segunda-feira, 27 de junho de 2022

 

         O Uso do AT no Apocalipse: Apontamentos Introdutórios

§  Extensão e Estatística

§  Apropriação vista em forma de Alusão

§  Contextual e Não Contextual?



        A pesquisa sobre o livro das revelações pode ser desmembrada em algumas reduções, dentre estas, aparece o uso do AT. Tal perspectiva passa pela constatação de que nenhum outro livro do NT é tão permeado por referências veterotestamentárias quanto Apocalipse. Assim, torna-se claro que há um extenso campo de estudo, para entendermos as apropriações escrituradas por João. Neste ensaio, observaremos alguns pontos introdutórios sobre esta questão, mas ainda assim, elucidadores, de modo que, possam corroborar com nossa leitura do livro.   

      Inicialmente, passemos pela extensão e estatísticas envolvendo os usos do AT. Kistemaker dá números quando afirma: “...os quatrocentos e quatro versículos do Apocalipse divulgam umas quinhentas alusões ao Antigo Testamento. Para ser preciso, há quatorze citações incompletas do Antigo Testamento (KISTEMAKER. Apocalipse, p.31). Osborne vê esta questão com certa dificuldade, pois há divergências quanto ao número exato de alusões, pois é difícil definir as citações parciais, as alusões e os ecos do AT no livro (OSBORNE. Apocalipse, p.28). Embora, o autor cite poucas vezes o AT de forma direta, alusões e ecos são encontrados em quase todos os versículos do livro” (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1318). A extensão do  AT presente no Apocalipse inclui o Pentateuco, Juízes, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, Salmos, Provérbios, Cantares de Salomão, Jó, e os profetas (maiores e menores). Aproximadamente mais da metade das referências são dos Salmos, Isaías, Ezequiel e Daniel, e em proporção ao seu comprimento (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.77). Com esta consciência, torna-se necessário compreender o grau de influência dos livros veterotestamentários mais importantes. Assim, podemos pensar a estatística numa dinâmica com a seguinte restrição: “metade das referências provém de Salmos, Isaías, Ezequiel e Daniel. Proporcionalmente ao volume de texto, a maior parte é de Daniel” (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1318). Além disso, proporcionalmente, Ezequiel ocupa o segundo lugar como o livro mais usado no Apocalipse. Em número de alusões Isaías é o primeiro, seguido por Ezequiel, Daniel e Salmos. Portanto, o AT em geral desempenha um papel tão importante que uma compreensão adequada de sua utilização é necessária para entender Apocalipse como um todo (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1318).  De qualquer forma, o amplo uso do AT presente no Apocalipse mostra sua importância para o trato exegético em seu aspecto holístico.

       Outro aspecto a ser observado é a forma textual como o AT aparece no Apocalipse: “alusões ou ecos”. Desta forma, pensamos no uso em voga como algo indireto, já que a redação não é reproduzida diretamente como na citação (BEALE. Manual, p.55). Conscientes de que “não há citações formais, e a maioria é alusiva, fenômeno que geralmente dificulta a identificação textual”. (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1320). Beale estabelece certos critérios pedagógicos para trabalharmos estas “alusões”, classificando-as como: “[1] Clara Alusão, neste caso, a redação é quase idêntica à fonte do AT, compartilha algum significado central comum e provavelmente não poderia ter vindo de nenhum outro lugar. [2] Provável alusão: embora a redação não seja tão próxima, ela ainda contém uma ideia ou redação que é exclusivamente rastreável ao texto do AT ou exibe uma estrutura de idéias exclusivamente rastreável à passagem do AT. [3] Possível alusão: a linguagem é apenas geralmente semelhante à suposta fonte, ecoando suas palavras ou conceitos” (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.78).

       Outro movimento passa pelo uso problemático das “alusões agrupadas e a questão da consciência literária”. Isto significa que  às vezes, quatro, cinco ou mais referências ao AT estão unidas numa única imagem (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1320). Tal aspecto traz mais complexidade para o entendimento da questão. Entretanto, se faz necessário entender a possibilidade de uma consciência ou não quanto ao estabelecimento desta dinâmica. Portanto, é inútil tentar compreender o significado de cada referência em seu contexto, no AT e no NT, uma vez que o quadro deve ser mantido por inteiro, sem a separação ou a análise de várias vertentes, a fim de provocar o efeito emocional desejado. Claro que nesses mosaicos há sempre a possibilidade de uma mistura de intenção consciente com atividade inconsciente (BEALE; CARSON. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, p.1320). Mas, muitas vezes uma maior compreensão é obtida e o efeito emotivo sentido, quando as várias partes alusivas dessas amálgamas visionárias são estudadas separadamente em seus contextos do AT. (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.78). Um dos exemplos desta construção aparece em 1:12-20 onde Cristo é retratado: [A] Zc.4:2,10 [B] Ap.1:12; [A] Êx.20:18 – [B] 1:12; [A] Dn.7;10 – [B]1:13-16; [A] Dn.10:8-20 – [B] 1:17; [A] Dn.2 – [B] 1:19. Este tipo de construção chancela com considerável ênfase a identificação e complexidade desta análise. O leitor deve ter muito cuidado em analisar os movimentos do texto.       

      Quanto ao aspecto contextual ou não contextual dos usos do AT no Apocalipse, Osborne defende: “A tese deste comentário é que João tem plena consciência do contexto de suas alusões, mas isso não impede que ele as transforme e as aplique à nova realidade apocalíptica de suas visões” (OSBORNE. Apocalipse, p.29). A luz do que foi afirmado até agora percebemos que esta proposição encontra certas dificuldades. Realmente há consenso unânime de que João usa o AT com alto grau de liberdade e criatividade. O resultado disto produz a conclusão para muitos de que João lida com inúmeras passagens do AT sem considerar seus significados contextuais originais, mesmo atribuindo significados bastante contraditórios. As razões para esta conclusão passam pela perspectiva de que o uso de palavras do AT funciona apenas como um disfarce para os próprios e novos pensamentos de João que não estão relacionados ao contextos originais do AT. Entretanto, a citação ou alusão informal não implica logicamente o uso não contextual do AT ou uma ausência de tentativa de interpretar o AT, especialmente, porque a maioria das referências ao AT em outras partes do NT também são informais e alusivas ,e seria indevidamente presuntivo pensar que todas essas outras referências do AT estão sendo interpretadas pelos escritores do NT sem o contexto do AT em mente (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.81).

      Além disso, se argumenta que o estilo apocalíptico de João depende de seu espírito profético, algo que cria, objetivando assim, proclamar seus próprios propósitos e não citando, conscientemente outras autoridades para ensinar ou argumentar. Não há nenhuma tentativa de interpretar o AT contextualmente. Isso, no entanto, não leva em consideração que “o 'espírito profético' não cria necessariamente ex nihilo, como é evidente nos profetas exílicos e pós-exílicos que reutilizaram, reformularam e atualizaram o material profético anterior”. Não se vê como um profeta independente de sua tradição ou herança do AT, mas aplica a si mesmo a linguagem das comissões proféticas (do AT) – provavelmente para mostrar que sua autoridade profética é igual à dos profetas do AT e demonstrar que sua mensagem está em continuidade com sua mensagem (1:10; 4:1–2; 17:3; 21:10; (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.81).

     Ainda neste viés, um terceiro argumento, quanto ao desrespeito de João pelo contexto do AT, passa pela ideia de que seus leitores eram analfabetos, de origens gregas pagãs, ou ambos, e não seriam capazes de entender o uso interpretativo da literatura do AT. Essa objeção não leva em consideração os seguintes fatores: (a) as igrejas na Ásia Menor eram compostas por um núcleo de crentes judeus e tementes a deuses gentios que, como os judeus, se associavam às sinagogas (a evidência está em Atos); (b) Os cristãos em Esmirna e Filadélfia ainda têm alguma relação com a sinagoga, embora seja antagônica, o que aponta mais para alguma ligação com o conhecimento da tradição do AT (cf. 2:9; 3:9); (c) a referência específica a um falso “profeta” com um nome do AT (“Jezabel”) em Tiatira sugere um ensino naquela igreja que distorceu tanto a tradição do AT como do NT (2:20); (d) há evidência linguística no próprio texto: se João conhecesse essas congregações e tivesse um relacionamento pastoral com elas, é implausível que ele empregasse em tão vasta escala tantas alusões do AT, se soubesse que não teriam uma pista para aquilo que o apóstolo estava se referindo e não se beneficiaria dessas alusões. Por exemplo, tais alusões claras do AT nas letras como “maná”, “Jezabel”, “Balaão”, “templo” e “nova Jerusalém” são pontas de um iceberg do AT que apontam para algum conhecimento básico do AT sobre os leitores. (BEALE, G. K. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.81).

     Esta sintética investigação trouxe certas delimitações conceituais quanto ao uso do AT presente no Apocalipse. Em primeiro lugar, a considerável extensão envolvendo a presença do AT no livro das Revelações chancela algo importante a ser observado na leitura. Este diálogo se torna elucidador para o trabalho exegético, de modo que, os substratos das informações textuais descritas por João funcionam em suas propostas de significado (Intenção do Autor/autor). Em segundo lugar, percebemos que mecanismo de identificação passa pela chamada “alusão”. A complexidade disto pelo aspecto indireto presente nesta formulação. Assim, temos como elemento inicial para a interpretação o conhecimento de uma “Exegese Contextual Canônica”. Em terceiro lugar, o debate quanto ao aspecto contextual tem sua importância declarada, pois a ilegitimidade do uso envolvendo o AT torna-se negado na percepção de alguns estudiosos. João não fez uma exegese, baseada no “read response” (resposta do leitor), ignorando totalmente o texto veterotestamentário em suas propostas contextuais.  

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