quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

 

   “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (βουληθεὶς ἀπεκύησεν ἡμᾶς λόγῳ ἀληθείας): que tipo de nascimento é afirmado em Tg.1:18?


     Neste ensaio analisaremos Tg.1:18, objetivando entender o significado do tipo de nascimento afirmado. Para tal, alguns recursos hermenêuticos serão aplicados. Além disso, consideraremos as teses existentes sobre este tema, defendidas pelos estudiosos. Por meio destes apontamentos, teremos uma ideia dos tratos exegéticos que envolvem Tg.1:18.

        As linhas hermenêuticas presentes nas descrições de defesa passam por algumas proposições. Para um esclarecimento maior podemos reduzir, inicialmente, para o verbo ἀποκυέω (apokyéo, “faço existir e nascer, gero”, aparece somente em Tiago 1:15,18) que tem proeminência no debate. Em primeiro lugar, alguns estudiosos entendem, pelas citações dos pais da igreja, a impossibilidade deste verbo ser entendido como algo metafórico. Em segundo lugar, várias correntes da tradição judaica referem-se a Deus como gerador do Seu povo ou do mundo (Dt.32:18. Sl.22:9; Nm.11:12). Em terceiro lugar, o nascimento ou novo (nascimento) é atestado em todas as formas de tradição cristã, seja em Paulo (Ef.1:5; Rm.12:2; 1Co.4:15; Tt.3:5), Pedro (1Pe.1:3, 23) e João (Jo.1:13; 3:3-8; Jo.13:9; 4:10). Em quarto lugar, a escolha de ἀποκυέω em vez de γεννάω (que teria sido o termo mais usual) foi ditada pela necessidade de fazer um paralelo com 1:15. O pecado produz a morte, mas Deus produz a vida, sendo a qualidade desta vida especificada pelo contexto (DAVIDS. The Epistle of James: A Commentary on the Greek text, p.89). Essas primeiras nos conduzirão as teses hermenêuticas para o tipo de nascimento em voga.

      Antes explorarmos os aspectos fundantes das percepções expostas, precisamos nos atentar ao texto grego: βουληθεὶς ἀπεκύησεν ἡμᾶς [“quando ele decidiu, nos gerou”] λόγῳ ἀληθείας [“pela Palavra da verdade”] εἰς τὸ εἶναι ἡμᾶς ἀπαρχήν τινα τῶν αὐτοῦ κτισμάτων [“para sermos primícias das suas criaturas”]. Varner entende o particípio βουληθεὶς como temporal, diferente das versões em português, pois algumas traduzem como conformativo (“segundo”, ARC, ARA, ACF) outras como modal (“por”, NVI, BJ, NVT). O fundamento de tal percepção funciona a luz da literatura judaico/cristã, desta forma, a ideia é: “quando ele decidiu, nos gerou...” (WILLIAM Varner. The Book of James, A New Perspective, A Linguistic Commentary Applying Discourse Analysis, pp.71,72). Além disso, o meio (dativo instrumental) de “quando ele decidiu, nos gerou” passa pela λόγῳ ἀληθείας (“pela Palavra da verdade”). Este uso (λόγῳ ἀληθείας) é também uma realidade na LXX (Sl.119:43; Jr.23:28; Pv.22:21) e em outros lugares do NT (2Co.6:7; Cl.1:5; 2Tm.2:15). Finalmente, na última linha temos um infinitivo de propósito numa subordinação aos elementos textuais anteriores (“quando ele decidiu nos gerar, por meio da Palavra da verdade, para sermos...”) tese esta, quanto a tradução, defendida por Davids (DAVIDS. The Epistle of James: A Commentary on the Greek text, p.89). O conteúdo que envolve o propósito funciona com o acusativo ἀπαρχήν (“primícia”, termo técnico da linguagem cúltico-sacrificial: a primeira porção dos produtos naturais que era consagrada a YHVH, cujo oferecimento santificava todo o restante). Este termo aparece 9 vezes no NT (Rm.8:23; 11:16; 16:5; 1Co.15:20,23; 16:15; 2Ts.2:13; Tg.1:18; Ap.14:4). Pelo AT ἀπαρχή carrega vários sentidos. Era usado para as ofertas de Israel (Êx.23:16,19; 34:16; Lv.27:26; Nm.18:18; Dt.14:23; 15:19-23), também estava relacionado a Israel como nação eleita, primogênito de Javé (Êx 4:22) e o povo escolhido (Dt 7:6; Jr 2:3). A última parte de 1:18 traz o genitivo τῶν αὐτοῦ κτισμάτων (“das suas criaturas”). A palavra “criaturas” em grego é frequentemente usada para aquela criação de Deus em geral e as que existem nela (compare Rm.8:18-25; 1Tm.4.4; Ap.5.13). Como a criação de Deus inclui as criaturas, é possível usar o termo mais abrangente, “toda a sua criação, em toda a criação, “tudo que ele criou”. Devemos ter o primeiro lugar em toda a sua criação significa que toda aquela incluída no processo de renascimento ou recriação (LOH & HATTON. A Handbook on the Letter from James, p.38).

      Depois destes pontos preliminares foquemos no significado do tipo de nascimento. Para tal, o contexto desempenha um papel de sua importância. Numa primeira possibilidade a ligação com 1:17, onde o diferencial do “Pai das luzes” (πατρὸς τῶν φώτων) traz certas considerações. Isto se deve a negação de “mudança ou sombra de variação” n’Ele.  Estudiosos como William Varner entendem que “Pai das luzes” (πατρὸς τῶν φώτων) funciona como referência a Deus como criador dos luminares celestiais e assim, produziu a luz perfeitamente (WILLIAM Varner. The Book of James, A New Perspective, A Linguistic Commentary Applying Discourse Analysis, p.70). Entretanto, é feita uma distinção entre Criador e criação, pois a imutabilidade está presente no primeiro, mas não no segundo. Assim, a natureza de Deus é imutavelmente boa em contraste com as sombras fugazes causadas pelo sol e céu. Seu atributo de dar apenas o que é bom não está à mercê da mudança. Assim, o impulso deste texto obscuro oferece uma teodiceia para reivindicar o caráter divino em face daqueles que duvidaram da bondade e confiabilidade de Deus ou que perderam a esperança em tempo de prova e imaginaram que era seu “destino”. Tiago fecha a porta para essas falsas ideias (MARTIN. Vol. 48: Word Biblical Commentary: James, p.39). Desta forma, a plausibilidade do retorno a criação quanto ao “tipo de nascimento”. Corrobora com isto o uso que Filo dá ao verbo “gerar” em relação à criação e o argumento de que “criaturas” provavelmente se refere à criação não-humana (MOO Douglas. Tiago, Introdução e Comentário, p.62). A conexão em foco traz o substrato para o entendimento da questão problematizada.

     De outro lado, a conexão com 1:15 é usada como princípio norteador para entendermos o tipo de nascimento. Por esta perspectiva se constrói uma antítese entre a morte e a vida. Como aqueles a quem Deus dá à luz são chamados de “primícias”, por isso, experimentaram uma amostra do que toda a criação experimentou. Mas, Tiago também poderia estar se referindo à obra redentora de Deus em vez de sua obra criativa. O v. 17, com sua linguagem de Deus como “o Pai das luzes”, pode ecoar a oração da manhã judaica, uma que se move diretamente do reconhecimento do Senhor como criador das luzes celestiais. Além disso, a linguagem que Tiago usa no versículo, embora capaz de uma aplicação “cosmológica” geral, é mais provável de ser lida sob uma luz soteriológica. O verbo “dar à luz”, em sua única outra ocorrência no NT, foi usado metaforicamente no v.15 com referência ao nascimento espiritual. “Primícias” é uma forma habitual de denotar os cristãos no NT (2Ts. 2:13; Ap. 14:4; Rm.16:5; 1Co.16:15). A evidência mais importante a favor de um “nascimento” redentor aqui é a frase “a palavra da verdade”. A sintaxe sugere que esta “palavra” é o instrumento através do qual Deus traz as pessoas à vida. Todas as outras quatro ocorrências da frase no NT referem-se ao evangelho como o agente da salvação (2 Co.6:7; Ef.1:13; Cl.1:5; 2Tm.2:15). Esta referência a “palavra” também deve ser vista em relação a outros usos importantes do mesmo termo neste contexto (vv. 21, 22, 23). A “palavra implantada” do v. 21 às vezes é considerada uma consciência de Deus residente por natureza em cada ser humano (MOO. The Letter of James. The Pillar New Testament commentary, p.79).

     O levantamento investigativo trouxe alguns apontamentos para nossa conclusão. Evidente que as pretensões deste ensaio são sintéticas. Ainda assim, percebemos possibilidades fundamentadas no contexto e tradução. As duas plausíveis pela conexão presente no discurso. Entretanto, a conexão com o v.15 tem elementos mais abrangentes, no que diz respeito ao NT. Isto não significa ausência de equivalência, pois o poder de Deus aplicado a criação (não humana) o foi também ao nascimento espiritual

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