Os “Anjos das Sete Igrejas” e “o Anjo da Igreja” vistos num viés
Exegético da “Representação Corporativa” (Ap.1:20;
2:1,8,12,18; 3:1,7,14).
Neste ensaio, levantaremos
algumas considerações exegéticas sobre os “anjos” (1:20) e “o anjo da igreja” (2:1,8,12,18;
3:1,7,14) e apresentaremos as teses interpretativas existentes. Tal análise
está relacionada ao fato de que em nosso contexto evangelical estes “anjos” (1:20;
2:1,8,12,18; 3:1,7,14) têm sido identificados (hermeneuticamente se falando) numa
abordagem unilateral, pois comumente são vistos somente como
apontamentos direcionados para o pastor (ou líder). Desta forma, a questão se
torna definida por uma conclusão pressuposta (hermenêutica de senso comum - funciona
sem as devidas justificativas). Entretanto, existem outras percepções expostas
com certas fundamentações expostas por alguns estudiosos. A defesa, neste
ensaio, está relacionada a
tese da “representação corporativa”, com
seus desdobramento
Existe um amplo uso de ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) no Apocalipse, pois segundo
Aune aparece 77 vezes tanto singular como no plural e apenas oito dessas
referências são problemáticas, aquelas que se referem aos “anjos das sete
igrejas” (1:20) e as sete ocorrências do termo singular ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) como o destinatário particular
de cada uma das sete proclamações às igrejas (AUNE. Word Biblical
Commentary: Revelation 1-5:14, p.108). Assim, a argumentação fundamentada
num paralelo de significado funciona pela ideia de que a maioria das sessenta e
nove ocorrências dos termos ἄγγελος ou ἄγγελοι referem-se a seres sobrenaturais benevolentes
que servem como mediadores e mensageiros entre Deus e sua criação, a
maioria dos estudiosos, então, presume que as oito referências também devem
se referir a seres sobrenaturais benéficos. Entretanto, Aune mostra que este
argumento é falho, uma vez que é uma forma de petitio principii, ou
seja, assumindo na premissa de um argumento a conclusão que ainda deve ser
provada (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p.108).
Passemos para a diferenciação quanto a
redação no texto grego existente em sua delimitação
morfológica/sintática/lexical:
1:20: οἱ ἑπτὰ ἀστέρες ἄγγελοι τῶν ἑπτὰ ἐκκλησιῶν εἰσιν
“As
sete estrelas são os sete anjos das
igrejas”
2:1,8,12,18; 3:1,7,14: Τῷ ἀγγέλῳ τῆς [...] ἐκκλησίας
γράψον·
“Ao anjo da igreja [...], escreve”
Os usos nestes versos passam
por discriminações distintas, pois ἄγγελοι
funciona como nominativo apositivo (1:20), de outro lado, ἀγγέλῳ como dativo de destinatário (2:1,8,12,18;
3:1,7,14). Pensando num viés lexical ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) pode
ser visto com certas delimitações. As suas 175 ocorrências são desigualmente
distribuídas no NT, sendo a maioria encontrada nos Sinóticos (51; concentrados
nas narrativas da infância e nas da visita das mulheres ao túmulo de Jesus e
das aparições após a ressurreição), Apocalipse (67) e Atos (21). Na grande
maioria das ocorrências o termo é
usado para designar o mensageiro (celestial) de Deus, mas também humano (apenas
3 vezes no NT: Lc.7:24; 9:52; Tg. 2:25; cf. também a citação do AT em Mt 11:10;
Mc.1:2). Ambos os significados também são encontrados no grego secular (BALZ,
& SCHNEIDER. Exegetical
dictionary of the New Testament, 1:14).
Especificamente,
nos usos focados (1:20; 2:1,8,12,18; 3:1,7,14) o BDAG não se posiciona
claramente (Arndt, W., Danker, F.
W., & Bauer, W. A Greek-English lexicon of the New Testament and other
early Christian literature, p.9). No Louw Nida ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) aparece em dois domínios
semânticos: “mensageiro, uma pessoa que faz anúncio” e “anjo, um ser
natural que está a serviço de um entidade sobrenatural mais elevada ou é
mensageiro desta” (LOUW, NIDA. Léxico, p.131, 367).
Para
pensarmos a temática exposta, passaremos, primeiramente, a considerar algumas
implicações específicas de porções relevantes do texto do Apocalipse que devem
ser levados em conta em qualquer solução para a identidade e função desses sete
anjos. Em primeiro lugar, cada uma das sete proclamações se dirige ao
“anjo” de cada igreja diretamente como uma entidade individual completa com
pronomes de segunda pessoa do singular e formas verbais. Em segundo lugar,
o ἄγγελος de cada igreja é endereçado
como, se fosse a igreja; ou seja, cada
um funciona como o outro eu de cada congregação. A igreja-anjo pode ser
elogiada por comportamento aceitável (2:2-3,6), mas repreendida por
comportamento inaceitável (2:4-5). Em terceiro lugar, várias
características importantes desses ἄγγελοι são
evidentes em Apocalipse 1:20: [a] O fato de que a primeira ocorrência de ἄγγελοι em 1:20 é anarthro indica que
o autor não assumiu que seu público estava familiarizado com essas figuras; [b]
Os
sete anjos parecem constituir um grupo particular, ao lado de outros grupos de
sete anjos em Apocalipse, ou seja, os sete arcanjos que funcionam como anjos da
trombeta (8:2) e os anjos das sete taças (15:6). A primeira menção a esses dois
últimos grupos é articular, sugerindo que o autor assumia que eles eram
conhecidos de seu público (AUNE. Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14,
pp.108,109).
Depois de observar estes considerandos,
descreveremos as possibilidades hermenêuticas quanto a identificação do “anjo”.
Basicamente, seguiremos duas possibilidades, pensando ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) como “seres sobrenaturais ou humanos”
(1:20; 2:1,8,12,18; 3:1,7,14). A primeira possibilidade de identificação pode
ser dividida em duas partes: [a] anjos guardiões
que guiam e protegem a congregação; [b] personificações celestiais semelhantes
a comunidade cristã terrena. O desdobramento inicial (“anjos guardiões”) tem
suas bases na LXX como visto em Dt.32:8 (ἔστησεν ὅρια ἐθνῶν κατὰ ἀριθμὸν
ἀγγέλων θεοῦ - “ele estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos
anjos de Deus”). Gabriel que apareceu a
Daniel, era o “anjo da guarda” de Dario, o medo (Dn 11:1). Estes “anjos da
guarda” são mencionados apenas duas vezes no NT (Mt 18:10; At. 12:15; duas
outras passagens às vezes citadas, 1Co 11:10; Hb 1:14, AUNE. Word Biblical
Commentary: Revelation 1-5:14, p.110). Além disso, esta
interpretação que vê as “estrelas” como “anjos” das igrejas em v.20b parece
confirmar ainda mais a sugestão acima de que (as “estrelas”) são extraídas de
Dn.12:3, visto que Miguel é visto como o “anjo” guardião de Israel em Dn.12:1
(cf. Dn.10:21) e está associado diretamente com as “estrelas” de 12:3. Estas
“estrelas” (Dn. 12:3) referem-se aos “sábios” de Israel que são recompensados
com o status de glória celestial (BEALE. The book of
Revelation: A Commentary on the Greek Text, p.218). Osborne traz uma dificuldade para esta
interpretação: “a principal objeção a esta
interpretação é a de que as cartas nos capítulos seguintes remetem
a problemas das igrejas e requerem o arrependimento de muitos de seus membros, o que
seria estranho, caso elas fossem endereçadas a anjos literais” (OSBORNE. Apocalipse, p.108).
De outro lado, o
anjo da igreja pode ser visto como uma forma de personificar o espírito
predominante desta igreja. Para Mounce esta interpretação é reforçada pelo o
fato de que todas as sete cartas são endereçadas a anjos separados, um fenômeno
estranho, se elas se referem a qualquer coisa menos que a igreja, uma vez que o
conteúdo é obviamente destinado à congregação como um todo (MOUNCE. The Book Of Revelation, p.72). A dificuldade com este tese passa por sua aparência
como algo extremamente tênue. Ademais, o outro símbolo, os candelabros, indica
igrejas de verdade; portanto, é mais provável que isso aponte para seres reais
(OSBORNE. Apocalipse, p.108).
A segunda possibilidade hermenêutica que
procura descrever ἄγγελος (lê-se: á[n]guelos) de
1:20; 2:1,8,12,18; 3:1,7,14, passa pela constatação de que fala de “seres
humanos”. Aune explica esta categoria dividida em três partes: “(a) mensageiros
ou emissários humanos, (b) profetas cristãos, talvez membros de uma
guilda profética representada em cada uma das sete comunidades, mensageiros
proféticos enviados por João de Patmos para cada uma das as igrejas ou (c)
os bispos ou líderes de cada uma das sete comunidades” (AUNE. Word Biblical
Commentary: Revelation 1-5:14, p.111). Isso se encaixaria bem no uso das
“estrelas” por todo o mundo antigo (judaico e helenístico) para designar
domínio ou soberania (OSBORNE.
Apocalipse,
p.109).
Kistemaker, defensor desta tese, explica que o termo anjo é comum no
Apocalipse, ocorrendo sessenta e sete vezes (diferente da estatística colocada
por Aune). Mas
é impossível sustentar que na literatura joanina uma dada palavra deva ter por toda
parte o mesmo significado, a menos que o autor indique uma mudança. Dizer que os anjos
devem significar seres etéreos e nunca mensageiros humanos é contrário a outras
passagens da Escritura (Mc.1.2 [Ml 3.1]; Lc 7.24; 9.52). De um ponto de vista
analítico, por
que Jesus instruiria João a escrever cartas a sete anjos individuais? E os anjos santos
seriam responsáveis pelos pecados dos membros das sete igrejas? Não seria um sentido
preferível, se ele o mandasse escrever a representantes dessas igrejas, os
quais eram responsáveis pelo bem-estar espiritual de seus membros? Sabemos que Jesus
está segurando as sete estrelas (mensageiros) em sua mão direita (v.16) para
enviá-las com autoridade e para protegê-las. A interpretação de que os
mensageiros às congregações são seus pastores faz sentido se considerarmos os
pastores como enviados e comissionados por Cristo. São responsáveis pelo
desenvolvimento espiritual do povo de Deus (KISTEMAKER. Apocalipse, p.142).
Para pensarmos esta questão, ainda que de
forma sintética, precisamos levar em conta o contexto do livro. Assim, o uso que
envolve o “anjo” no Apocalipse torna extremamente improvável que seja um “mensageiro” humano de qualquer tipo
(OSBORNE. Apocalipse, p.109). Tal perspectiva acaba por chancelar a tese da representação corporativa, sugerida pelo reconhecimento de que os seres angélicos são identificados
corporativamente com os cristãos como suas contrapartes celestiais em outras
partes do livro (o
anjo em 19:10 e 22:9 diz: “Sou conservo seu e de seus irmãos”). Além disso, este
“anjo” em Apocalipse 8:3–4 parece
representar os santos, pois recebe
suas orações e as apresenta diante de Deus (BEALE. The book of Revelation:
A commentary on the Greek Text, p.217). Ainda
assim, tal perspectiva encontra certa dificuldade, porquanto [1] os santos anjos seriam responsáveis pelos pecados dos membros das
sete igrejas? [2] Quais elementos fundantes
funcionam para a defesa desta linha hermenêutica? As respostas advém do AT.
Em primeiro
lugar, a problemática levantada quanto a responsabilização dos pecados passa
por alguns pontos. A resposta inicial, que é inerente ao conceito de “representação
corporativa”, passa pela responsabilização do representante pelo grupo e a
responsabilização do grupo pelas ações do representante. Portanto, há algum
sentido em que os anjos são responsáveis (por exemplo, responsabilidade de
supervisão) pelas igrejas, mas as igrejas também se beneficiam da posição dos
anjos (BEALE. The book of Revelation: A Commentary
on the Greek Text, p.217). Assim, num certo
sentido, os anjos são solicitados a intervir nas necessidades espirituais das
igrejas. Por outro lado, representam as próprias igrejas (OSBORNE. Apocalipse, p.109).
Os traços textuais parecem corroborar com isto, pois o dativo de destinatário
(ao anjo da igreja) é complementado pelo final do texto em que “o Espírito diz
as igrejas”. Tal associação parece funcionar nesta dinâmica.
Em segundo lugar,
as “estrelas” são usadas numa dinâmica metafórica para os santos e anjos no AT
e no judaísmo. A interpretação formal das “estrelas” como “anjos” das igrejas
em 1:20 parece confirmar ainda mais a sugestão acima de que elas (“estrelas”)
são extraídas de Dn.12:3, visto que Miguel é visto como o “anjo” guardião de
Israel em Dn.12:1 (cf.Dn.10:21) e está associado diretamente com aquelas de
12:3. Estas “estrelas” de Dn. 12:3 referem-se aos “sábios” de Israel que são
recompensados com o status de glória celestial. Isso não significa que ἄγγελοι em Apocalipse 1:20 se refira
exclusivamente aos líderes humanos das igrejas, mas provavelmente que João
também associou as “estrelas” de Daniel com seres celestiais em geral, e a
conexão desta metáfora com o conceito de anjos de Daniel. No judaísmo tal
associação teria sido facilitada (BEALE. The book of
Revelation: A Commentary on the Greek Text, p.218).
Em terceiro lugar, os anjos aparecem como representantes corporativos de santos no
AT, NT e escritos judaicos. Os anjos de Daniel aparecem como as contrapartes
celestiais e protetoras das nações terrenas (Dn 10:20-21; 12:1; cf. 7:27; 8:10,
24), e o mesmo fenômeno ocorre geralmente no NT (Mt. 18:10; At. 12:15), os Targuns
(por exemplo, Targ. Jerusalém Gen. 33:10; 48:16), e literatura apocalíptica
judaica, muitas vezes como um desenvolvimento de Daniel (por exemplo, 1QM
12.1-10 ; 14,9-10; 17,5-9; 1 En. 89:68-90:27). Isso se baseia no conceito de “representação
corporativa” em que um indivíduo representa um grupo, tão característico do AT,
da apocalíptica judaica e do próprio NT. O dativo de destinatário “ao anjo da
igreja” em cada uma das cartas nos caps. 2 e 3 é melhor entendido neste
contexto. Algo confirmando ainda mais a identidade corporativa dos dois e o
papel representativo dos anjos. A correspondência entre Cristo e o Espírito,
respectivamente, no início e no final de cada carta, implica uma
correspondência semelhante entre o anjo e as igrejas, respectivamente,
endereçadas (no início e no final de cada carta), confirmando ainda mais a
identidade corporativa dos dois e dos anjos num viés de papel representativo. A
tradição de associar Israel com anjos em todos os textos mencionados acima é
colocada em contextos de escatologia inaugurada (Qumran) ou da ressurreição dos
últimos dias, o que o torna ainda mais adequado como pano de fundo para o
contexto de Apocalipse 1:20, onde as mesmas duas características escatológicas
são encontradas (a este respeito, a ressurreição de Cristo é identificada com aquela
do Israel escatológico; BEALE. The book of
Revelation: A Commentary on the Greek Text, p.218).
O trato sintético deste ensaio passa pelo seu curto espaço e complexidade da temática proposta. Ainda assim, alguns elementos informativos descritos corroboram com certas elucidações introdutórias. A tese de “representação corporativa” tem seus substratos no Apocalipse e em sua principal fonte: o AT. Assim, o diálogo afirmado pela intertextualidade ou Exegese Contextual Canônica tem seus apontamentos descritivos como interessantes justificativas exegéticas

Nenhum comentário:
Postar um comentário