As possibilidades quanto a Identificação de “Azazel” (עֲזָאזֵל) vistas exegeticamente
.
A discussão dirigida a identificação de “Azazel” (עֲזָאזֵל) que aparece em Lv.16:8,10,26 passa por linhas
hermenêuticas distintas. Os estudiosos apresentam pelo menos quatro
possibilidades. Tal empreendimento tem sua complexidade declarada pelos
caminhos percorridos para a análise (tradução, contexto histórico e outros). Ainda
assim, os eruditos (Exegetas) trazem compostos argumentativos que trazem
fundamentações para suas teses interpretativas. Neste ensaio, traremos algumas
destas afirmativas, de maneira que, possamos ter em mente as linhas
hermenêuticas defendidas, entretanto a defesa em foco pensará “Azazel” (עֲזָאזֵל) pelo
contexto, e não como algo reduzido ao termo em si (tautologia etimológica).
O
termo “Azazel” (עֲזָאזֵל) aparece
somente quatro vezes no AT (como visto). Inicialmente, a defesa envolvendo a
identificação deste “Azazel” com “o demônio”, passa por relações com o
background, pois os babilônios acreditavam em alu-demônios que viviam em
terrenos desertos, e este pode ser um conceito semelhante. Nas tabuletas de
Ebla há um rito de purificação para um mausoléu usando uma cabra que é então
solta no país das estepes (Matthews, Chavalas, & Walton. The IVP Bible
background commentary: Old Testament, Lv.16:10). Desta forma, a perspectiva em voga tinha laços
com os povos que cercavam Israel. Keil,
Delitzsch afirmam isto, pois em suas perspectivas “Azazel’ (עֲזָאזֵל) “é o
nome de um demônio ou mesmo do próprio diabo” (Keil, Delitzsch, p.398). Na
literatura intertestamentária posterior era o nome de um espírito maligno
principal (Enoque 8:1; 9:6; 10:4-8; 13:1-2; 54:5; 55:4; 69:2). De maneira
semelhante, uma tradição no Talmud descreve um composto dos nomes de dois anjos
caídos (“A Religião de Israel antes do Sinai”, JQR 53 [1962/63] 250). A posição
de que este passava a ser o nome ou nomes de um demônio tem a vantagem de os
dois nomes serem verdadeiramente paralelos (HARTLEY. Word Biblical
Commentary: Leviticus, p.237).
Outra possibilidade interpretativa passa
pela consideração de “Azazel” como um termo abstrato que significa “remoção
total” (assim, a frase לַעֲזָאזֵֽל׃ então significa: “para
remoção”). Um argumento contra essa posição é que há poucos termos abstratos em
Levítico; na verdade, todo o ritual do “Dia da Expiação”, incluindo a
libertação deste bode, funcionava como uma representação simbólica das
realidades espirituais. Além disso, a tradição rabínica toma “Azazel” (עֲזָאזֵל) como o
lugar para onde este bode parte, identificando-o
como “um precipício rochoso” ou “o mais difícil das montanhas” ou “uma montanha
áspera e rochosa” (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.237).
Estes apontamentos sintéticos acabam por produzir uma exegese de palavra, de
maneira que somente o termo está em voga, na verdade, devemos entender “Azazel”
(עֲזָאזֵל) no contexto do texto com seus postulados
distintos.
Nesta dinâmica, precisa estar claro que Levítico
16 regula o que deve acontecer no “Dia da Expiação”, embora o título desta
instituição não ocorra no capítulo. Este título é encontrado em Lv 23:27 (yôm
hakkippurîm) e Lv 23:28 (yôm kippurîm), literalmente “dia das (das) expiações”.
No uso contemporâneo, tem sido comumente chamado de Yom Kippur. O dia
era o mais solene de todos os rituais do Antigo Testamento. Tão significativo
foi que na tradição judaica posterior passou a ser chamado assim, “O Dia” (ROOKER.
Leviticus, The New American Commentary, p.211). Este diálogo com o texto
nos leva a perceber que o uso da expressão “mandar embora”, no v 21 para a
libertação deste bode no deserto carregava a ideia de que foi solto, para
“vagar ou vagar livremente, sem impedimentos”. Por um viés de coesão percebemos
o rito de agregação para um curado de uma grave doença de pele, neste caso, também
era usado para a liberação da ave (14:7). Além disso, o fato de que esta ave era
definida como “viva” (14:7), assim como este bode é chamada da mesma forma (“vivo”).
Desta forma, o v.20 atesta que esses dois ritos têm a mesma intenção básica.
Nos primeiros tempos, o bode provavelmente foi enviado para longe do
acampamento para vagar livremente no deserto até sua morte. O significado
inicial deste ritual era fornecer uma representação visual à assembleia da
realidade de que neste dia seus pecados foram completamente apagados e o poder
desses pecados foi encerrado para sempre. Além disso, este rito de
libertação em Israel corresponde à prática amplamente atestada encontrada entre
uma variedade de povos, testemunhando a profunda consciência social dentro das
comunidades de que a impureza ou o mal devem ser removidos periodicamente de
seu meio (HARTLEY. Word Biblical Commentary: Leviticus, p.238). O
intra-diálogo contextual faz com que o texto funcione por seus apontamentos
vistos em coesão, assim, passamos a entender o evento pelo todo. A exegese
histórico-gramatical contempla tal tarefa com inegociável importância.
Ainda assim até agora não tocamos na fala
de Ellen White, agora veremos que tese interpretativa ela defende. No cap.23 do
Grande Conflito, quando trata do “Santuário Celestial, centro de nossa
esperança” (Dn.8:14), a partir desta temática com suas esdruxulas observações
afirma: “destarte, os que seguiram a luz da palavra profética viram que, em vez
de vir Cristo à Terra, ao terminarem em 1844 os 2.300 dias, entrou Ele então no
lugar santíssimo do santuário celeste, a fim de levar a efeito a obra final da
expiação, preparatória à Sua vinda” (disponível em: http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf). Além
disso, White afirma que “verificou-se também que, ao passo que a oferta pelo
pecado apontava para Cristo como um sacrifício, e o sumo sacerdote
representava a Cristo como mediador, o bode emissário tipificava Satanás,
autor do pecado, sobre quem os pecados dos verdadeiros penitentes serão
finalmente colocados. Quando o sumo sacerdote, por virtude do sangue da
oferta pela transgressão, removia do santuário os pecados, colocava-os sobre o
bode emissário. Quando Cristo, pelo mérito de Seu próprio sangue, remover do
santuário celestial os pecados de Seu povo, ao encerrar-se o Seu ministério,
Ele os colocará sobre Satanás, que, na execução do juízo, deverá encarar a
pena final” (http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf). Muito pode ser dito sobre
estas afirmativas que são frutos de uma intertextualidade superficial,
entretanto nosso foco é o Lv. Assim, para tal se “Azazel” era o cabeça dos
demônios ou o precursor de Satanás, não há como saber, mas pode-se afirmar que
tal identificação não é a intenção do uso desse nome nesta passagem
(Lv.16:8,10,26), por quê? Se “Azazel” era um demônio, este rito
significa que os pecados carregados pelo bode eram devolvidos a esse demônio
com o objetivo de removê-los da comunidade e deixá-los em sua fonte, para que
seu poder ou efeito na comunidade fosse completamente quebrado. (HARTLEY. Word
Biblical Commentary: Leviticus, p.238). Esta expiação vista assim, teria
uma conotação tautológica. Além disso, pelo contexto canônico, não há nada nas
Escrituras, no entanto, que indique que Satanás ou seus demônios realizaram uma
função expiatória (ROOKER. Leviticus, The New American Commentary, p.211).
As pretensões desta ensaio são limitadas a fundamentações introdutórias. As ferramentas para a análise acabam por produzir uma metodologia que privilegia as considerações contextuais. Algo de grande importância exegética. Algumas falas destacadas parecem estar alicerçadas somente na análise do termo, algo problemático para o histórico gramáticas. Além disso, o contexto canônico também exerce um papel fundamental. Em suma, responsabilizar o diabo pela expiação do pecado, realmente, funciona como algo absurdo do ponto de vista exegético, pois para conseguir tal afirmativa muitos malabarismos precisam ser feitos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário