sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

 

Cessacionismo e Continuísmo ligados ao Binômio: Qualificação/ Funcionalidade dos χαρίσματα (“presentes graciosos”).  


             

        Este ensaio tem pretensões distintas em suas discussões, porquanto além de trabalhar, exegeticamente o texto de 1Co.12 (numa redução definida) também propõe, resumidamente um tipo de pedagogia de compreensão dos χαρίσματα pelo binômio qualificação/funcionalidade. Se faz necessário destacar também que faremos uma redução na lista de 12:8-10, envolvendo somente λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως (“palavra de conhecimento, palavra de sabedoria” a tradução trabalhada por Thiselton será vista, posteriormente) de maneira que, possamos estabelecer uma leitura que funcione numa dinâmica, envolvendo os χαρίσματα no contexto paulino quanto aos seus desdobramentos (situação dos coríntios). A defesa presente neste ensaio está fundamentada na verificação dos χαρίσματα pelo binômio qualificação/funcionalidade.  

        Em 1Co.12 temos discussões descritas que têm como proeminência o papel do Espírito (vs.3,4,7,8,9,11,13). Inicialmente, pela conhecida discussão presente em 12:1 quanto a Περὶ δὲ τῶν πνευματικῶν (“acerca dos dons” ou “dos espirituais”) vista em tradução como neutro ou masculino (“pessoas espirituais ou dons espirituais”). Não é nosso propósito aqui, mas parece ser mais coerente a tradução que trabalha os “espirituais” (12:1 – 14:37 um interessante inclusio). Além disso, a trilogia χαρισμάτων (“presentes graciosos”) - διακονιῶν (“serviços”) - ἐνεργημάτων (“realizações ou aplicações do poder”) presente em 12:4-6 ganha uma conotação de “diversidade” em meio a unidade vista pelo paralelismo sinonímico: πνεῦμα (“Espírito”), κύριος (“Senhor”) e θεὸς (“Deus”). Algo visto em oposição a abordagem trinitária. Depois disto, chegamos ἡ φανέρωσις τοῦ πνεύματος (“a manifestação do Espírito” ou “o Espírito que se manifesta” Genitivo Subjetivo) que traz uma pequena lista, parecendo ser estruturada pelos adjetivos: ... διὰ τοῦ πνεύματος δίδοται ... (pelo Espírito é dada), ἄλλῳ δὲ ... (e a outro), ἑτέρῳ (e outro diferente) ... Chegamos assim, a tônica que trará as linhas de defesa presentes neste ensaio.

        Com o pressuposto de que a lista de 12:8-10 funciona como ἡ φανέρωσις τοῦ πνεύματος (“a manifestação do Espírito” ou “o Espírito que se manifesta”) traremos λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως para a régua do binômio para entendermos o Cessacionismo e o Continuísmo. Com isto, devemos estar atentos ao fato de que o próprio NT (CXT Canônico) trará esta delimitação (unidade e diversidade do NT), além disso, o respeito pela “leitura histórica”, de viés inegociável, será levada em conta, porquanto os cristãos de corinto receberam certas correções de significado. Por isso, para a metodologia do binômio os χαρίσματα começam a ser qualificados no mundo do texto.   

       λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως (“palavra de conhecimento, palavra de sabedoria”) Thiselton trabalha dois tipos de Genitivo: “Subjetivo: enunciado articulado derivado da sabedoria de Deus; Objetivo: enunciado sobre a sabedoria de Deus” (THISELTON. The First Epistle to The Corinthians: A Commentary on The Greek Text, p.938).   Ao observamos estes dois primeiros itens da lista (não exaustiva) nossa primeira questão passa pela qualificação, ou seja, como defini-los? Este primeiro passo é de fundamental importância, já que o continuísmo é precedido pela qualificação (entendimento do que realmente significa). Assim, somos desafiados a analisar estes conceitos de forma exaustiva.  

      O λόγος, que funciona como primeira parte da expressão, aparece algumas vezes em 1Co.1:5,17,18; 2:1,4,13; 4:19,20; 14:9,19,36; 15:2,54. Seu primeiro complemento (σοφίας) também tem fortes laços com 1Co (cf. 1:17,19-22, 24, 30; 2:1,4,5,6,7,13; 3:19) e o segundo (γνώσεως) também (cf. 8:1,7,10,11; 12:8; 13:2,8; 14:6). Não está claro para os estudiosos, se existe uma distinção entre σοφία e γνῶσις, (cf. Robertson & Plummer. ICC First epistle of St. Paul to the Corinthians. p.265; (THISELTON. The First Epistle to The Corinthians: A Commentary on The Greek Text, p.940) embora, Calvino pense em “conhecimento no sentido de informação ordinária, e sabedoria, incluindo revelações que são de um a ordem m ais secreta e sublime” (CALVINO. 1Coríntios, p.379). 

      De outro lado, alguns estudiosos entendem que este λόγος neste contexto descreve “a mensagem do conhecimento”. Fee trabalha esta percepção e traduz λόγος σοφίας como “uma mensagem/elocução repleta de sabedoria”,  assim, essa expressão remete claramente ao problema abordado no início da carta (1.17—2.16), em que, com base na “sabedoria”, os coríntios estavam rejeitando tanto Paulo quanto seu evangelho (FEE. Comentário Exegético de 1Coríntios, p.749). Corrobora com esta percepção a ideia de Garland, pois afirma que a “mensagem da sabedoria” difere da “arte persuasiva da sabedoria”. Desta forma, “sabedoria é a visão dada por Deus sobre os misteriosos propósitos e obras d’Ele por meio de Jesus Cristo” (GARLAND. 1Corinthians Baker Exegetical Commentary on The New Testament, p.581). Estas ideias interpretativas acabam por nos conduzir para a possibilidade de vermos σοφίας e γνώσεως como reveladoras da mensagem, e não propriamente χαρίσμα. (GARLAND. p.581). Thiselton trabalha com o termo “dons de expressão comunicativa articular”, os quais “podem recorrer a sabedoria e ao conhecimento de Deus, especialmente quando isto serve ao “bem comum” de todos e a proclamação da cruz”.  Além disso, ele traz testemunhos do período da patrística, inicialmente de Crisóstomo (347-407) que considerava os “dons espirituais” (em geral em 12:1-11) como “os que costumavam ocorrer, mas agora não acontecem mais”. Além disso, embora ele comente em detalhes sobre 12: 1-7, simplesmente repete o texto dos vv. 8–10 sem comentários, como se para sugerir que não podemos saber nada sobre o significado desses dons, os quais, por isso parece sugerir que cessaram. Tertuliano (160-220), de outro lado, retorna às perspectivas cristológicas. O enunciado que se relaciona com a sabedoria é “o Espírito de sabedoria”, o qual é aquela do evangelho e o conhecimento dele. Clemente de Alexandria (150-215) enfatiza a unidade e a diversidade dos dons em vez de seu conteúdo, exceto para comentar que eles são “apostólicos”, ou seja, refletem o “conhecimento, vida, pregação, justiça, pureza e profecia” dos apóstolos, concernente especialmente “a fé em Cristo e o conhecimento do evangelho”. Finalmente, Orígenes (185-253) é bastante claro que “no catálogo dos χαρίσματα concedidos por Deus, Paulo colocou primeiro λόγος σοφίας, porque considerou a proclamação (λόγος) como poderes mais elevados do que milagrosos. (THISELTON. The First Epistle to The Corinthians: A Commentary on The Greek Text, p.940, 943). Tudo isto chancela que a ênfase não é exatamente a sabedoria e conhecimento, mas sim a palavra (1:18) que surge da sabedoria e do conhecimento (CARSON. A Manifestação do Espírito, p.40).

      Com esta síntese, no que diz respeito a qualificação de λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως, passemos para a funcionalidade. A problemática em voga é a seguinte: de que forma estes χαρίσματα deveriam se tornar concretos no contexto eclesiológico dos coríntios? Esta problemática tem considerável relevância para a proposta em foco, porquanto a funcionalidade parte, primeiramente do contexto dos leitores originais (situação dos coríntios). Carson trata esta questão pois, entende que “provavelmente aqueles que foram capacitados por esses dons desfrutavam de uma experiência especial com o Espírito. Por intermédio dele, uma palavra vinha a eles para que fosse transmitida à congregação; não fica claro, porém, se o conteúdo dessas palavras era invariavelmente algo que não poderia ser conhecido de outro modo(CARSON. A Manifestação do Espírito, p.40). Para Garland a “mensagem de conhecimento e sabedoria está intimamente relacionada com aquela entregue pelos apóstolos (2: 6–7,11–16; 2 Co.11:6), profetas (1Co. 13: 2) e mestres (14:6, 26). É esse ministério da palavra que mais beneficia a igreja e fortalece sua missão no mundo (GARLAND. 1Corinthians Baker Exegetical Commentary on The New Testament, p.581). Corrobora a tese de Fee que vê a “elocução de sabedoria”, vindo “por meio do Espírito”, e em Corinto ela deve ser encontrada, com quase toda a certeza, entre aqueles que apresentam falas inspiradas pelo Espírito que proclamam Cristo crucificado nessa comunidade extremamente interessada na “sabedoria” (FEE. Comentário Exegético de 1Coríntios, p.749). Existem tantas outras alternativas, entretanto, a funcionalidade não parece ser clara, quando falamos de concretização. Ainda assim, devemos ter mente que os modelos eclesiológicos do nosso tempo dificilmente se encaixam em tal dinâmica. Com isto, não tomamos tal percepção como primária para o entendimento da questão.  

       Ao partimos dos pressupostos quanto ao λόγος como “mensagem” (“discurso”), o desenvolvimento envolvendo o caráter público (11:17,18,20; 14:26) e a questão do “bem comum” (12:14-27), certificamos o efeito em propriedades distintas. Talvez, não possamos falar num aspecto querigmático com todos os pontos necessários, ainda assim, temos a mensagem (particular) abrangendo o coletivo (geral). Por isso, precisamos levar em conta a progressividade constitutiva da TBNT (Teologia Bíblica do NT) e o caráter cronológico do Cânon do NT (organização cronológica do NT, diferente da Canônica).  Sabemos que 1Co foi escrito, provavelmente durante o fim do inverno de 54,55 d.C ou no início da primavera de 55 d.C, quando Paulo estava em Éfeso (16:8,9; HALE. Introdução ao Estudo do NT, p.227). De outro lado, a datação das pastorais (65/66 d.C. O apóstolo foi liberado para o trabalho missionário. Escrita de 1 Timóteo e Tito. 65/66 d.C. Paulo é preso novamente. Isso foi seguido pela escrita de 2 Timóteo, a segunda prisão romana e o martírio, LEA, T. D., & GRIFFIN. 1, 2 Timothy, Titus, The New American Commentary, p.41) é afirmada em outro momento. Por que esta somatização? O elemento da progressividade está em voga, porquanto nas pastorais percebemos a constituição do bispo/presbítero (ἐπισκοπή ou πρεσβύτερος), recebendo a responsabilidade quanto ao compartilhar a Palavra a congregação (1Tm.3:1-6; 5:17; Tt.1:5-9). Desta forma, a mensagem passa a ser compartilhada no coletivo pelos oficiais dotados do χαρίσμα (1Tm.4:14. 2Tm.1:6) e automaticamente da responsabilidade de ensinar numa igreja/casa. A compatibilidade das duas afirmativas funciona pelo elemento progressivo quanto as constituições vistas em momentos distintos.

      As pretensões deste ensaio são limitadas as suas poucas páginas. A prioridade presente na defesa é trabalhar um tipo de leitura que passe pelo binômio qualificação/funcionalidade. Para tal usamos como laboratório somente os χαρίσματα: λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως. Entretanto, todos outros (χαρίσματα) podem ser vistos da mesma forma, mas com respostas diferentes. Portanto, pela dificuldade com a qualificação de e automaticamente com a funcionalidade, neste caso o CESSACIONISMO parece ser a melhor resposta. Além disso, os aspectos progressivo e cronológico levantados chancelam o exercício numa dinâmica envolvendo bispo ou presbítero (ἐπισκοπή ou πρεσβύτερος).

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