domingo, 10 de julho de 2022

 

Apocalipse e a literatura Apocalíptica:  Como ler o Livro das Revelações, a partir do Gênero Literário?

 


      A leitura do Apocalipse passa pela necessidade de compreensão dos seus tipos ou gêneros literários (“apocalíptico, profético e epistolar”). Tal perspectiva funciona pela aplicabilidade disto na investigação exegética. Entretanto, devemos ser cuidadosos na construção desta tarefa para  não absolutizarmos o leitor, vendo-o como elemento primário. Por isso, as categorias modernas, quando impostas à estrutura bíblica (por exemplo, a biografia ou a ficção atual usadas com o um mecanismo para se compreender os Evangelhos), são enganosas e até mesmo prejudiciais à compreensão real. No entanto, a aplicação de características antigas (e dos mecanismos modernos que completam e desvelam a abordagem histórica) é uma técnica hermenêutica necessária (OSBORNE. Espiral, p.228). Esta percepção controlará as percepções defendidas neste ensaio, de maneira que possamos entender o Apocalipse pela literatura apocalíptica.    

        Inicialmente, observemos alguns elementos introdutórios sobre o gênero literário numa resumida definição. Ele (gênero literário) é concebido, conforme pensamos, como um agrupamento de obras literárias baseadas, teoricamente, tanto na forma exterior (métrica ou estrutura específica) quanto, também, na forma interna (atitude, tom, propósito — grosso modo, assunto e público)”. Além disso, estes tipos literários funcionam em vários níveis: como uma unidade literária maior (o livro do Apocalipse pertence à literatura “apocalíptica”), na seção menor (Lc.15 apresenta uma série de parábolas dentro do Evangelho mais abrangente) ou na declaração individual (At.1.9-11 mostra uma imagem “apocalíptica” na declaração de Jesus). O propósito principal, aqui, é permitir ao leitor perceber as características dos gêneros antigos como uma chave para interpretar os textos bíblicos (OSBORNE. Espiral, p.228). As definições genéricas não devem ser restritas a nenhuma característica particular (como forma, conteúdo, etc.), mas devem ser construídas de forma suficientemente ampla para permitir que se conceba um gênero como um conjunto de (um número limitado de) fatores. O conjunto de traços mapeados pode incluir: intenção autoral, expectativa do público, unidades formais usadas, estrutura, uso de fontes, caracterizações, ação sequencial, motivos primários, cenário institucional, padrões retóricos e similares (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p.lxxii). Devemos ainda nos perguntar: como uma pessoa determina o gênero de um livro particular ou passagem? Neste caso, “a semântica da literatura bíblica”, isto é, as características específicas de um dado gênero da Escritura corroboram. A interpretação dos diferentes gêneros que compõem o texto das Escrituras já foi comparada ao ato de jogar diferentes tipos de jogos, como, por exemplo, beisebol, basquete e futebol. Seja qual for o jogo, para jogá-lo é preciso primeiro conhecer suas regras (KÖSTENBERGER Andreas; PATTERSON D. Richard. Convite a Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica, pp. 225, 256).

      Reduziremos, agora nossa análise para o Apocalipse. Em primeiro lugar, Osborne afirma (como vimos) que este livro “é composto de três gêneros: apocalíptico, profético e epistolar”. Dentre estes, “o menos importante, apesar de útil, é o fato de ser uma epístola” (OSBORNE. Apocalipse, pp.13,15). Aune explica o uso do gênero epistolar, quando destaca que a compilação final do Apocalipse foi concluída na província romana da Ásia no final do primeiro século d.C. A influência potencial do paulinismo foi um fator a ser considerado. Desta forma, esta influência das dez cartas paulinas, incluindo Efésios (para contá-las separadamente), passou a ser vista na saudação em Apocalipse 1:4. De fato, a composição do Apocalipse serve para estabelecer o terminus ad quem (“Termo a que. Ponto que determina o fim de uma ação”) para a coleta do corpus paulinus (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p. lxxv). Finalmente, existe uma ampla discussão relacional entre profecia e literatura apocalíptica. Assim, o problema da relação entre elas é parte da questão mais complexa do grau de continuidade ou descontinuidade que se pensa existir entre as tradições religiosas e literárias israelitas apocalípticas e antecedentes (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p. lxxv).  Além disso, é impossível fazer uma clara distinção entre profecia e literatura apocalíptica, pois esta é uma extensão daquela. Assim, Apocalipse evidentemente é mais conhecido como obra de gênero apocalíptico (OSBORNE. Apocalipse, p.15). Portanto, a visão mais preferível é que o Apocalipse é “uma profecia moldada num molde apocalíptico e escrita em forma de carta” para motivar o público a mudar seu comportamento à luz da realidade transcendente da mensagem do livro (BEALE. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.39). Por esta perspectiva, passemos a entender a literatura apocalíptica em suas descrições.

       O gênero apocalíptico tem certas definições propostas por alguns estudiosos. Köstenberger e Patterson contribuem com esta dinâmica, expondo uma distinção entre “apocalipse, apocalíptico e apocalipsismo”. O primeiro  refere-se a um gênero literário específico, produzido aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C. Já o segundo (o adjetivo “apocalíptico”) é empregado para especificar o gênero literário ou a visão de mundo expressa nessa literatura. E, finalmente, “apocalipsismo” denota uma cosmovisão, ideologia ou teologia que mistura os objetivos escatológicos de determinados grupos numa arena cósmica e política (KÖSTENBERGER; PATTERSON. A Tríade Hermenêutica, p.481). Corrobora com esta percepção a ideia de que o texto apocalíptico implica a comunicação reveladora de segredos divinos por um ser sobrenatural a um vidente que, por sua vez, apresenta as visões numa estrutura narrativa. As visões conduzem os leitores a um a realidade transcendente, que é superior à situação presente encoraja os leitores a perseverarem em meio às provações. As visões contrariam a experiência normal, ao revelar os mistérios divinos no mundo real e descrever a crise atual com o uma situação temporária, ilusória. Isso se toma possível pela transformação operada por Deus neste mundo em favor do cristão (OSBORNE. Espiral, p.352). 

      Ao partirmos do pressuposto de que a literatura apocalíptica (ou o “Apocalipse”) é um gênero de literatura reveladora com um quadro narrativo, em que uma revelação é mediada por um ser de outro mundo para um destinatário humano, revelando uma realidade transcendente tanto temporal, na medida em que visa a salvação escatológica, como espacial, na medida em que envolve outro mundo sobrenatural  (BEALE. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.40). Sendo assim, como leitores deste maravilhoso livro encontramos realidades distintas formatadas numa escrituração sobrenatural. Afinal, o “666, as bestas, o cavalo branco, os 144 mil”, e tantas outras informações presentes no apocalipse devem ser vistos de forma pela gênero literário? Inicialmente pelas argumentações trabalhadas até o presente momento se torna observável que a literalidade deve ser rejeitada. Em suma,  o problema principal de uma abordagem desse tipo é não levar em conta que o próprio gênero literário do texto deve estabelecer as regras para sua interpretação. O sentido do texto está intrinsecamente associado ao gênero. Conclui-se, portanto, que o gênero fornece um contexto estabelecido pelo autor para comunicar o sentido do texto (KÖSTENBERGER; PATTERSON. A Tríade Hermenêutica, pp.510,511).

       Duas informações textuais corroboram com nosso entendimento desta questão. Em primeiro lugar, o verbo ἐσήμανεν (raiz: σημαίνω, “notificou”, Ap.1:1 ARA) destaca que o Senhor “comunicou, por meio de símbolos ao Seu servo João”. A base disto passa pela associação com Dn.2.45 (LXX), a qual mostra a natureza simbólica do sonho do rei da Babilônia (uma estátua que simboliza quatro impérios mundiais). O apelo a essa passagem de Daniel no título e na declaração de conteúdo de todo livro mostra que essa visão simbólica será parte da estrutura subjacente dos meios de comunicação por todo o livro de Apocalipse. Assim, em vez de produzir a expectativa de que a maior parte do livro é “literal” por natureza, esse versículo indica que a maior parte do material deve ser entendida de maneira simbólica (BEALE Gregory; CARSON D.A. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1327). Em segundo lugar, pela expressão: ἐν πνεύματι  (lê-se: em pneúmati, 1:10; 4:1; 17:3; 21:10). Todas as vezes (menos 1:1) que se diz que João está “no Espírito/espírito”, somos informados de que é levado a algum lugar, seja para “o trono de Deus no céu” (4:2) ou para um “deserto” (17:3) ou para uma “montanha muito alta” (21:10) tudo isso mostrado numa visão (MICHAELS. Revelation. The IVP New Testament, Ap 1:12). Assim, ἐν πνεύματι pode ser vista como uma expressão idiomática que se refere ao fato de que as experiências reveladoras de João ocorreram não “no corpo”, mas sim “no espírito”, ou seja, em um transe de visão (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p.83). Estas sintéticas descrições exegéticas afirmam a natureza simbólica do livro em seu prólogo e num viés empírico.

    Nesta trajetória observamos algumas questões que envolveram as definições dos tipos textuais (gênero literário), a partir de algumas constituições. Este primeiro ponto tem seu papel destacado. Além disso, passamos por estes tipos textuais presentes no Apocalipse e as devidas ênfases dadas a literatura apocalíptica. Esta consolidação funcionou como redução para nosso entendimento deste tipo de literatura. Tudo isto produziu uma clara convicção sobre a leitura do Apocalipse. Neste caso, a impossibilidade de se antagonizar gênero e exegese. Por esta razão, os literalistas criam abordagens baseadas nos modernos tipos literários e não levam conta o background do texto. Entretanto, tal perspectiva não deve funcionar como elemento metodológico para a constituições de nossas convicções sobre este maravilhoso livro dado aos servos do Senhor. 

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