Cessacionismo
e Continuísmo ligados ao Binômio: Qualificação/ Funcionalidade dos χαρίσματα (“presentes graciosos”).
Este ensaio tem pretensões distintas em suas discussões, porquanto além
de trabalhar, exegeticamente o texto de 1Co.12 (numa redução definida) também
propõe, resumidamente um tipo de pedagogia de compreensão dos χαρίσματα pelo
binômio qualificação/funcionalidade. Se faz necessário destacar também que
faremos uma redução na lista de 12:8-10, envolvendo somente λόγος
σοφίας [...] λόγος γνώσεως (“palavra
de conhecimento, palavra de sabedoria” a tradução trabalhada por Thiselton será
vista, posteriormente) de maneira que, possamos estabelecer uma leitura que
funcione numa dinâmica, envolvendo os χαρίσματα no contexto paulino quanto aos seus desdobramentos
(situação dos coríntios). A defesa presente neste ensaio está fundamentada na
verificação dos χαρίσματα pelo binômio qualificação/funcionalidade.
Em 1Co.12 temos discussões descritas que têm
como proeminência o papel do Espírito (vs.3,4,7,8,9,11,13). Inicialmente, pela
conhecida discussão presente em 12:1 quanto a Περὶ
δὲ τῶν πνευματικῶν (“acerca dos dons” ou
“dos espirituais”) vista em tradução como neutro ou masculino (“pessoas
espirituais ou dons espirituais”). Não é nosso propósito aqui, mas parece ser
mais coerente a tradução que trabalha os “espirituais” (12:1 – 14:37 um interessante
inclusio). Além disso, a trilogia χαρισμάτων (“presentes
graciosos”) - διακονιῶν (“serviços”)
- ἐνεργημάτων (“realizações
ou aplicações do poder”) presente em 12:4-6 ganha uma conotação de
“diversidade” em meio a unidade vista pelo paralelismo sinonímico: πνεῦμα (“Espírito”), κύριος (“Senhor”) e
θεὸς (“Deus”).
Algo
visto em oposição a abordagem trinitária. Depois disto, chegamos ἡ φανέρωσις τοῦ πνεύματος (“a
manifestação do Espírito” ou “o Espírito que se manifesta” Genitivo Subjetivo) que
traz uma pequena lista, parecendo ser estruturada pelos adjetivos: ... διὰ
τοῦ πνεύματος δίδοται ... (pelo Espírito é dada), ἄλλῳ δὲ
... (e a outro), ἑτέρῳ (e
outro diferente) ... Chegamos assim, a tônica que trará as linhas de
defesa presentes neste ensaio.
Com
o pressuposto de que a lista de 12:8-10 funciona como ἡ φανέρωσις τοῦ πνεύματος (“a
manifestação do Espírito” ou “o Espírito que se manifesta”) traremos λόγος
σοφίας [...]
λόγος γνώσεως para a régua do binômio para
entendermos o Cessacionismo e o Continuísmo. Com isto, devemos estar atentos ao
fato de que o próprio NT (CXT Canônico) trará esta delimitação (unidade e
diversidade do NT), além disso, o respeito pela “leitura histórica”, de viés
inegociável, será levada em conta, porquanto os cristãos de corinto receberam certas
correções de significado. Por isso, para a metodologia do binômio os χαρίσματα começam a ser
qualificados no mundo do texto.
λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως (“palavra de conhecimento, palavra de
sabedoria”) Thiselton trabalha dois tipos
de Genitivo: “Subjetivo: enunciado articulado derivado da sabedoria de Deus;
Objetivo: enunciado sobre a sabedoria de Deus” (THISELTON. The First Epistle to The Corinthians: A Commentary on The Greek Text, p.938).
Ao observamos estes dois primeiros itens da lista (não
exaustiva) nossa primeira questão passa pela qualificação, ou seja, como defini-los? Este primeiro passo é de fundamental importância, já que o
continuísmo é precedido pela qualificação (entendimento do que realmente
significa). Assim, somos desafiados a analisar estes conceitos de forma
exaustiva.
O λόγος,
que funciona como primeira parte da expressão,
aparece algumas vezes em 1Co.1:5,17,18; 2:1,4,13; 4:19,20; 14:9,19,36; 15:2,54.
Seu primeiro complemento (σοφίας) também tem fortes laços com 1Co (cf. 1:17,19-22, 24, 30;
2:1,4,5,6,7,13; 3:19) e o segundo (γνώσεως) também (cf. 8:1,7,10,11; 12:8; 13:2,8; 14:6). Não está
claro para os estudiosos, se existe uma distinção entre σοφία
e γνῶσις, (cf. Robertson &
Plummer. ICC First epistle of St. Paul to the Corinthians. p.265; (THISELTON. The First Epistle to The Corinthians: A
Commentary on The Greek Text, p.940) embora, Calvino pense em “conhecimento
no sentido de informação ordinária, e sabedoria, incluindo revelações que são
de um a ordem m ais secreta e sublime” (CALVINO. 1Coríntios, p.379).
De
outro lado, alguns estudiosos entendem que este
λόγος neste contexto descreve “a mensagem do conhecimento”. Fee
trabalha esta percepção e traduz λόγος σοφίας como “uma mensagem/elocução repleta de sabedoria”, assim, essa expressão remete claramente ao
problema abordado no início da carta (1.17—2.16), em que, com base na
“sabedoria”, os coríntios estavam rejeitando tanto Paulo quanto seu evangelho (FEE. Comentário Exegético de 1Coríntios, p.749).
Corrobora com esta percepção a ideia de Garland, pois afirma que a “mensagem da
sabedoria” difere da “arte persuasiva da sabedoria”. Desta forma, “sabedoria é
a visão dada por Deus sobre os misteriosos propósitos e obras d’Ele por meio de
Jesus Cristo” (GARLAND. 1Corinthians
Baker Exegetical Commentary on The New Testament, p.581). Estas ideias
interpretativas acabam por nos conduzir para a possibilidade de vermos σοφίας e γνώσεως como reveladoras da mensagem, e não propriamente χαρίσμα. (GARLAND. p.581). Thiselton
trabalha com o termo “dons de expressão comunicativa articular”, os quais
“podem recorrer a sabedoria e ao conhecimento de Deus, especialmente quando
isto serve ao “bem comum” de todos e a proclamação da cruz”. Além disso, ele traz testemunhos do período da
patrística, inicialmente de Crisóstomo (347-407) que considerava os
“dons espirituais” (em geral em 12:1-11) como “os que costumavam ocorrer, mas
agora não acontecem mais”. Além disso, embora ele comente em detalhes sobre 12:
1-7, simplesmente repete o texto dos vv. 8–10 sem comentários, como se para
sugerir que não podemos saber nada sobre o significado desses dons, os quais,
por isso parece sugerir que cessaram. Tertuliano (160-220), de outro lado,
retorna às perspectivas cristológicas. O enunciado que se relaciona com a
sabedoria é “o Espírito de sabedoria”, o qual é aquela do evangelho e o
conhecimento dele. Clemente de Alexandria (150-215) enfatiza a unidade e a
diversidade dos dons em vez de seu conteúdo, exceto para comentar que eles são
“apostólicos”, ou seja, refletem o “conhecimento, vida, pregação, justiça,
pureza e profecia” dos apóstolos, concernente especialmente “a fé em Cristo e o
conhecimento do evangelho”. Finalmente, Orígenes (185-253) é bastante claro que
“no catálogo dos χαρίσματα concedidos por Deus,
Paulo colocou primeiro λόγος σοφίας, porque considerou a proclamação (λόγος) como poderes mais elevados do que milagrosos. (THISELTON.
The First Epistle to The Corinthians: A
Commentary on The Greek Text, p.940, 943). Tudo isto chancela que a ênfase
não é exatamente a sabedoria e conhecimento, mas sim a palavra (1:18) que surge
da sabedoria e do conhecimento (CARSON. A
Manifestação do Espírito, p.40).
Com
esta síntese, no que diz respeito a qualificação de λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως, passemos para a
funcionalidade. A problemática em voga é a seguinte: de que forma estes χαρίσματα deveriam se
tornar concretos no contexto eclesiológico dos coríntios? Esta problemática tem considerável relevância
para a proposta em foco, porquanto a funcionalidade parte, primeiramente do
contexto dos leitores originais (situação dos coríntios). Carson trata esta questão pois, entende que “provavelmente
aqueles que foram capacitados por esses dons desfrutavam de uma experiência especial com o Espírito.
Por intermédio dele, uma palavra vinha a eles para que fosse
transmitida à congregação; não fica claro, porém, se o conteúdo dessas palavras era invariavelmente algo
que não poderia ser conhecido de outro modo” (CARSON.
A Manifestação do Espírito, p.40). Para
Garland a “mensagem de conhecimento e sabedoria está intimamente relacionada
com aquela entregue pelos apóstolos (2: 6–7,11–16; 2 Co.11:6), profetas (1Co.
13: 2) e mestres (14:6, 26). É esse ministério da palavra que mais beneficia a
igreja e fortalece sua missão no mundo (GARLAND. 1Corinthians Baker Exegetical Commentary on The New Testament,
p.581). Corrobora a tese de Fee que
vê a “elocução de sabedoria”, vindo “por meio do Espírito”, e em Corinto ela deve ser encontrada, com
quase toda a certeza, entre
aqueles que apresentam falas inspiradas pelo Espírito que proclamam Cristo crucificado nessa comunidade
extremamente interessada na “sabedoria” (FEE. Comentário Exegético de 1Coríntios, p.749). Existem tantas outras
alternativas, entretanto, a funcionalidade não parece ser clara, quando falamos
de concretização. Ainda assim, devemos ter mente que os modelos eclesiológicos
do nosso tempo dificilmente se encaixam em tal dinâmica. Com isto, não tomamos
tal percepção como primária para o entendimento da questão.
Ao partimos dos pressupostos quanto ao λόγος como “mensagem” (“discurso”),
o desenvolvimento envolvendo o caráter público (11:17,18,20; 14:26) e a questão
do “bem comum” (12:14-27), certificamos o efeito em propriedades distintas. Talvez,
não possamos falar num aspecto querigmático com todos os pontos necessários,
ainda assim, temos a mensagem (particular) abrangendo o coletivo (geral). Por
isso, precisamos levar em conta a progressividade constitutiva da TBNT (Teologia
Bíblica do NT) e o caráter cronológico do Cânon do NT (organização cronológica
do NT, diferente da Canônica). Sabemos
que 1Co foi escrito, provavelmente durante o fim do inverno de 54,55 d.C ou no
início da primavera de 55 d.C, quando Paulo estava em Éfeso (16:8,9; HALE. Introdução ao Estudo do NT, p.227). De
outro lado, a datação das pastorais (65/66 d.C. O
apóstolo foi liberado para o trabalho missionário. Escrita de 1 Timóteo e Tito.
65/66 d.C. Paulo é preso novamente. Isso foi seguido pela escrita de 2
Timóteo, a segunda prisão romana e o martírio, LEA, T. D., & GRIFFIN. 1, 2 Timothy, Titus, The
New American Commentary, p.41)
é afirmada em outro momento. Por que esta
somatização? O elemento da progressividade está em voga, porquanto nas
pastorais percebemos a constituição do
bispo/presbítero (ἐπισκοπή ou πρεσβύτερος), recebendo a
responsabilidade quanto ao compartilhar a Palavra a congregação (1Tm.3:1-6; 5:17; Tt.1:5-9). Desta forma, a
mensagem passa a ser compartilhada no coletivo pelos oficiais dotados do χαρίσμα (1Tm.4:14.
2Tm.1:6) e automaticamente da responsabilidade de ensinar numa igreja/casa. A
compatibilidade das duas afirmativas funciona pelo elemento progressivo quanto
as constituições vistas em momentos distintos.
As pretensões deste ensaio são limitadas as suas poucas páginas. A prioridade presente na defesa é trabalhar um tipo de leitura que passe pelo binômio qualificação/funcionalidade. Para tal usamos como laboratório somente os χαρίσματα: λόγος σοφίας [...] λόγος γνώσεως. Entretanto, todos outros (χαρίσματα) podem ser vistos da mesma forma, mas com respostas diferentes. Portanto, pela dificuldade com a qualificação de e automaticamente com a funcionalidade, neste caso o CESSACIONISMO parece ser a melhor resposta. Além disso, os aspectos progressivo e cronológico levantados chancelam o exercício numa dinâmica envolvendo bispo ou presbítero (ἐπισκοπή ou πρεσβύτερος).
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