terça-feira, 16 de junho de 2020



Algumas Reflexões sobre o Cântico dos Cânticos (Título, Gênero literário e modelo de interpretação)




Não há livro das Escrituras em que mais comentários tenham sido escritos e mais diversidades de opiniões sejam expressas do que este pequeno poema de oito capítulos (SPENCE. The Pulpit Commentary: Song of Solomon, 2004, p

“Cântico dos cânticos” é  um livro que não está, aparentemente, entre aqueles mais expostos. Em nosso contexto onde a divulgação de vídeos pela internet tem sido maciça não vemos com tanta constância exposições deste livro. Além disso, parece que o método alegórico tem imperado para a interpretação, de maneira que, outros modelos não são tão enfatizados (talvez nem conhecidos). Entretanto, o  cântico dos cânticos está presente no cânon, por isso, o definimos como Palavra de Deus. Devemos, então, olhar para este livro com profundo temor e zelo.     
Neste ensaio trabalharemos, introdutoriamente, algumas questões introdutórias sobre “o mais belo dos cânticos” (“Cântico dos Cânticos”). Basicamente, o título, o gênero literário e as formas de interpretação. Consideraremos também as questões atuais que envolvem tratos mais recentes, levando em conta nosso contexto evangelical brasileiro. Alguns estudiosos (Lasor, Garret, Osborne e outros), corroborarão com nossa pesquisa com suas importantes afirmativas. Neste ensaio defendemos a leitura/interpretação deste livro como cânticos ou poemas de amor.
 שִׁ֥יר הַשִּׁירִ֖ים אֲשֶׁ֥ר לִשְׁלֹמֹֽה׃  WTT    (lê-se: shyr hashyrym asher lishëlomoh)
LXX: ᾆσμα ᾀσμάτων ὅ ἐστιν τῷ Σαλωμων (lê-se: âsma asmátom ho estin tô Salomon)
Este título ganha contornos distintos pelas versões em português nas traduções disntintas: “cântico dos cânticos de Salomão” (ARA, NVI); “cântico de cânticos, que é de Salomão” (ARC, ACF); “este é o cântico dos cânticos de Salomão” (NVT); “o mais belo dos Cânticos de Salomão” (BJ). As distinções observadas nestas traduções têm alguns substratos distintos. Garret entende שִׁ֥יר הַשִּׁירִ֖ים  (lê-se: shyr hashyrym) como superlativo, por isso, a redação da BJ faz sentido. Entretanto, ele afirma que é possível também pensar nesta expressão como “cântico dos cânticos” (GARRETT. Word Biblical Commentary: Song of Songs/ Lamentations, p.124), isso legitima a leitura tanto pela ARA como pela NVI. A ARC e ACF parecem seguir a LXX. Alguns autores como . Ogden e Zogbo entendem que a ideia superlativa se encaixa melhor aqui. Em hebraico, essas construções são usadas para indicar o grau superlativo ou maior. Assim, em Dn 2.7 “o rei dos reis” significa “o maior rei”. No cântico, precisamos perguntar qual recurso está sendo destacado. Ao falar de uma música, focamos em sua beleza, elegância e estilo. Assim,  שִׁ֥יר הַשִּׁירִ֖ים  (lê-se: shyr hashyrym) significa: “A música mais bonita”, ou mais sublime” ou mais elegante”. Os tradutores podem querer dar o tema dessas músicas. Portanto, outros títulos apropriados podem ser “o poema de amor mais elegante” ou “grandes poemas de amor”. Não temos certeza de que essa "música" tenha sido cantada com acompanhamento musical, embora isso seja uma possibilidade. (cf. OGDEN . ZOGBO. A handbook on the Song of songs, p.14).
Existe ainda a fundamentação baseada na questão editorial, desta forma, Ct.1:1 foi colocado a posteriore no texto, como os versículos introdutórios da maioria dos livros do Antigo Testamento. A base deste argumento passa pelo uso do pronomeאֲשֶׁ֥ר  (lê-se: asher) no texto (cf. OGDEN. ZOGBO. A handbook on the Song of songs, p.15). A outra parte do título לִשְׁלֹמֹֽה (lê-se: lishëlomoh) traz a autoria salomônica tradicional, a qual baseia-se em referências ao rei ao longo do livro (1.5; 3.7,9,11), principalmente no título (1.1). “A Salomão”, hebraico לִשְׁלֹמֹֽה (lê-se: lishëlomoh, 1.1), pode indicar autoria. Mas há outras interpretações possíveis: “para” ou “ao estilo de Salomão” (LASOR. Introdução ao Antigo Testamento, p.558).
            Passemos, agora, para pensarmos as questões que envolvem a hermenêutica aplicada a este livro. Assim, inicialmente, questionamos qual é o gênero literário deste livro? Esta informação nos ajudará no trato exegético devido, fundamentado no pressuposto que envolve a necessidade da descoberta da intenção do Autor/autor. Alguns estudiosos afirmam que “o mais belo dos Cânticos de Salomão” (BJ) pode ser visto como poesia (cf. OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, pp.284-308). Esta constatação funciona como diretriz, para pensarmos alguns princípios conceituais que corroboram com a interpretação (cf. KÖSTENBERGER Andreas; PATTERSON D. Richard. Convite a Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica, pp.251-291). Neste viés, Grant Osborne identifica este livro numa categoria (ou tipo de poesia): “cânticos de amor” (OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, p.296). Portanto, para interpretarmos, devemos observar os padrões estróficos do poema (elemento primário da poesia hebraica). As traduções ajudam nesta perspectiva:
   Beija-me com os beijos de tua boca
   porque melhor é o teu amor do que o vinho. (1:2) 
   Suave é o aroma dos teus unguentos, 
   como unguento derramado é o teu nome; por isso, as donzelas te amam (1:3)
Depois disto, devemos pensar em todos padrões associados na passagem. Não podemos deixar de observar também a linguagem metafórica presente nos textos poéticos e seus contextos históricos. Esses são apenas alguns apontamentos, para que pensemos, hermeneuticamente, com bases definidas (reitero, ver em: OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, pp.284-308; KÖSTENBERGER Andreas; PATTERSON D. Richard. Convite a Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica, pp.251-291).
Finalmente, vejamos os modelos hermenêuticos usados na interpretação do “o mais belo dos Cânticos de Salomão” (BJ). Parece que no contexto evangelical brasileiro este livro tem sido visto, com certa preeminência, num viés alegórico. Na verdade, este é uma das formas, usada pelos judeus (“amor de Deus por Israel”) e pelos pais da igreja (“amor de Cristo pela igreja”).[1] Lasor faz uma crítica a esta percepção:  

São inegáveis os benefícios devocionais das interpretações alegóricas ou tipológicas de Cântico dos Cânticos. Questiona-se, porém, a intenção do autor. Qualquer leitura alegórica é perigosa porque as possibilidades de interpretação são ilimitadas. Estamos mais propensos a descobrir nossas idéias do que a discernir o propósito do autor. Além disso, o texto não fornece indícios de que Cântico dos Cânticos deva ser lido em outro sentido, que não o natural (LASOR. Introdução ao Antigo Testamento, p.563).

Além da alegórica existem ainda outras linhas usadas para a interpretação deste livro. Assim, alguns estudiosos modernos o viram como um midrash pós-exílico sobre o amor divino (semelhante a primeira opção). Além disso, uma visão bem difundida entende o livro com o um drama, em que dois personagens estão envolvidos, uma donzela e seu amado (a visão tradicional), ou, então, três personagens (em que o rei tenta separar a moça de seu amado). A maioria dos críticos atuais não distingue em seu texto qualquer plano estrutural, mas acredita que seja uma coleção de cânticos de amor seculares, talvez modelados em hinos de louvor. Finalmente, alguns acreditam que o livro usa imagens do amor para fins ritualísticos usados nas festas de Israel (OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, p.297). Garret apresenta também não uma interpretação “feminista” única do Cântico dos Cânticos, mas, certas tendências nas análises do Cântico (ver em: (GARRETT. Word Biblical Commentary: Song of Songs/ Lamentations, p.85).
Diante destas alternativas parece que ler “os mais belos dos cânticos de Salomão” como um cântico de amor funciona por alguns substratos. Em primeiro lugar, Osborne destaca que  a característica central é certa entre o amor dos dois. O poema tem apenas uma leve estrutura de enredo, e a relação de amor é tão forte no início quanto no fim. Portanto, independente de qual das três principais visões adotemos, o livro é, sem dúvida nenhuma, um cântico de amor, sendo excelente num curso sobre casamento” (OSBORNE. A Espiral Hermenêutica, p.297; cf. LASOR. Introdução ao Antigo Testamento, p.564). Assim, a noção de que estes são poemas de diferentes poetas reunidos aleatoriamente, sem nenhuma unidade temática, só pode ser substanciada se alguém puder apontar incompatibilidades estilísticas significativas na música (GARRETT. Word Biblical Commentary: Song of Songs/ Lamentations, p.28). Quase por padrão, somos levados à conclusão de que a música é exatamente o que parece ser, poemas sobre o amor entre um homem e uma mulher. Não temos idéia de que circunstâncias levaram à escrita deste poema. Esse pouco de especulação ociosa serve pelo menos para nos lembrar que o Cântico dos Cânticos poderia ser considerado de várias maneiras e que devemos ter cuidado ao reivindicar mais conhecimento sobre ele do que possuímos. Outras especulações sobre o pano de fundo do poema ganharão vida própria e obscurecerão a questão, em vez de esclarecê-la. Tudo o que temos é um retrato idealizado do amor, a própria música, e é isso que analisaremos (GARRETT. Word Biblical Commentary: Song of Songs/ Lamentations, p.91). Neste viés, pode-se sentir a mensagem de Cântico dos Cânticos no tom da poesia lírica. Embora, o movimento seja evidente, só se vê um esboço nebuloso da trama. O amor do casal é tão intenso no início como no fim; assim, a força do poema não está num clímax apoteótico (ainda que o ponto central seja a cena de consumação, 4.9-5.1), mas nas repetições criativas e delicadas dos temas de amor um amor almejado quando separados (e.g., 3.1-5) e plenamente desfrutado quando juntos (e.g., cap. 7), vivenciado no esplendor do palácio (e.g., 1.2-4) ou na serenidade do campo (7.11ss.) e reservado exclusivamente para o companheiro da aliança (2.16; 6.3; 7.10). É um amor tão forte quanto a morte, que a água não consegue extinguir nem uma enchente, afogar, um amor que se dá de bom grado, a qualquer custo (8.6s. LASOR. Introdução ao Antigo Testamento, p.564,565).
Este ensaio tem pretensões limitadas em seu alcance investigativo. Talvez, a grande questão aqui seja mostrar que o método alegórico não é o única via de interpretação para o cântico dos cânticos. Na verdade, como observamos ele compromete a intenção do autor e enfatiza subjetivismos. Por esta razão, na progressividade estabelecida entendemos o título e sua importância para o livro. Além disso, nos ocupamos com os desdobramentos que envolvem o gênero literário, mostrando a exegese por esse importante substrato. Finalmente, a defesa deste livro, afirmando sua identificação como cânticos (ou poemas) de amor.



[1] Para uma análise mais exaustiva ver em: SPENCE. The Pulpit Commentary: Song of Solomon, 2004, p.ix.

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