu efeito na prática (da oração) realizada “em todo lugar”.
A. Oração feita por todos os indivíduos (sem a discriminação judaizante). 2.8
           Portanto, começamos a definir a percepção do autor em sua delimitação temática, o que nos leva ao princípio teológico em voga. A unanimidade neste caso não é uma realidade, pois na percepção de Mounce “a oração é o contexto, mas a salvação é o conteúdo”.[1] Entretanto, noutra dinâmica Knight trata a oração feita por todos os tipos de indivíduos como base do apelo de Paulo (2:1). Ela é fundamentada em 2:3 onde a agradabilidade do Senhor destacada e ligada a salvação como paralelo quanto a extensão que envolve “todo tipo de pessoa”. Desta forma, como todas essas coisas são verdadeiras (2:1-7), as pessoas em todos os lugares devem orar piedosamente, de acordo com o evangelho (v.8).[2] Portanto, numa paráfrase a ideia pode ser a seguinte: “A oração feita pela igreja por todos os homens é agradável ao Senhor (2:1-3), de maneira que, a expansão estabelecida pela pregação do evangelho (2:4-7), levará os homens a orarem em todo lugar” (2:8).
           Depois destas análises contextuais observaremos algumas possibilidades de significado de 2:4. Em primeiro lugar, esse “desejo de Deus” pode expressar a negação a exclusividade judaica quanto a salvação.[3] Em segundo lugar, pode mostrar a primeira das três razões para a oração da igreja.[4] Em terceiro lugar, os apontamentos de Marshall abrangentes em algumas direções, explicam “todos” de algumas formas: 1) “todas as pessoas sem exceção” (universalismo) ou a extensão do “desejo de Deus” como uma realidade mesmo que as pessoas não respondam positivamente ao evangelho. 2) “todas as pessoas, exceto os piores pecadores”. Esta modificação da visão baseia-se no tipo de qualificação expressa no judaísmo rabínico. 3) “Todos os eleitos, isto é, as pessoas que foram predestinadas por Deus para serem salvos”. 4) “Todos os tipos de pessoas, não necessariamente incluindo todos os indivíduos” [...] Essa interpretação (como a anterior) é seguida por estudiosos que encontram uma doutrina da eleição particular subjacente ao NT.[5] Depois de apontar essas possibilidades de interpretação, qual pode ser considerada mais coerente com o texto?
           Os postulados que envolvem a salvação presente nos vs.4-6 culminam na expressão: ... τὸ μαρτύριον καιροῖς ἰδίοις (tò martýrion kaipoîs idíos “o testemunho a seu tempo”). Essa virada argumentativa destaca o desdobramento missionário das premissas anteriores. Além disso, esta constatação torna-se mais clara com os destaques do v.7, pois a trilogia usada expõe a atividade em voga, Paulo é: “pregador” (κῆρυξ - kêryks), “apóstolo” (ἀπόστολος - apóstolos) e “mestre (διδάσκαλος - didáskalos) dos gentios”, o que mostra a negação a redução judaica. Portanto, a partir do v.6b a ação de pregação do evangelho que tem como conteúdo os vs.4-6a, demonstra a uniformidade destacada pelo autor. Como nos explica Calvino a ideia aqui, “é simplesmente dizer que nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídos da salvação, visto que Deus quer oferecer o evangelho a todos sem exceção.[6] A síntese afirmada por Marshall e Towner também nos ajuda, pois entendem que o contexto mostra a inclusão dos gentios ao lado dos judeus na salvação, o principal problema aqui, desta forma, a melhor solução é adotar com o reconhecimento de que o ponto de ênfase quanto ao desejo de Deus de salvar todas as pessoas é indicar que seu desejo inclui gentios bem como os judeus. A ênfase é, portanto, a acessibilidade universal à salvação de Deus com base em uma fé aberta a todos e um evangelho pregado a todos.[7]
            Depois desta sintética investigação exegética, alguns pontos podem ser visto como conclusivos. Em primeiro lugar, detectamos ser possível entender a salvação de 2:4 em subserviência a ação missionária e oração. Em segundo lugar, a correlação em foco vista contextualmente, mostra “a oração feita pela igreja por todos os homens como algo agradável ao Senhor (2:1-3), de maneira que, a expansão estabelecida pela pregação do evangelho (2:4-7), levará os homens a orarem em todo lugar” (2:8).




[1] MOUNCE, William D.: Word Biblical Commentary: Pastoral Epistles. Dallas: Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 46), p. 76.
[2] KNIGHT, George W.: The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids, Mich.; Carlisle, England: W.B. Eerdmans; Paternoster Press, 1992, p. 113.
[3] Ibid. 119.
[4] MOUNCE, William D.: Word Biblical Commentary: Pastoral Epistles. Dallas, p. 84.
[5] MARSHALL, I. Howard; TOWNER, Philip H.: A Critical and Exegetical Commentary on the Pastoral Epistles. London; New York: T& T Clark International, 2004, p. 427.
[6] CALVINO João. Pastorais. São Paulo: Editora Fiel, 2009, p.57.
[7] MARSHALL, I. Howard;  TOWNER, Philip H.: A Critical and Exegetical Commentary on the Pastoral Epistles, p. 427.

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