domingo, 7 de junho de 2020



Apontamentos Escatológicos de João Calvino expostos no trato para com a “Ressurreição Final”.



           Este ensaio tem pretensões limitadas, pois seu foco é trazer uma síntese sobre o trato de Calvino (1509-1564) sobre a ressurreição final. Esta questão perpassa o séc.XVI, pois os substratos conclusivos desenvolvidos, a luz das Escrituras, mostram os aspectos supraculturais em voga. Assim, podemos conjugar as máximas expostas pelo reformador como extremamente relevantes para nosso tempo. Antes de entrar no ensaio exporemos certos reconhecimentos do trabalho de Calvino e um pequeno esboço das Institutas.  
          A importância de João Calvino para a teologia pode ser constatada também pelo que se reconhece, a seu respeito. Anglada o vê como: o maior intérprete da reforma e um dos maiores de todas as épocas, quem melhor praticou a exegese gramatical e histórica” (ANGLADA. Introdução a Hermenêutica Reformada, 2006, p.87). De outro lado MacGrath expressa sua influência: o Reformador provou-se uma figura de extrema influência na história da Europa, mudando a perspectiva de indivíduos e instituições, no início da era moderna, a medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica” (MacGrath. A Vida de João Calvino, 2004, p.11). Ainda assim, precisamos conjugar estas comprovações com a primazia dada pelo Exegeta da Reforma as Escrituras: “... o Senhor quis somente que a Escritura conservasse a perpétua memória de sua verdade, não tendo outro direito de que os fieis reconheçam sua plena autoridade, senão porque fui dos céus, ouvindo-se nela a voz viva do próprio Deus” (A Instituição da Religião Cristã, 2007, p.71). Por isso, “deve-se ressaltar que João Calvino é um teólogo bíblico. A primeira e mais relevante fonte de suas ideias religiosas era a Bíblia” (McGrath. A Vida de João Calvino, 2004, p.177).      
        Outra questão a ser pensada, introdutoriamente, é a estrutura do pensamento de Calvino. Para tal, numa síntese, podemos observar numa os temas pensados nas Institutas (que neste viés tem prioridade) da seguinte forma:
·         Livro I trata doutrina de Deus, especialmente das ideias da criação e providência.
·         Livro II trata dos fundamentos da doutrina da redenção, incluindo uma discussão sobre o pecado e uma extensa análise da pessoa e obra do redentor, Jesus Cristo.
·         Livro III trata do uso da redenção em relação ao indivíduo, incluindo a análise das doutrinas da fé, da regeneração, da justificação e da predestinação.
·         Livro IV trata da vida da comunidade redimida, considerando várias questões de direta relevância para a Igreja – seu ministério, seus sacramentos e sua relação com o estado (McGrath. A Vida de João Calvino, 2004, pp.177,178).

  O trato deste ensaio está reduzido ao livro III cap.XXV – “Da Ressurreição Final”. Logo depois da análise da predestinação, estruturalmente, o Reformador trabalha alguns pontos sobre a temática descrita. Os apontamentos escatológicos, em voga, são vistos, primeiramente num fundamento relacional (ressurreição/eleição/santificação). Assim, o trato para com a ressurreição final, funciona como algo seguro para os eleitos (a luz de alguns textos: Jo.5:24; Ef.2:6,19). Entretanto, isso não significa um relaxamento ou descompromisso, pois existe outro lado da esperança, o qual mostra nossa real condição no “cárcere da carne” (Tt.2:12,13). Desta forma, é imperativo que nossas mentes estejam lançadas no céu (1Pe.1:8,9), rejeitando os elementos impedidores, provenientes do terreno, pois “nosso coração está, onde está [rá] nosso tesouro” (Mt.6:21). Isto serve de explicação para a rejeição a sedução dos bens presentes e as violentas tentações e função da vida celeste. Desta forma, o Reformador chancela a escatologia como a grande aspiração do nosso ser e afirma a trilogia (ressurreição/eleição/santificação) como elemento fundante.
Os filósofos disputaram quanto ao supremo fim das boas coisas, entretanto, ninguém senão “Platão reconheceu esta questão em voga, explicada pela união do homem com Deus” (As Institutas, Vol.3, p.447). Ainda assim, pode-se questionar a natureza e vínculo desta união. Entretanto, por um paradigma revelacional (não filosófico) nos foi concedido, na condição de peregrinos nesta terra, o conhecimento da felicidade única e perfeita, o que acende em nossos corações até que sejamos saciados com o pleno usufruto. Por isso, o esforço para atingir o alvo funciona como algo fixo para os fieis (Fp.3:8). Finalmente, se faz necessário relacionar isto a redenção (ou “nossa redenção” Rm.8:23), completada holisticamente em suas partes, a qual nos susterá em meio as angústias e provações até a consumação (Hb.10:12; 9:28). Assim, o aspecto revelacional num papel epistemológico real, eficaz e com seus específicos frutos. Isso em ligação com a redenção corroborando como substrato seguro.     
         Depois destes postulados escatológicos, a ressurreição do corpo tem importância única, por isso, a negação disto, tornará o evangelho sem o seu devido efeito (1Co.15:13,14) e cairia por terra sua autoridade, não apenas numa parte, mas em seu todo, a que abarca não só a adoção, mas também a efetuação de nossa salvação. O efeito desta consciência (causa) deve ser a perseverança Entretanto, isto não existe numa isenção, quanto a problematização desta questão, pois “é coisa bem difícil crer que os corpos consumidos pela podridão ressuscitarão no fim dos tempos” (As Institutas, Vol.3, p.448). Mesmo com os filósofos vistos como defensores da imortalidade da alma, os quais negavam a do corpo. Assim, este obstáculo deve ser superado pela fé ligada a Escritura, a partir de dois elementos: a semelhança com Cristo (começou com a Cabeça se cumprirá com todos os membros) e a onipotência de Deus.    
           A máxima que nega esta ressurreição comumente entende a morte como fim de todas as coisas e a extinção do homem. Mas, para que não houvesse um abono a essa crassa ignorância, até para os incrédulos houve uma representação da ressurreição. Nesse viés, o costume de sepultar mortos ilustra isto. Mesmo assim, Satanás trabalhou, objetivando a anulação dos sentidos, com efeito, o corpo e a ideia de ressurreição foram sepultadas. Esta subversão se deu, por meio pela percepção quiliasta (atualmente chamada de “prémilenismo”), a qual limita o reinado de Cristo a mil anos (“bem aventurança temporária”). O outro elemento fundante desta subversão se deu na negação das penas eternas, pois a rejeição a reprovação funciona como uma constante nessa dinâmica heterodoxa.
        Nesta dinâmica de viés apologético mais dois desvarios são apontados, introduzido por “homens curiosos”, os quais afirmam: “as almas irão ressuscitar com os corpos, desta forma a morte alcançou o homem holisticamente”; de outro lado: “os espíritos são imortais, mas serão revestidos de novos corpos, negando a ressurreição da carne” (As Institutas, Vol.3, p.448). A resposta ao primeiro destes antagonismos está fundamentada na teologia da criação, onde “o sopro de Deus” funciona como marca da imortalidade. Desta forma, a distinção do restante desta criação, pois o corpo é visto como uma habitação, na qual migramos depois que morremos (2Pe.1:14; 2Co.5:1,6,8). Mesmo com estas premissas textuais, ainda assim, entender, o lugar das almas neste estado e o que desfrutam, de forma exaustiva se constituí num erro. Isto está ligado a percepção de alguns quanto ao aparecimento de outros corpos para as almas (na escatologia futura), algo visto em conexão com o maniqueísmo (impossibilidade da ressurreição da carne suja e imunda). Entretanto, a antítese quanto a poluição na dualidade carne/espírito é algo não comprovado pela Escritura (2Co.7:1). Portanto, não há na Escritura um artigo de fé mais claro e nítido do que este: ressuscitaremos com a mesma carne que possuímos (1Co.15:53; Dn.12:2). O último ponto a se destacado é associação fundante entre nossa ressurreição com a de Cristo (1Co.15:20-22; 2Co.4:10,11).
Outro oponente em relação a ressurreição aparece, agora, fundamentado na impossibilidade de tal ocorrido, assim, “a incredulidade é a mãe desta opinião”. Entretanto, “o Espírito de Deus a cada passo na Escritura nos exorta a esperar a ressurreição de nossa carne” (Cl.2:12; Rm.6:13,19). Por esta razão, nenhuma dúvida se manifestou entre os santos, de maneira que percebemos nos patriarcas (santos), o cerimonial externo, o rito de sepultar, o qual apontava para uma nova vida preparada para os corpos enterrados (símbolo da imortalidade). Isto lhes serviu de ajuda preciosa a fé na ressurreição (Gn.23:1-20).    
       Diante destas tratativas, se faz necessário pensar no modo da ressurreição (“mistério”). Assim, o reformador usa dois termos que funcionam como diretrizes nesta questão: “substância e qualidade”. O primeiro indica que “haveremos de ressuscitar na mesma carne que possuímos”, mas pelo segundo “será outra” (As Institutas, Vol.3, p.459). Portanto, para que sejamos ressuscitados, o corpo corruptível não perecerá, nem se desvanecerá, mas, deposta a corrupção, se revestirá de incorrupção (1Co.15:53,54). Tudo isso está fundamentado no poder inefável de Deus. Essa constatação valerá também aos que estiverem vivos na segunda vinda de Cristo, pois experimentarão certo tipo de morte (Hb.9:27), para serem ressuscitados.
Ainda assim, a questão que envolve a extensão desta ressurreição torna-se uma problemática, por causa de seu elemento fundante: a obra de Cristo. Nesse sentido, de que forma esta ressurreição alcançará os ímpios e malditos de Deus? Entretanto, se faz necessário observar neste viés a dualidade vida/juízo (Jo.5:29), desta forma, entendemos: “Cristo virá, para que cabritos e cordeiros sejam separados” (Mt.25:32). Mesmo com distinções quanto a finalidade, existe um elemento comum (ressurreição da vida e do juízo), pois “Deus fez nascer o sol sobre os justos e injustos” (Mt.5:45). Diante disto, o critério de diferenciação funciona, a partir da eleição, pois o Senhor partilhará com eles, Seu poder e Sua justiça. Em antítese a isto, os réprobos experimentarão os tormentos, isto é, descritos por certas figuras presentes nas Escrituras (Mt.3:12; 8:12; 22:13; Mc.9:43; Is.66:24). Por esta razão, entendemos quão calamitoso torna-se viver alienado em toda a associação com Deus.
Algumas máximas teológicas foram vistas pelo pensamento de Calvino. Os apontamentos escatológicos em voga passam pela relação da ressurreição com a eleição/santificação. De maneira que de forma fundante, a eleição produz segurança quanto a ressurreição, e de forma subsequente, chancela o compromisso vivencial com a vontade de Deus. Além disso, o papel do paradigma revelacional traz o devido conhecimento sobre a questão em voga (não alcançado filosoficamente). Finalmente, o papel escatológico principal tem como substrato a ressurreição do corpo com seus desdobramentos. De maneira, que estes considerandos formatam as linhas elucidadoras sobre esta questão.                

  

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