Apontamentos Escatológicos de João Calvino
expostos no trato para com a “Ressurreição Final”.
Este ensaio tem pretensões
limitadas, pois seu foco é trazer uma síntese sobre o trato de Calvino (1509-1564)
sobre a ressurreição final. Esta questão perpassa o séc.XVI, pois os substratos
conclusivos desenvolvidos, a luz das Escrituras, mostram os aspectos
supraculturais em voga. Assim, podemos conjugar as máximas expostas pelo
reformador como extremamente relevantes para nosso tempo. Antes de entrar no
ensaio exporemos certos reconhecimentos do trabalho de Calvino e um pequeno
esboço das Institutas.
A
importância de João Calvino para a teologia pode ser constatada também pelo que
se reconhece, a seu respeito. Anglada o vê como: “o maior intérprete da
reforma e um dos maiores de todas as épocas, quem melhor praticou a exegese
gramatical e histórica” (ANGLADA. Introdução a Hermenêutica
Reformada, 2006, p.87). De outro lado MacGrath expressa sua influência: “o
Reformador provou-se uma figura de extrema influência na história da Europa,
mudando a perspectiva de indivíduos e instituições, no início da era moderna, a
medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica”
(MacGrath. A Vida de João Calvino, 2004, p.11). Ainda assim, precisamos conjugar
estas comprovações com a primazia dada pelo Exegeta da Reforma as Escrituras: “...
o Senhor quis somente que a Escritura conservasse a perpétua memória de
sua verdade, não tendo outro direito de que os fieis reconheçam sua plena
autoridade, senão porque fui dos céus, ouvindo-se nela a voz viva do próprio
Deus” (A Instituição da Religião Cristã, 2007, p.71). Por isso,
“deve-se ressaltar que João Calvino é um teólogo bíblico. A primeira e mais
relevante fonte de suas ideias religiosas era a Bíblia” (McGrath. A Vida de
João Calvino, 2004, p.177).
Outra questão a ser pensada,
introdutoriamente, é a estrutura do pensamento de Calvino. Para tal, numa
síntese, podemos observar numa os temas pensados nas Institutas (que neste viés
tem prioridade) da seguinte forma:
·
Livro I trata doutrina de
Deus, especialmente das ideias da criação e providência.
·
Livro II trata dos fundamentos
da doutrina da redenção, incluindo uma discussão sobre o pecado e uma extensa
análise da pessoa e obra do redentor, Jesus Cristo.
·
Livro III trata
do uso da redenção em relação ao indivíduo, incluindo a análise das doutrinas
da fé, da regeneração, da justificação e da predestinação.
·
Livro IV trata da vida da
comunidade redimida, considerando várias questões de direta relevância para a
Igreja – seu ministério, seus sacramentos e sua relação com o estado (McGrath. A
Vida de João Calvino, 2004, pp.177,178).
O trato deste ensaio está reduzido ao livro
III cap.XXV – “Da Ressurreição Final”. Logo depois da análise da predestinação,
estruturalmente, o Reformador trabalha alguns pontos sobre a temática descrita.
Os apontamentos escatológicos, em voga, são vistos, primeiramente num
fundamento relacional (ressurreição/eleição/santificação). Assim, o trato para
com a ressurreição final, funciona como algo seguro para os eleitos (a
luz de alguns textos: Jo.5:24; Ef.2:6,19). Entretanto, isso não significa um
relaxamento ou descompromisso, pois existe outro lado da esperança, o qual
mostra nossa real condição no “cárcere da carne” (Tt.2:12,13). Desta forma, é
imperativo que nossas mentes estejam lançadas no céu (1Pe.1:8,9), rejeitando os
elementos impedidores, provenientes do terreno, pois “nosso coração está, onde
está [rá] nosso tesouro” (Mt.6:21). Isto serve de explicação para a rejeição a
sedução dos bens presentes e as violentas tentações e função da vida celeste.
Desta forma, o Reformador chancela a escatologia como a grande aspiração do
nosso ser e afirma a trilogia (ressurreição/eleição/santificação) como
elemento fundante.
Os filósofos disputaram quanto
ao supremo fim das boas coisas, entretanto, ninguém senão “Platão reconheceu
esta questão em voga, explicada pela união do homem com Deus” (As
Institutas, Vol.3, p.447). Ainda assim, pode-se questionar a natureza e
vínculo desta união. Entretanto, por um paradigma revelacional (não
filosófico) nos foi concedido, na condição de peregrinos nesta terra, o conhecimento
da felicidade única e perfeita, o que acende em nossos corações até que sejamos
saciados com o pleno usufruto. Por isso, o esforço para atingir o alvo funciona
como algo fixo para os fieis (Fp.3:8). Finalmente, se faz necessário
relacionar isto a redenção (ou “nossa redenção” Rm.8:23), completada
holisticamente em suas partes, a qual nos susterá em meio as angústias e
provações até a consumação (Hb.10:12; 9:28). Assim, o aspecto revelacional num
papel epistemológico real, eficaz e com seus específicos frutos. Isso em
ligação com a redenção corroborando como substrato seguro.
Depois destes postulados
escatológicos, a ressurreição do corpo tem importância única, por
isso, a negação disto, tornará o evangelho sem o seu devido efeito
(1Co.15:13,14) e cairia por terra sua autoridade, não apenas numa parte, mas
em seu todo, a que abarca não só a adoção, mas também a efetuação de nossa
salvação. O efeito desta consciência (causa) deve ser a perseverança Entretanto,
isto não existe numa isenção, quanto a problematização desta questão, pois “é
coisa bem difícil crer que os corpos consumidos pela podridão ressuscitarão no fim
dos tempos” (As Institutas, Vol.3, p.448). Mesmo com os filósofos
vistos como defensores da imortalidade da alma, os quais negavam a do corpo. Assim,
este obstáculo deve ser superado pela fé ligada a Escritura, a partir de dois
elementos: a semelhança com Cristo (começou com a Cabeça se cumprirá com todos os
membros) e a onipotência de Deus.
A máxima que nega esta ressurreição
comumente entende a morte como fim de todas as coisas e a extinção do homem. Mas,
para que não houvesse um abono a essa crassa ignorância, até para os incrédulos
houve uma representação da ressurreição. Nesse viés, o costume de sepultar
mortos ilustra isto. Mesmo assim, Satanás trabalhou, objetivando a anulação dos
sentidos, com efeito, o corpo e a ideia de ressurreição foram sepultadas. Esta
subversão se deu, por meio pela percepção quiliasta (atualmente chamada de
“prémilenismo”), a qual limita o reinado de Cristo a mil anos (“bem aventurança
temporária”). O outro elemento fundante desta subversão se deu na negação das
penas eternas, pois a rejeição a reprovação funciona como uma constante nessa
dinâmica heterodoxa.
Nesta
dinâmica de viés apologético mais dois desvarios são apontados, introduzido por
“homens curiosos”, os quais afirmam: “as almas irão ressuscitar com os corpos,
desta forma a morte alcançou o homem holisticamente”; de outro lado: “os
espíritos são imortais, mas serão revestidos de novos corpos, negando a
ressurreição da carne” (As Institutas, Vol.3, p.448). A resposta ao
primeiro destes antagonismos está fundamentada na teologia da criação, onde “o
sopro de Deus” funciona como marca da imortalidade. Desta forma, a distinção do
restante desta criação, pois o corpo é visto como uma habitação, na qual
migramos depois que morremos (2Pe.1:14; 2Co.5:1,6,8). Mesmo com estas premissas
textuais, ainda assim, entender, o lugar das almas neste estado e o que
desfrutam, de forma exaustiva se constituí num erro. Isto está ligado a
percepção de alguns quanto ao aparecimento de outros corpos para as almas (na
escatologia futura), algo visto em conexão com o maniqueísmo (impossibilidade
da ressurreição da carne suja e imunda). Entretanto, a antítese quanto a
poluição na dualidade carne/espírito é algo não comprovado pela Escritura
(2Co.7:1). Portanto, não há na Escritura um artigo de fé mais claro e nítido do
que este: ressuscitaremos com a mesma carne que possuímos (1Co.15:53; Dn.12:2).
O último ponto a se destacado é associação fundante entre nossa ressurreição
com a de Cristo (1Co.15:20-22; 2Co.4:10,11).
Outro oponente em relação a
ressurreição aparece, agora, fundamentado na impossibilidade de tal ocorrido,
assim, “a incredulidade é a mãe desta opinião”. Entretanto, “o Espírito de Deus
a cada passo na Escritura nos exorta a esperar a ressurreição de nossa carne”
(Cl.2:12; Rm.6:13,19). Por esta razão, nenhuma dúvida se manifestou entre os
santos, de maneira que percebemos nos patriarcas (santos), o cerimonial
externo, o rito de sepultar, o qual apontava para uma nova vida preparada para
os corpos enterrados (símbolo da imortalidade). Isto lhes serviu de ajuda
preciosa a fé na ressurreição (Gn.23:1-20).
Diante destas tratativas, se faz necessário pensar no modo da
ressurreição (“mistério”). Assim, o reformador usa dois termos que funcionam
como diretrizes nesta questão: “substância e qualidade”. O primeiro
indica que “haveremos de ressuscitar na mesma carne que possuímos”, mas pelo
segundo “será outra” (As Institutas, Vol.3, p.459). Portanto, para que
sejamos ressuscitados, o corpo corruptível não perecerá, nem se desvanecerá,
mas, deposta a corrupção, se revestirá de incorrupção (1Co.15:53,54). Tudo isso
está fundamentado no poder inefável de Deus. Essa constatação valerá também aos
que estiverem vivos na segunda vinda de Cristo, pois experimentarão certo tipo
de morte (Hb.9:27), para serem ressuscitados.
Ainda assim, a questão que
envolve a extensão desta ressurreição torna-se uma problemática, por causa de
seu elemento fundante: a obra de Cristo. Nesse sentido, de que
forma esta ressurreição alcançará os ímpios e malditos de Deus? Entretanto, se
faz necessário observar neste viés a dualidade vida/juízo (Jo.5:29), desta
forma, entendemos: “Cristo virá, para que cabritos e cordeiros sejam separados”
(Mt.25:32). Mesmo com distinções quanto a finalidade, existe um elemento comum
(ressurreição da vida e do juízo), pois “Deus fez nascer o sol sobre os justos
e injustos” (Mt.5:45). Diante disto, o critério de diferenciação funciona, a
partir da eleição, pois o Senhor partilhará com eles, Seu poder e Sua justiça. Em
antítese a isto, os réprobos experimentarão os tormentos, isto é, descritos por
certas figuras presentes nas Escrituras (Mt.3:12; 8:12; 22:13; Mc.9:43;
Is.66:24). Por esta razão, entendemos quão calamitoso torna-se viver alienado
em toda a associação com Deus.
Algumas máximas teológicas
foram vistas pelo pensamento de Calvino. Os apontamentos escatológicos em voga
passam pela relação da ressurreição com a eleição/santificação. De maneira que
de forma fundante, a eleição produz segurança quanto a ressurreição, e de forma
subsequente, chancela o compromisso vivencial com a vontade de Deus. Além
disso, o papel do paradigma revelacional traz o devido conhecimento sobre a
questão em voga (não alcançado filosoficamente). Finalmente, o papel
escatológico principal tem como substrato a ressurreição do corpo com seus
desdobramentos. De maneira, que estes considerandos formatam as linhas
elucidadoras sobre esta questão.

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