terça-feira, 14 de junho de 2022

  

    As possibilidades quanto a Identificação de “Azazel” (עֲזָאזֵל) vistas exegeticamente

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           A discussão dirigida a identificação de  “Azazel” (עֲזָאזֵל)  que aparece em Lv.16:8,10,26 passa por linhas hermenêuticas distintas. Os estudiosos apresentam pelo menos quatro possibilidades. Tal empreendimento tem sua complexidade declarada pelos caminhos percorridos para a análise (tradução, contexto histórico e outros). Ainda assim, os eruditos (Exegetas) trazem compostos argumentativos que trazem fundamentações para suas teses interpretativas. Neste ensaio, traremos algumas destas afirmativas, de maneira que, possamos ter em mente as linhas hermenêuticas defendidas, entretanto a defesa em foco pensará “Azazel” (עֲזָאזֵל) pelo contexto, e não como algo reduzido ao termo em si (tautologia etimológica).  

        O termo  “Azazel” (עֲזָאזֵל) aparece somente quatro vezes no AT (como visto). Inicialmente, a defesa envolvendo a identificação deste “Azazel” com “o demônio”, passa por relações com o background, pois os babilônios acreditavam em alu-demônios que viviam em terrenos desertos, e este pode ser um conceito semelhante. Nas tabuletas de Ebla há um rito de purificação para um mausoléu usando uma cabra que é então solta no país das estepes (Matthews, Chavalas, & Walton. The IVP Bible background commentary: Old Testament, Lv.16:10).  Desta forma, a perspectiva em voga tinha laços com os povos que cercavam Israel.  Keil, Delitzsch afirmam isto, pois em suas perspectivas “Azazel’ (עֲזָאזֵל) “é o nome de um demônio ou mesmo do próprio diabo” (Keil, Delitzsch, p.398). Na literatura intertestamentária posterior era o nome de um espírito maligno principal (Enoque 8:1; 9:6; 10:4-8; 13:1-2; 54:5; 55:4; 69:2). De maneira semelhante, uma tradição no Talmud descreve um composto dos nomes de dois anjos caídos (“A Religião de Israel antes do Sinai”, JQR 53 [1962/63] 250). A posição de que este passava a ser o nome ou nomes de um demônio tem a vantagem de os dois nomes serem verdadeiramente paralelos (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.237).   

     Outra possibilidade interpretativa passa pela consideração de “Azazel” como um termo abstrato que significa “remoção total” (assim, a frase  לַעֲזָאזֵֽל׃ então significa: “para remoção”). Um argumento contra essa posição é que há poucos termos abstratos em Levítico; na verdade, todo o ritual do “Dia da Expiação”, incluindo a libertação deste bode, funcionava como uma representação simbólica das realidades espirituais. Além disso, a tradição rabínica toma “Azazel” (עֲזָאזֵל) como o lugar para onde este bode parte,  identificando-o como “um precipício rochoso” ou “o mais difícil das montanhas” ou “uma montanha áspera e rochosa” (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.237). Estes apontamentos sintéticos acabam por produzir uma exegese de palavra, de maneira que somente o termo está em voga, na verdade, devemos entender “Azazel” (עֲזָאזֵל) no contexto do texto com seus postulados distintos.

     Nesta dinâmica, precisa estar claro que Levítico 16 regula o que deve acontecer no “Dia da Expiação”, embora o título desta instituição não ocorra no capítulo. Este título  é encontrado em Lv 23:27 (yôm hakkippurîm) e Lv 23:28 (yôm kippurîm), literalmente “dia das (das) expiações”. No uso contemporâneo, tem sido comumente chamado de Yom Kippur. O dia era o mais solene de todos os rituais do Antigo Testamento. Tão significativo foi que na tradição judaica posterior passou a ser chamado assim, “O Dia” (ROOKER. Leviticus, The New American Commentary, p.211). Este diálogo com o texto nos leva a perceber que o uso da expressão “mandar embora”, no v 21 para a libertação deste bode no deserto carregava a ideia de que foi solto, para “vagar ou vagar livremente, sem impedimentos”. Por um viés de coesão percebemos o rito de agregação para um curado de uma grave doença de pele, neste caso, também era usado para a liberação da ave (14:7). Além disso, o fato de que esta ave era definida como “viva” (14:7), assim como este bode é chamada da mesma forma (“vivo”). Desta forma, o v.20 atesta que esses dois ritos têm a mesma intenção básica. Nos primeiros tempos, o bode provavelmente foi enviado para longe do acampamento para vagar livremente no deserto até sua morte. O significado inicial deste ritual era fornecer uma representação visual à assembleia da realidade de que neste dia seus pecados foram completamente apagados e o poder desses pecados foi encerrado para sempre. Além disso, este rito de libertação em Israel corresponde à prática amplamente atestada encontrada entre uma variedade de povos, testemunhando a profunda consciência social dentro das comunidades de que a impureza ou o mal devem ser removidos periodicamente de seu meio (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.238). O intra-diálogo contextual faz com que o texto funcione por seus apontamentos vistos em coesão, assim, passamos a entender o evento pelo todo. A exegese histórico-gramatical contempla tal tarefa com inegociável importância.

    Ainda assim até agora não tocamos na fala de Ellen White, agora veremos que tese interpretativa ela defende. No cap.23 do Grande Conflito, quando trata do “Santuário Celestial, centro de nossa esperança” (Dn.8:14), a partir desta temática com suas esdruxulas observações afirma: “destarte, os que seguiram a luz da palavra profética viram que, em vez de vir Cristo à Terra, ao terminarem em 1844 os 2.300 dias, entrou Ele então no lugar santíssimo do santuário celeste, a fim de levar a efeito a obra final da expiação, preparatória à Sua vinda” (disponível em: http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf). Além disso, White afirma que “verificou-se também que, ao passo que a oferta pelo pecado apontava para Cristo como um sacrifício, e o sumo sacerdote representava a Cristo como mediador, o bode emissário tipificava Satanás, autor do pecado, sobre quem os pecados dos verdadeiros penitentes serão finalmente colocados. Quando o sumo sacerdote, por virtude do sangue da oferta pela transgressão, removia do santuário os pecados, colocava-os sobre o bode emissário. Quando Cristo, pelo mérito de Seu próprio sangue, remover do santuário celestial os pecados de Seu povo, ao encerrar-se o Seu ministério, Ele os colocará sobre Satanás, que, na execução do juízo, deverá encarar a pena final” (http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf). Muito pode ser dito sobre estas afirmativas que são frutos de uma intertextualidade superficial, entretanto nosso foco é o Lv. Assim, para tal se “Azazel” era o cabeça dos demônios ou o precursor de Satanás, não há como saber, mas pode-se afirmar que tal identificação não é a intenção do uso desse nome nesta passagem (Lv.16:8,10,26), por quê? Se “Azazel” era um demônio, este rito significa que os pecados carregados pelo bode eram devolvidos a esse demônio com o objetivo de removê-los da comunidade e deixá-los em sua fonte, para que seu poder ou efeito na comunidade fosse completamente quebrado. (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.238). Esta expiação vista assim, teria uma conotação tautológica. Além disso, pelo contexto canônico, não há nada nas Escrituras, no entanto, que indique que Satanás ou seus demônios realizaram uma função expiatória (ROOKER. Leviticus, The New American Commentary, p.211).

      As pretensões desta ensaio são limitadas a fundamentações introdutórias. As ferramentas para a análise acabam por produzir uma metodologia que privilegia as considerações contextuais. Algo de grande importância exegética. Algumas falas destacadas parecem estar alicerçadas somente na análise do termo, algo problemático para o histórico gramáticas. Além disso, o contexto canônico também exerce um papel fundamental. Em suma, responsabilizar o diabo pela expiação do pecado, realmente, funciona como algo absurdo do ponto de vista exegético, pois para conseguir tal afirmativa muitos malabarismos precisam ser feitos.    

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