quinta-feira, 23 de junho de 2022

 

 Algumas propostas de Leitura para a MACROESTRUTURA do Apocalipse (as partes pelo todo e o todo pelas partes)

    


         No evangelicalismo brasileiro parece que as proposta dispensacionalista impera com suas delimitações. Desta forma, os leitores acabam por pensar no livro das revelações em duas tônicas: literal e futurista. Tal constatação faz com que pensemos na gama de possibilidades que tem sido ignoradas quanto ao estudo deste precioso texto. O foco deste ensaio passa pelo compartilhar as propostas de leitura do MACRO do livro, para que possamos entender este TODO e somente depois a partes (o contrário também é verdade). Alguns estudiosos (John MacArthur, William Hendriksen, Grant Osborne, David Aune, Gregory Beale) terão seus papeis definidos neste processo de análise, pois durante anos e mais anos estudam esta matéria.

     Num primeiro momento ao abrirmos o Apocalipse (toda igreja), observamos seus 22 capítulos. Diante disto, a problemática em voga passa pelo seguinte: como estruturá-lo? De que forma, se pode estabelecer uma divisão para a leitura em partes distintas? A resposta passa não somente pela descrição das propostas, mas também pelas suas devidas justificativas. Por isso, alguns elementos serão compartilhados, introdutoriamente, para melhor entendermos a questão.  

        Comecemos assim, com a abordagem de John MacArthur (quanto abordagem de interpretação: futurista - quanto ao milênio: prémilenista). Por seus pressupostos, este autor americano  vê as linhas estruturais do Apocalipse de três formas: “[1]. As coisas que tens visto (1.1-20), [2] as coisas que são (2:1-3:22) e [3] as coisas que serão (4:1-22:21)”. Para entender melhor esta conexão, observemos que para MacArthur a abordagem futurista (nada de Ap.4-22 aconteceu ainda) vê nos capítulos 4-22 previsões de pessoas e acontecimentos ainda por vir no futuro. Apenas esta abordagem permite que Apocalipse seja interpretados seguindo o mesmo método hermenêutico literal, gramático-histórico pelo qual partes não proféticas da Escritura são interpretados (MacArthur, J. Revelation 1-11, p.10). Portanto, se torna observável o fundamento desta leitura em sua macroestrutura.

      A segunda proposta para a macroestrutura passa pela tese de William Hendriksen (quanto abordagem de interpretação: idealista - quanto ao milênio: amilenista)  chamada de: “paralelismo progressivo”. Assim, o livro pode ser lido em sete seções relacionadas: “1. Cristo no meio dos sete candeeiros de ouro (1-3). 2. O livro com os sete selos (4-7). 3. As sete trombetas de juízo (8-11). 4. A mulher e o filho perseguidos pelo dragão e seus auxiliares (a besta e a prostituta) (12-14). 5. As sete taças de ira (15, 16). 6. A queda da grande prostituta e das bestas (17-19) 7. O julgamento do dragão (Satanás) seguido pelo novo céu e nova terra, a Nova Jerusalém (20-22)”. Kistemaker, um continuador desta percepção o chama de “método cíclico”, pois “em cada ciclo sucessivo e revela novas perspectivas no desenrolar da mensagem divina à Igreja” (KISTEMAKER. Apocalipse, p.97). Em suma, para Hendriksen uma leitura cuidadosa do livro mostra claramente que consiste de sete seções, e que essas correm paralelas umas às outras. Cada uma delas abarca toda a dispensação, da primeira à segunda volta de Cristo. Esse período é visto ora de uma perspectiva, ora de outra. Diferentes seções atribuem a mesma duração ao período descrito. De acordo com o terceiro ciclo (capítulos 8-11), o maior período aqui descrito é de quarenta e dois meses (11.2), ou mil duzentos e sessenta dias (11.3). mesmo período de tempo na seção seguinte (capítulos 12-14), a saber, mil duzentos e sessenta dias (12.6), ou um tempo, dois tempos e metade de um tempo (3 Vi anos) (12.14). Estas três designações são equivalentes exatos. Assim, a seção das trombetas (capítulos 8-11) deve correr paralela à que descreve a batalha entre Cristo e o dragão (capítulos 12-14, HENDRIKSEN. Mais do que Vencedores, pp.5,6). Como no primeiro caso, os pressupostos afirmados produzem o fundamento para tal perspectiva.

     Em terceiro lugar, passemos para a construção de Grant Osborne (quanto abordagem de interpretação: eclética - quanto ao milênio: prémilenista histórico)   que começa bem sincera: “...é preciso uma palavra de cautela: nenhum esquema estrutural para o livro será suficiente, pois as seções se relacionam em dois ou mais níveis” (OSBORNE. Apocalipse, p.33). Osborne levanta as posições em seu texto (“estrutura de quiasmo, sete atos baseado no teatro grego, peça teatral em três atos, conjuntos ou séries de sete, obra litúrgica baseada em padrões antigos de liturgia ou festividades e a recapitulação”) como chave para entender a estrutura e o livro), de maneira que possamos ter uma ideia da discussão. Sua cautela nesta análise se torna real, mas afirma que “as seções se relacionam em dois ou mais níveis”. Assim, a visão da sala do trono (cap. 4 e 5) introduz, num nível, os selos e, em outro nível, funciona como a última seção preparatória para os selos, as trombetas e as taças (com a visão de Cristo em pé, entre os candelabros e as sete cartas). Ademais, a seção central dos capítulos 12—14 é em si mesma uma visão dos oponentes na grande guerra cósmica e, ao mesmo tempo, o terceiro interlúdio, que interrompe os três conjuntos de sete juízos. Seções de introdução como 8.2-5 (às trombetas) e 15.2-4 (às taças) também recapitulam temas das seções anteriores (juízo do sexto selo [6.12-17] e o triunfo dos santos vitoriosos de 14.1-5). Portanto, Osborne concluí sua percepção, afirmando: “o esboço que aqui propomos contempla somente um nível de um livro cuja estrutura é muito complexa e intrincada” (OSBORNE. Apocalipse, p.33). A viabilidade dos “níveis” se torna algo fundante para nossa investigação.

      Num quarto momento passemos para as percepções de David Aune que é exaustivo e profundo no trato desta matéria. Em sua percepção, o Apocalipse consiste em duas seções principais: (A) 1:9–3:22, que se concentra em uma teofania do Cristo exaltado, e (B) 4:1–22:9, uma série de narrativas episódicas de visão introduzidas com uma visão celestial. Ambas as seções são colocadas dentro de uma única narrativa de visão estendida (1:9–22:9), pois 4:1 realmente não interrompe essa narrativa, mas introduz uma nova fase, a jornada celestial de João. Essas seções principais são emolduradas por um prólogo (1:1-8) e um epílogo (22:6-21). O fato da segunda grande seção e epílogo se sobreporem expõe as limitações de um esboço linear para transmitir a estrutura complexa de uma composição como o Apocalipse, onde segmentos do texto podem servir como transições, concluindo a unidade anterior e introduzindo a seguinte. É a estrutura dessa parte principal do Apocalipse que é a mais problemática, e há pouca concordância entre os estudiosos quanto à estrutura dessa extensa unidade textual. Assim, a primeira seção é uma teofania, que se concentra na comissão visionária de João para dirigir proclamações às sete igrejas ditadas pelo Cristo exaltado (1:9–3:22). Já a segunda é muito mais longa e unificada de maneiras relativamente complicadas (4:1–22:9). A primeira parte desta seção (4:1–16:21) é unificada pela estrutura escatológica fornecida pelos sete selos, as sete trombetas e as sete taças. A segunda parte desta seção é unificada pelas revelações angélicas emparelhadas (17:1–19:10 e 21:9–22:9) que enquadram 19:’11-21:8 (AUNE. Vol. 52A: Word Biblical Commentary: Revelation 1-5:14, p. C). A interpelação colocada passa pelo aspecto relacional inicial e fundante para os diálogos existentes no texto.

       Finalmente, passemos pela tese de Gregory Beale (quanto abordagem de interpretação: eclética - quanto ao milênio: milênio inaugurado) quanto ao trato observado (ele é exaustivo nesta análise). Inicialmente, Beale destaca que embora haja desacordo sobre onde exatamente terminam e começam as seções sucessivas: “1:1–8 (prólogo); 1:9–3:22 (sete cartas); 4:1–8:1 (sete selos; às vezes 4:1–5:14 é visto como uma introdução separada); 8:2–11:19 (sete trombetas); 12:1–14:20 (sete selos incluindo 15:2); e 15:1–16:21 (sete taças)”. Um dos problemas mesmo com este esboço passa pelo “interlúdios” ou “parênteses” (7:1–17; 10:1–11:14; BEALE. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.109). Essa constatação tem sua importância, porquanto faz parte de nosso contato inicial com o livro.

     Beale traz uma série de resumos interpretativos de segmentos do livro e breves reflexões sobre suas relações lógicas e temáticas. Algumas das relações lógicas e conceituais dos resumos interpretativos serão elaboradas, enquanto outras são mais evidentes. A questão não é focar na estrutura do livro, como acima, mas enfatizar o fluxo lógico do pensamento, embora às vezes isso possa ser difícil de rastrear. O comentário completo deve ser consultado para uma consideração de explicação mais específica das conexões de transição. O que quer que seja dito aqui deve ser integrado ao esboço e estrutura do livro preferido acima: 1:1-3: Introdução.  1:4-8: Saudação.  1:9–20: Comissionamento de João.  2:1-3: 22: As Cartas às Sete Igrejas.  4: 1–5:14: O Trono, o Pergaminho e o Cordeiro.  6:1-8: Os primeiros quatro selos. 6:9-11: O Quinto Selo. 6:12-17: O Sexto Selo.  7: 1–8: O Selamento das Tribos. 7:9–17: A Multidão. 8:1,3–5: O Sétimo Selo como a Conclusão da Série de Selos.  8:6 - 9:21: As primeiras seis trombetas. 10:1-11: Recomissionamento de João.  11:1-13: As Duas Testemunhas. 11:14-19: A Sétima Trombeta. 12:1-17: Vitória de Cristo sobre o Diabo.  Ap. 12–22 contam a mesma história que os caps. 1–11 12:18–13:18: Exortação.  14:1–20; 15:2–4: O Fim da História.  15:5–8: A Introdução aos Julgamentos das Sete Taças, retomada. 16:1-21: Punição dos ímpios.  17:1-18: A grande Babilônia (“cidade mulher”).  18:1-24: Alegria com a queda de Babilônia. 19:1-10: Casamento do Cordeiro. 19:11–21: A Derrota da Besta e Seus Aliados.  20:1–15: O Milênio. 21:1–22: 5: A Nova Jerusalém. 22:6–21: Exortações à Santidade (BEALE. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, pp. 145-150).

    Esses levantamentos mostram, inicialmente, a complexidade de tal análise. Além disso, a clara dependência de outros pontos para entender a estrutura. A discussão na academia deste ponto tem sido exaustiva a um tempo considerável, ainda assim, certos elementos defendidos são pedagógicos, para que possamos ter certos insights sobre a discussão. Talvez, o conselho de utilidade mais considerável observado passe pela fala de Beale: “a questão não é focar na estrutura do livro, como acima, mas enfatizar o fluxo lógico do pensamento, embora às vezes isso possa ser difícil de rastrear” (BEALE. The book of Revelation: A commentary on the Greek text, p.109). Tal perspectiva é embrionário em sua constituição, mas corrobora com o trato inicial de leitura.

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